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Farra
da vaca estatal
Escândalo da Elf implica dois
ministros franceses e
revela mar
de lama de dimensões européias
AP
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AFP
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| Dumas
(à esq.) diz que Elisabeth Guigou e Hubert Vedrine (à dir.),
ministros de Jospin, sabiam do esquema de propinas da Elf. Dumas foi
condenado a seis meses de prisão. Guigou e Vedrine negaram tudo. O
caso Elf é o maior escândalo de corrupção da França no pós-guerra |
Homem
elegante e refinado, Roland Dumas foi um símbolo do socialismo
francês nos anos 80 e 90. Sua biografia era invejável: membro
da Resistência francesa na II Guerra, advogado de celebridades,
como os pintores Braque, Chagall e Picasso, amigo íntimo do presidente
François Mitterrand, de quem foi ministro das Relações
Exteriores por duas vezes entre 1984 e 1993. Em seguida, chegou à
presidência do Conselho Constitucional (a Suprema Corte da França)
e se tornou o quinto homem mais importante da República. No final
de maio, o mundo refinado de Dumas desabou. Ele foi condenado a seis meses
de prisão por corrupção num caso envolvendo a Elf,
companhia de petróleo francesa que era controlada pelo Estado nos
anos Mitterrand. Antes de ser privatizada, em 1994, a estatal funcionou
como uma poderosa arma política para premiar os amigos e cooptar
adversários. "A Elf era a vaca leiteira da República", definiu
Dumas. Na semana passada, com a reputação arruinada e sem
mais nada a perder, ele resolveu deixar a fleuma de lado e partir para
o contra-ataque. Em entrevista ao jornal Le Figaro, afirmou que
dois ministros do atual governo socialista, Hubert Vedrine, das Relações
Exteriores, e Elisabeth Guigou, do Trabalho, sabiam da bandalheira dentro
da Elf. Dumas não poupou nem mesmo o próprio Mitterrand,
morto em 1996. "Ele também sabia de tudo", disse. Vedrine e Guigou,
que fizeram parte do governo Mitterrand, negaram tudo mas o estrago
já está feito, lançando a sombra da suspeita sobre
a gestão do primeiro-ministro Lionel Jospin.
A Elf, que concentrava suas operações na África,
tornou-se célebre por usar seu poder para manipular governos africanos
a serviço da França. Até aí, em nome do interesse
nacional, os franceses podiam entender e perdoar. O problema é
que, escândalo atrás de escândalo, soube-se que a estatal
também agia na política européia. Em 1992, o chanceler
alemão Helmut Kohl, em campanha eleitoral, parece ter recebido
uma polpuda gratificação da estatal francesa pela intermediação
na compra de uma refinaria na Alemanha. Parte do dinheiro da venda acabou
desviada para o fundo de campanha de Kohl. O caso terminou abreviando
a vida pública do pai da unificação alemã.
Na mesma época, a Elf pagou 11 milhões de dólares
a Christine Deviers-Joncour para que ela se tornasse amante de Dumas e
o convencesse a autorizar a venda de seis fragatas francesas à
Marinha de Taiwan. Os barcos, avaliados em 1,5 bilhão de dólares,
foram vendidos por 2 bilhões. A diferença foi distribuída
entre altos funcionários franceses e taiwaneses.
Christine, que lançou uma autobiografia intitulada La Putain
de la République (A P... da República), foi condenada
a um ano e meio de prisão. O "caso Elf", como os franceses chamam
o maior escândalo de corrupção do país nos
últimos cinqüenta anos, tem tantas ramificações
que sobrou até para o governo de José María Aznar,
na Espanha. Josep Piqué, ministro das Relações Exteriores
de Aznar, foi um dos responsáveis pela venda da Ertoil, companhia
privada espanhola de petróleo, para a Elf, em 1991. Um processo
na Justiça da Espanha tenta agora descobrir onde foram parar 90
milhões de dólares, de um total de 200 milhões envolvidos
na venda da empresa. Na semana passada, a Suprema Corte revogou a imunidade
do chanceler espanhol e começou a investigá-lo por fraude.
O caso Elf é apenas mais um na série de escândalos
envolvendo políticos franceses. O pano de fundo dessa novela é
a batalha presidencial do ano que vem. O presidente Jacques Chirac, acusado
de arrecadação ilegal de fundos de campanha quando era prefeito
de Paris, deve enfrentar o socialista Jospin, que recentemente se enrolou
todo para explicar seu passado trotskista. Tentando botar ordem na casa,
o Parlamento francês aprovou o fim da imunidade presidencial. Os
próximos chefes de Estado passam a responder nos tribunais por
atos cometidos antes ou durante o mandato. Se a lei existisse nos tempos
de Mitterrand, o homem-símbolo do socialismo francês talvez
tivesse um final de vida bem menos glorioso.
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