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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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O fim de um casamento

A montadora Ford recolhe e destrói
13 milhões de pneus da marca Firestone.
Assim termina uma parceria de 96 anos

Cley Scholz

AP


Faz seis meses que o empresário Ronaldo Lucena de Oliveira, de São Paulo, levou seu jipão Ford Explorer para a troca gratuita de pneus promovida em todo o mundo pela Firestone. Na semana que vem, ele vai mudar outra vez os pneus do carro, agora chamado pela Ford, que equipará o veículo com Goodyear, Pirelli, Continental ou Michelin. Em todo o mundo, serão trocados 13 milhões de pneus. No Brasil, 20.000 unidades, mesmo as que ainda estão novinhas, serão moídas e vendidas para recicladoras de borracha ou como combustível para fornos de cimento. Nada poderia ser mais simbólico do desfecho violento de uma das mais antigas parcerias da história da indústria automobilística. A Ford está gastando 3 bilhões de dólares em todo o mundo para queimar os produtos da Firestone, a empresa que fornecia os pneus para seu célebre modelo T, há 96 anos. Esse é o mais novo capítulo escrito pela sucessão de 174 mortes ocorridas em acidentes com Explorer. Com esse recall do recall, a fábrica de automóveis espera estancar uma hemorragia que já significou prejuízos consideráveis. A empresa arcou com parte do custo de 750 milhões de dólares do recall da Firestone. Só no ano passado, os problemas causados pela má qualidade dos veículos custaram à empresa mais de 1 bilhão de dólares. "Nossas análises demonstraram que o consumidor pode sentir o desgaste desses pneus antes do devido tempo", afirma o diretor de serviço ao cliente da Ford do Brasil, Flávio Padovan, explicando a substituição. "Essa é uma ação preventiva e voluntária para garantir a segurança do consumidor."

O fim do casamento entre Ford e Firestone, recém-anunciado nos Estados Unidos, é quase literalmente um divórcio litigioso. O presidente da segunda maior fábrica de automóveis do mundo, William Clay Ford Jr., o homem que anunciou o rompimento no final do mês passado, é bisneto do fundador da companhia, Henry Ford – e também bisneto do criador da indústria de pneus, Harvey Firestone. Em 1947, o pai de Ford Jr. casou-se com Martha Firestone numa cerimônia que parecia selar para sempre o compromisso entre as duas empresas. "Esta decisão é pessoalmente muito desagradável", avisou o presidente da Ford no evento em que a ruptura foi comunicada. Isso aconteceu um dia depois de uma reunião de quatro horas entre equipes das duas fábricas, na qual a Firestone avisou à Ford que estava fora de sua lista de fornecedores. Era a única saída que restava à fabricante de pneus para responder ao vazamento da notícia de que a montadora faria um novo recall de pneus. Na raiz de todo o problema está o jogo de empurra para decidir quem arcará, afinal, com as milionárias indenizações que centenas de famílias de vítimas de acidentes com o carro pedem na Justiça, em todo o mundo.

No Brasil, o empresário Sergio Ramires, de São Paulo, acionou um advogado para ingressar com um pedido de indenização pela morte do filho, o estudante de administração Roberto Mikui Ramires, cujo Explorer ano 96 capotou na Rodovia Castelo Branco, há três anos. Segundo o laudo da perícia técnica, o veículo "derivou" para a esquerda e tombou no canteiro central, deslizando 23 metros até explodir no poste de iluminação. Roberto, de 22 anos e 1,90 metro de altura, morreu carbonizado junto com seu amigo Victor Dias do Amaral, de 20 anos. A descrição desse acidente coincide com a da maioria daqueles já assumidos pelos fabricantes como decorrentes de falhas do equipamento, não do motorista. Ainda não existe um relatório definitivo sobre o motivo dos capotamentos. A Ford, com apoio das perícias, diz que o pneu Firestone modelo Wilderness AT é que perde a banda de rodagem depois de andar em alta velocidade por longos períodos. A Firestone aponta o que considera uma série de falhas no projeto do Ford Explorer, entre elas o fato de o carro mais vendido da empresa, responsável por dois terços do lucro da companhia nos últimos anos, ter sido criado como uma adaptação da picape Ranger, sem um adequado redimensionamento da suspensão e com grave comprometimento da estabilidade. Quem perder essa parada paga a conta.

Por enquanto, a Ford perdeu 20% das vendas do modelo, mesmo depois do lançamento da versão 2002, totalmente redesenhada. Na Venezuela, as autoridades ameaçam banir o carro das ruas diante de casos de acidentes fatais mesmo após o recall feito pela Firestone. Segundo juristas americanos, o objetivo da Ford com a nova troca de pneus é impressionar jurados no futuro, quando as ações em andamento forem julgadas, demonstrando que agiu com boa intenção em favor de seus consumidores. Antes dessa manobra, a companhia já tinha apontado como defeituosos os pneus produzidos numa fábrica da Firestone no Estado americano de Illinois, durante uma greve em 1994. Trabalhadores que participaram daqueles dez meses de paralisação acusaram a Firestone de utilizar mão-de-obra sem qualificação para continuar produzindo. Foi por isso que a fábrica fez a troca gratuita de 6,5 milhões de unidades, em dezesseis países, realizando o segundo maior recall da história. A mesma Firestone foi obrigada a recolher 14 milhões de pneus em 1978, depois de ter lançado um modelo popular com um grave defeito estrutural. A empresa entrou no vermelho e só voltou a respirar quando a japonesa Bridgestone anunciou sua compra, em 1988. A marca foi mantida porque era muito prestigiada pelos americanos. Poucos apostam que ela resistirá agora ao abandono de sua mais antiga parceira.

 

NEGÓCIOS EM FAMÍLIA

 
Fotos AP

Harvey Firestone e Henry Ford, em foto de 1932 (acima), e a imagem oficial do casamento de William Clay Ford com Martha Firestone, em 1947 (abaixo): divórcio litigioso



   
 
   
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