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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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Mais de 1 000 000
de dólares

Uma enxurrada de novos apartamentos
de alto luxo em São Paulo, para quem
não tem problema de caixa

Juliana Saboia


Fotos Pedro Rubens
Fotos Pedro Rubens
Salões de mais de 100 metros quadrados, pisos de mármore importado e, nos dúplex, piscina e escadaria suntuosas: detalhes de acabamento, localização e sistema de segurança levam os preços às alturas

Quando se trata de apartamentos de alto padrão há um bom critério para separar um imóvel, digamos, apenas luxuoso daquele absolutamente magnífico: o preço acima de 1 milhão de dólares. Algo em torno de 2,4 milhões de reais, pela cotação da moeda americana na semana passada. Cinco anos atrás não se levantavam mais de dois ou três edifícios com unidades desse valor ao mesmo tempo em São Paulo. No momento, a realidade é outra. Estão em construção 574 apartamentos com preço acima de 1 milhão de dólares, distribuídos por 21 prédios. Desses, 124 serão entregues ainda neste ano e os demais até 2004. Num mercado sujeito a altos e baixos como o de imóveis, são exatamente os que menos dão trabalho aos corretores – 80% desses imóveis foram vendidos ainda na planta.

Um apartamento típico de um prédio de altíssimo padrão tem entre 450 e 1.000 metros quadrados de área útil, cinco suítes com closet, três ambientes sociais, sala de almoço, jantar e estar, sala para home theater, piso aquecido na cozinha e nos banheiros, pelo menos meia dúzia de vagas na garagem e dependências de empregada que são um apartamento dentro do apartamento, com dois quartos, banheiro e sala. Piso de mármore importado, maçanetas e torneiras folheadas a ouro, pé-direito estratosférico, espelho com desembaçador nos banheiros, água filtrada nas torneiras, janelas com dispositivo elétrico para tornar opacas as vidraças e controle remoto para cortinas e persianas. Em alguns deles, a suíte principal tem 80 metros quadrados, com dois banheiros e closet de 30 metros quadrados. Também é imprescindível adega climatizada, despensa para louças e prataria. No subsolo, há depósitos, saleta para motoristas e, naturalmente, para os seguranças. Os apartamentos de cobertura, disputados a tapa, custam o dobro dos demais. Dificilmente se encontra um por menos de 2 milhões de dólares.

 

Tríplex de 4 milhões de dólares: spa e cinco suítes em 1 000 metros quadrados

Um dos atrativos desses imóveis é a possibilidade de o comprador mudar a planta durante a construção. Obrigatórios mesmo são o sistema de ar condicionado central e o isolamento acústico de cada unidade. Quem adquire apartamentos do gênero são executivos do mercado financeiro, grandes empresários, estrelas do show biz e alguns jogadores de futebol. A maioria fez fortuna rapidamente e busca formas sólidas de investimento. "Em geral são jovens entre 30 e 45 anos", diz Tomás Salles, diretor da área de novos negócios da Lopes Consultoria de Imóveis, que tem alguns prédios de alto luxo para vender. Esses raramente são anunciados em jornais, como os imóveis comuns. As vendas normalmente são feitas por um sistema de propaganda boca a boca, com os corretores oferecendo os imóveis a um grupo selecionado de endinheirados. A Lopes tem um cadastro com o nome de 4.430 clientes potenciais com renda acima de 25.000 dólares por mês. Muitos prédios são construídos sob encomenda dos proprietários, que se organizam em cooperativa e contratam construtoras para tocar a obra. Alguns apartamentos são adquiridos apenas como investimento (é comum que o valor do imóvel pronto fique 30% mais caro do que custou ao ser comprado na planta). Foi o que fez o jornalista e empresário João Dória Júnior, que colocou à venda um tríplex de 1.000 metros quadrados, recém-construído nos Jardins, área nobre da cidade. Quer pelo menos 4.milhões de dólares pela cobertura com cinco suítes e um verdadeiro spa no terceiro andar.

Boa parte do preço astronômico decorre dos terrenos caríssimos dos bairros nobres. "Imóveis que custam mais de 1 milhão de dólares ficam em regiões onde não existe mais área disponível para construção", alega Adolpho Lindenberg, dono da construtora de prédios de luxo que leva seu nome. "Nesses casos, o preço do terreno pesa brutalmente no valor." E como pesa. O metro quadrado de um apartamento na Vila Nova Conceição, bairro mais caro de São Paulo, não sai por menos de 2.700 dólares. A incorporadora Inpar pagou 4 800 reais por metro quadrado num dos últimos terrenos de 3.700 metros quadrados nos Jardins, onde cogita erguer um prédio de altíssimo padrão. O preço do terreno explica por que o fenômeno da multiplicação de apartamentos milionários é restrito a São Paulo.

Os detalhes ajudam a jogar o custo nas alturas. Apartamentos com apenas 350 metros quadrados perto do Parque do Ibirapuera foram vendidos por 1 milhão de dólares cada um por causa, basicamente, do requinte dos acabamentos. "Em um dos banheiros, gastamos 30.000 reais apenas em mármore importado", diz Ricardo Paes, dono da construtora Result. Todos os prédios oferecem sistema de segurança com guaritas blindadas, elevadores acionados por senha eletrônica, detectores de presença e alarmes que podem ser acionados pelos moradores em vários cômodos do apartamento. A ameaça de recessão na esteira do apagão não assusta quem trabalha no segmento de alto luxo. "Investimento em imóveis é tradicionalmente considerado seguro mesmo nas mais duras crises", explica Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, presidente da Adviser Consultoria. Um apartamento de luxo pode ser um bom negócio para quem quer fazer dinheiro com aluguéis. O inquilino típico é uma empresa estrangeira que precisa alojar executivos em imóveis espaçosos e com bom sistema de segurança. O aluguel mensal de um imóvel de 1 milhão de dólares não sai por menos de 22.000 reais. "As crises econômicas encolhem o mercado de carne, trigo e café, mas dificilmente afetam o mercado de trufas brancas do Piemonte e o caviar do Mar Negro", diz Ribeiro.

 

   
 




   
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