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O
fim de um casamento
A montadora
Ford recolhe e destrói
13 milhões de pneus da marca Firestone.
Assim termina uma parceria de 96 anos
Cley Scholz
AP
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Faz seis meses que o empresário Ronaldo Lucena de Oliveira, de
São Paulo, levou seu jipão Ford Explorer para a troca gratuita
de pneus promovida em todo o mundo pela Firestone. Na semana que vem,
ele vai mudar outra vez os pneus do carro, agora chamado pela Ford, que
equipará o veículo com Goodyear, Pirelli, Continental ou
Michelin. Em todo o mundo, serão trocados 13 milhões de
pneus. No Brasil, 20.000 unidades, mesmo as
que ainda estão novinhas, serão moídas e vendidas
para recicladoras de borracha ou como combustível para fornos de
cimento. Nada poderia ser mais simbólico do desfecho violento de
uma das mais antigas parcerias da história da indústria
automobilística. A Ford está gastando 3 bilhões de
dólares em todo o mundo para queimar os produtos da Firestone,
a empresa que fornecia os pneus para seu célebre modelo T, há
96 anos. Esse é o mais novo capítulo escrito pela sucessão
de 174 mortes ocorridas em acidentes com Explorer. Com esse recall do
recall, a fábrica de automóveis espera estancar uma hemorragia
que já significou prejuízos consideráveis. A empresa
arcou com parte do custo de 750 milhões de dólares do recall
da Firestone. Só no ano passado, os problemas causados pela má
qualidade dos veículos custaram à empresa mais de 1 bilhão
de dólares. "Nossas análises demonstraram que o consumidor
pode sentir o desgaste desses pneus antes do devido tempo", afirma o diretor
de serviço ao cliente da Ford do Brasil, Flávio Padovan,
explicando a substituição. "Essa é uma ação
preventiva e voluntária para garantir a segurança do consumidor."
O fim do
casamento entre Ford e Firestone, recém-anunciado nos Estados Unidos,
é quase literalmente um divórcio litigioso. O presidente
da segunda maior fábrica de automóveis do mundo, William
Clay Ford Jr., o homem que anunciou o rompimento no final do mês
passado, é bisneto do fundador da companhia, Henry Ford
e também bisneto do criador da indústria de pneus, Harvey
Firestone. Em 1947, o pai de Ford Jr. casou-se com Martha Firestone numa
cerimônia que parecia selar para sempre o compromisso entre as duas
empresas. "Esta decisão é pessoalmente muito desagradável",
avisou o presidente da Ford no evento em que a ruptura foi comunicada.
Isso aconteceu um dia depois de uma reunião de quatro horas entre
equipes das duas fábricas, na qual a Firestone avisou à
Ford que estava fora de sua lista de fornecedores. Era a única
saída que restava à fabricante de pneus para responder ao
vazamento da notícia de que a montadora faria um novo recall de
pneus. Na raiz de todo o problema está o jogo de empurra para decidir
quem arcará, afinal, com as milionárias indenizações
que centenas de famílias de vítimas de acidentes com o carro
pedem na Justiça, em todo o mundo.
No Brasil,
o empresário Sergio Ramires, de São Paulo, acionou um advogado
para ingressar com um pedido de indenização pela morte do
filho, o estudante de administração Roberto Mikui Ramires,
cujo Explorer ano 96 capotou na Rodovia Castelo Branco, há três
anos. Segundo o laudo da perícia técnica, o veículo
"derivou" para a esquerda e tombou no canteiro central, deslizando 23
metros até explodir no poste de iluminação. Roberto,
de 22 anos e 1,90 metro de altura, morreu carbonizado junto com seu amigo
Victor Dias do Amaral, de 20 anos. A descrição desse acidente
coincide com a da maioria daqueles já assumidos pelos fabricantes
como decorrentes de falhas do equipamento, não do motorista. Ainda
não existe um relatório definitivo sobre o motivo dos capotamentos.
A Ford, com apoio das perícias, diz que o pneu Firestone modelo
Wilderness AT é que perde a banda de rodagem depois de andar em
alta velocidade por longos períodos. A Firestone aponta o que considera
uma série de falhas no projeto do Ford Explorer, entre elas o fato
de o carro mais vendido da empresa, responsável por dois terços
do lucro da companhia nos últimos anos, ter sido criado como uma
adaptação da picape Ranger, sem um adequado redimensionamento
da suspensão e com grave comprometimento da estabilidade. Quem
perder essa parada paga a conta.
Por enquanto,
a Ford perdeu 20% das vendas do modelo, mesmo depois do lançamento
da versão 2002, totalmente redesenhada. Na Venezuela, as autoridades
ameaçam banir o carro das ruas diante de casos de acidentes fatais
mesmo após o recall feito pela Firestone. Segundo juristas americanos,
o objetivo da Ford com a nova troca de pneus é impressionar jurados
no futuro, quando as ações em andamento forem julgadas,
demonstrando que agiu com boa intenção em favor de seus
consumidores. Antes dessa manobra, a companhia já tinha apontado
como defeituosos os pneus produzidos numa fábrica da Firestone
no Estado americano de Illinois, durante uma greve em 1994. Trabalhadores
que participaram daqueles dez meses de paralisação acusaram
a Firestone de utilizar mão-de-obra sem qualificação
para continuar produzindo. Foi por isso que a fábrica fez a troca
gratuita de 6,5 milhões de unidades, em dezesseis países,
realizando o segundo maior recall da história. A mesma Firestone
foi obrigada a recolher 14 milhões de pneus em 1978, depois de
ter lançado um modelo popular com um grave defeito estrutural.
A empresa entrou no vermelho e só voltou a respirar quando a japonesa
Bridgestone anunciou sua compra, em 1988. A marca foi mantida porque era
muito prestigiada pelos americanos. Poucos apostam que ela resistirá
agora ao abandono de sua mais antiga parceira.
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NEGÓCIOS
EM FAMÍLIA
Fotos AP
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Harvey
Firestone e Henry Ford, em foto de 1932 (acima), e a imagem
oficial do casamento de William Clay Ford com Martha Firestone,
em 1947 (abaixo): divórcio litigioso
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