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Outro bebê a caminho

Das adolescentes que dão
à luz, 25% são reincidentes
na gravidez indesejada

Gisela Sekeff

Os especialistas em adolescência alertam: do 1,1 milhão de meninas de 15 a 19 anos que dão à luz a cada ano no Brasil, cerca de 25% já têm filho. O mais preocupante é que essas adolescentes, mães de segunda, terceira ou até quarta viagem, afirmam que voltaram a engravidar "sem querer". Ao contrário do que se imagina, isso não ocorre apenas entre os pobres. Muitas jovens de classe média também integram o universo das grávidas reincidentes. Um misto de falta de informação e inconseqüência é o principal motivo. A maioria vê na gravidez uma espécie de doença – como se, uma vez "contraída", não pudesse manifestar-se de novo. "É estranho: elas deixam de tomar precauções porque acreditam candidamente que não acontecerá outra vez", diz a médica Maria José Carvalho Sant'Anna, coordenadora do pré-natal da Clínica de Adolescentes da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. A probabilidade de acontecer, porém, é altíssima. Adolescentes costumam ser mais férteis do que mulheres adultas. O risco de uma jovem sexualmente ativa engravidar ao longo de um ano é de nove em dez se ela não usar nenhum método contraceptivo.

 

Regis Filho

Ana Paula Gamileira, com as filhas Vitória e Bruna

"Estava namorando havia seis meses quando soube que esperava um bebê. Chorava muito, sem saber o que fazer. Dois anos depois veio a surpresa maior. Estava grávida de novo. Nunca achei que fosse ser mãe tão nova. Ainda mais duas vezes."

 

A repetição da gravidez na adolescência também se relaciona à precocidade da primeira relação sexual. Nos anos 70, as brasileiras perdiam a virgindade com 19 anos, em média. Atualmente, elas se iniciam na vida sexual a partir dos 13. Não é à toa que os casos de gravidez entre meninas com menos de 15 anos triplicaram nas últimas três décadas. Como começam mais cedo, tendem a reincidir mais. A história de Ana Paula Gamileira, de Campinas, é exemplar. Ela perdeu a virgindade aos 14 anos, com um namorado. No primeiro mês de relações sexuais, o casal usou camisinha. Depois, parou. "Eu estava certa de que nada daria errado", diz Ana Paula. Passado algum tempo, ela recebeu a notícia de que esperava um bebê. "Chorava sem parar. Pensei em abortar, mas fiquei com medo de morrer." Nasceu Vitória. Ana Paula conseguiu terminar o 1º grau, mas não o 2º. Dois anos mais tarde, com uma rotina de sexo "às vezes com camisinha, às vezes com tabelinha", a jovem tornou a ficar grávida. "Nunca imaginei que pudesse ocorrer duas vezes", conta. Veio Bruna. Só então Ana Paula decidiu adotar um programa rigoroso de contracepção. Hoje, com 20 anos, ela toma pílula.


Afora a desinformação e a irresponsabilidade, os especialistas têm explicações de ordem psicológica para a reincidência de gravidez na adolescência. Uma se aplica principalmente às meninas provenientes de famílias mais ricas. Ao engravidar pela primeira vez, essas garotas recorrem ao aborto com mais freqüência do que as adolescentes pobres. Emocionalmente abaladas, elas geralmente ignoram os conselhos de pais e médicos e continuam a fazer sexo sem proteção. Em conseqüência, ficam mais propensas a uma nova gravidez, que costumam levar até o fim. "É como se essa outra gestação funcionasse como uma reparação à que foi interrompida", diz a médica Albertina Duarte Takiuti, responsável pelo Ambulatório de Ginecologia da Adolescente, do Hospital das Clínicas paulista.

Outro motivo para o problema encontra respaldo em sentimentos típicos da adolescência. Nessa fase, é natural que a jovem queira se auto-afirmar. Ao mesmo tempo, trata-se de uma época de grandes angústias, medos e carências. Alguns especialistas defendem a tese de que boa parte das adolescentes engravida porque deseja isso inconscientemente. Afinal de contas, queiram ou não as feministas, não há afirmação feminina maior que a maternidade. Além disso, ao experimentar a primeira gravidez, a garota tem sua auto-estima aumentada. Em muitas famílias, passado o tormento inicial, vira o centro dos cuidados e mimos. Depois que o bebê nasce, no entanto, ela perde as regalias e passa a ser cobrada como mãe. Uma nova gravidez seria, assim, uma maneira de recuperar a atenção perdida.

 
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