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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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Incesto de proveta

Francesa de 62 anos tem um
filho gerado com óvulo doado por
americana e sêmen do irmão

Aida Veiga

Jeanine, a mãe tardia, com o bebê e, à direita, acompanhada do irmão, que sofre de paralisia facial por tentativa de suicídio: "Consciência tranqüila"

A ciência é pródiga em assombrar a humanidade com suas conquistas – algumas vezes, a ponto de tirar os leigos do prumo. O susto mais recente veio à tona na semana passada. Uma francesa apresentada apenas como Jeanine S., professora aposentada de 62 anos, revelou que o filho que teve no mês passado é fruto da fertilização artificial feita com o sêmen do irmão, Robert, 52. Como a legislação francesa proíbe mulheres que já entraram na menopausa de recorrer à reprodução assistida, Jeanine procurou uma clínica nos Estados Unidos. Em agosto de 2000, o esperma do irmão foi usado para fecundar o óvulo de uma doadora americana, Deborah, e gerou dois embriões. Um ficou com Jeanine, o outro foi implantado na própria doadora. No intervalo de uma semana, Jeanine deu à luz um menino, Benoît-David, e Deborah, uma menina, Marie-Cécile, levada em seguida para a França. Desde então, moram todos juntos, na casa da avó, uma senhora de 80 anos. Jeanine, com o menino que gerou na qualidade de "mãe de barriga", biologicamente seu sobrinho, cronologicamente seu neto, de nacionalidade francesa. Robert, com a garotinha, filha de uma estranha, sobrinha da mãe de seu irmão gêmeo, americana por nascimento. Em entrevista ao jornal Le Parisien, Jeanine disse que escolheu o irmão porque queria perpetuar a herança genética da família, já que Robert também não tinha filhos, e se defendeu: "Tenho a consciência tranqüila. Não fiz nada de errado".


Gerard Burkhart/AFP
Sahakian: médico alega que não sabia que se tratava de dois irmãos


Tecnicamente, a criança gerada dessa forma não é fruto de incesto, pois Jeanine entrou apenas com o útero, não com o material genético. Mas fica no ar uma sensação de mal-estar, especialmente quando se envolve um tabu tão crucial como o que interdita o sexo e, acima de tudo, a procriação entre parentes. "Embora a questão do parentesco esteja excluída do ponto de vista genético, pelo ponto de vista moral o incesto é claro", comenta o obstetra Antonio Fernandes Moron, responsável pelo departamento de medicina fetal da Universidade Federal de São Paulo. "Corremos o risco de transformar o ser humano em um animal de biotério, sujeito a todo tipo de experimentação." Desde 1987, quando uma sul-africana gerou óvulos fecundados da filha, os bebês de proveta criam situações complexas. Alguns exemplos: filhos de pais mortos que deixaram o sêmen congelado, os direitos das mães de aluguel, crianças produzidas para casais de homossexuais e o que acontece com elas quando os adultos se separam. (Um caso recente é o da cantora americana Melissa Etheridge e a cineasta Julie Cypher. As duas já terminaram a relação e os dois filhos, concebidos por Julie com a ajuda do esperma do roqueiro David Crosby, ficaram com a mãe, no sentido estrito da palavra.)

Outro ponto polêmico é a idade da mãe. O médico italiano Severino Antinori foi o primeiro a levar uma mulher de 63 anos a parir. Hoje com 70 anos, Rossana Della Corte ainda tem saúde e disposição para cuidar do pequeno Ricardo, de 7. O Brasil já teve o caso de uma baiana de 62 anos que deu à luz um menino com o óvulo de uma doadora fecundado pelo marido. A gestação nessa idade aumenta muito os riscos para a mulher e a criança, mas pode chegar a bom termo. Levando-se em conta a expectativa de vida de 70, 75 anos, a criança assim gerada ficará órfã na puberdade – ressalva raramente levantada quando um homem de idade similar tem um filho com esposa décadas mais jovem. "O que pesa nesse caso é a moral, o caráter", opina o urologista Roger Abdelmassih, dono da maior clínica de reprodução assistida no Brasil.

Apesar de dizer que tem a consciência tranqüila, Jeanine mentiu para o médico americano Vicken Sahakian ao apresentar o irmão como marido. "Se eu soubesse, não teria feito a inseminação", alega ele. O argumento do ambiente de amor absoluto com que as crianças de proveta costumam ser recebidas também encontra restrições no caso francês. Jeanine e Robert, ela professora, ele funcionário público, são os únicos herdeiros de uma respeitável fortuna de 3 milhões de dólares, amealhada no ramo de imóveis pela mãe, Marie. Brigaram feio por causa de dinheiro, a ponto de haver boletins de ocorrência na polícia. A certa altura, Jeanine expulsou o irmão de casa. Em 1996, Robert tentou suicídio depois de três anos em tratamento contra depressão. Deu um tiro no queixo e ficou com paralisia facial. É nesse lar que Benoît e Cécile estão sendo criados.

   
 
   
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