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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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Mortos pela própria mãe

Num caso extremo de depressão
pós-parto, americana afoga
os cinco filhos


Fotos AP e Reuters
Os filhos, com idade de 6 meses a 7 anos: a morte na banheira

De todos os crimes, nenhum parece contrariar mais a natureza que o da mãe que mata o filho. Na semana passada, ocorreu nos Estados Unidos uma dessas tragédias que desafiam a compreensão – o assassinato de cinco crianças pela própria mãe num cenário doméstico que impressiona pela banalidade. Andrea Pia Yates, a assassina dos filhos, acordou cedo na manhã de quarta-feira, em Houston, no Estado do Texas. Preparou o café da manhã e foi até a porta despedir-se do marido, Russell Yates, engenheiro que trabalha na Nasa, a agência espacial americana. Uma hora depois, ele recebeu um telefonema da mulher, que lhe pedia que voltasse imediatamente para casa. Ao chegar, os cinco filhos estavam mortos: Noah, de 7 anos; John, de 5; Paul, de 3; Luke, de 2; e Mary, um bebê de 6 meses. Os corpos estavam molhados, sobre uma cama, enrolados num lençol. Só o mais velho estava na banheira. Pouco antes de chamar o marido, ela havia ligado para a polícia e confessado: "Matei meus filhos". Depois, narrou friamente – e com alguns comentários irônicos – como os afogou, um a um.


AP
Andrea: tentativa de suicídio há dois anos e depressão após a morte do pai


Andrea, de 36 anos, era uma mãe dedicada e paciente. A hipótese provável é que o crime seja conseqüência de depressão pós-parto, distúrbio que atinge 20% das mães. Em casos leves, provoca apenas sonolência e acessos de choro. Em crises extremas e raras, leva ao desatino de rejeitar ou matar o filho. Andrea passou por uma perturbação profunda após o nascimento de Luke, há dois anos. Chegou a tentar o suicídio e foi submetida a tratamento psiquiátrico. Parecia bem até fevereiro, quando perdeu o pai, pouco depois do nascimento da caçula, Mary. Voltou a ser tratada, mas os medicamentos não deram resultado. Os sintomas estavam lá, porém ninguém percebeu o perigo. "Casos agudos como esse são geralmente associados a distúrbios psicológicos ou psiquiátricos preexistentes", diz o psiquiatra Eduardo Navajas Filho, da Universidade Federal de São Paulo.

Presa sem resistência, Andrea pode ser condenada à morte. Mas a depressão pós-parto torna pantanosa a atribuição de culpa nos casos de infanticídio. Na Inglaterra, a lei beneficia a mãe em crimes cometidos contra crianças de até 2 anos. O Código Penal brasileiro também prevê atenuantes. Em abril, uma funcionária pública paulistana jogou o filho de 5 meses do 3º andar do prédio em que mora, após discutir com o marido. Mesmo sob tratamento de depressão pós-parto, foi indiciada por homicídio doloso. A questão não é apenas jurídica, mas também como reagirá Andrea no momento em que o surto psicótico passar. Isso pode demorar dias ou semanas. Quando isso acontecer e ela perceber que exterminou a prole, corre o risco de enlouquecer de vez.

 
 
   
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