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Incesto de proveta
Francesa
de 62 anos tem um
filho
gerado com óvulo doado por
americana e sêmen do irmão

Aida Veiga
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| Jeanine,
a mãe tardia, com o bebê e, à direita, acompanhada do irmão,
que sofre de paralisia facial por tentativa de suicídio: "Consciência
tranqüila" |
A
ciência é pródiga em assombrar a humanidade com suas
conquistas algumas vezes, a ponto de tirar os leigos do prumo. O susto
mais recente veio à tona na semana passada. Uma francesa apresentada
apenas como Jeanine S., professora aposentada de 62 anos, revelou que
o filho que teve no mês passado é fruto da fertilização
artificial feita com o sêmen do irmão, Robert, 52. Como a
legislação francesa proíbe mulheres que já
entraram na menopausa de recorrer à reprodução assistida,
Jeanine procurou uma clínica nos Estados Unidos. Em agosto de 2000,
o esperma do irmão foi usado para fecundar o óvulo de uma
doadora americana, Deborah, e gerou dois embriões. Um ficou com
Jeanine, o outro foi implantado na própria doadora. No intervalo
de uma semana, Jeanine deu à luz um menino, Benoît-David,
e Deborah, uma menina, Marie-Cécile, levada em seguida para a França.
Desde então, moram todos juntos, na casa da avó, uma senhora
de 80 anos. Jeanine, com o menino que gerou na qualidade de "mãe
de barriga", biologicamente seu sobrinho, cronologicamente seu neto, de
nacionalidade francesa. Robert, com a garotinha, filha de uma estranha,
sobrinha da mãe de seu irmão gêmeo, americana por
nascimento. Em entrevista ao jornal Le Parisien, Jeanine disse
que escolheu o irmão porque queria perpetuar a herança genética
da família, já que Robert também não tinha
filhos, e se defendeu: "Tenho a consciência tranqüila. Não
fiz nada de errado".
Gerard Burkhart/AFP
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| Sahakian:
médico alega que não sabia que se tratava de dois irmãos |
Tecnicamente, a criança gerada dessa forma não é
fruto de incesto, pois Jeanine entrou apenas com o útero, não
com o material genético. Mas fica no ar uma sensação
de mal-estar, especialmente quando se envolve um tabu tão crucial
como o que interdita o sexo e, acima de tudo, a procriação
entre parentes. "Embora a questão do parentesco esteja excluída
do ponto de vista genético, pelo ponto de vista moral o incesto
é claro", comenta o obstetra Antonio Fernandes Moron, responsável
pelo departamento de medicina fetal da Universidade Federal de São
Paulo. "Corremos o risco de transformar o ser humano em um animal de biotério,
sujeito a todo tipo de experimentação." Desde 1987, quando
uma sul-africana gerou óvulos fecundados da filha, os bebês
de proveta criam situações complexas. Alguns exemplos: filhos
de pais mortos que deixaram o sêmen congelado, os direitos das mães
de aluguel, crianças produzidas para casais de homossexuais e o
que acontece com elas quando os adultos se separam. (Um caso recente é
o da cantora americana Melissa Etheridge e a cineasta Julie Cypher. As
duas já terminaram a relação e os dois filhos, concebidos
por Julie com a ajuda do esperma do roqueiro David Crosby, ficaram com
a mãe, no sentido estrito da palavra.)
Outro ponto polêmico é a idade da mãe. O médico
italiano Severino Antinori foi o primeiro a levar uma mulher de 63 anos
a parir. Hoje com 70 anos, Rossana Della Corte ainda tem saúde
e disposição para cuidar do pequeno Ricardo, de 7. O Brasil
já teve o caso de uma baiana de 62 anos que deu à luz um
menino com o óvulo de uma doadora fecundado pelo marido. A gestação
nessa idade aumenta muito os riscos para a mulher e a criança,
mas pode chegar a bom termo. Levando-se em conta a expectativa de vida
de 70, 75 anos, a criança assim gerada ficará órfã
na puberdade ressalva raramente levantada quando um homem de idade
similar tem um filho com esposa décadas mais jovem. "O que pesa
nesse caso é a moral, o caráter", opina o urologista Roger
Abdelmassih, dono da maior clínica de reprodução
assistida no Brasil.
Apesar de dizer que tem a consciência tranqüila, Jeanine mentiu
para o médico americano Vicken Sahakian ao apresentar o irmão
como marido. "Se eu soubesse, não teria feito a inseminação",
alega ele. O argumento do ambiente de amor absoluto com que as crianças
de proveta costumam ser recebidas também encontra restrições
no caso francês. Jeanine e Robert, ela professora, ele funcionário
público, são os únicos herdeiros de uma respeitável
fortuna de 3 milhões de dólares, amealhada no ramo de imóveis
pela mãe, Marie. Brigaram feio por causa de dinheiro, a ponto de
haver boletins de ocorrência na polícia. A certa altura,
Jeanine expulsou o irmão de casa. Em 1996, Robert tentou suicídio
depois de três anos em tratamento contra depressão. Deu um
tiro no queixo e ficou com paralisia facial. É nesse lar que Benoît
e Cécile estão sendo criados.
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