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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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Farra da vaca estatal

Escândalo da Elf implica dois
ministros franceses
e revela mar
de lama de dimensões européias

 
AP
AFP
Dumas (à esq.) diz que Elisabeth Guigou e Hubert Vedrine (à dir.), ministros de Jospin, sabiam do esquema de propinas da Elf. Dumas foi condenado a seis meses de prisão. Guigou e Vedrine negaram tudo. O caso Elf é o maior escândalo de corrupção da França no pós-guerra

Homem elegante e refinado, Roland Dumas foi um símbolo do socialismo francês nos anos 80 e 90. Sua biografia era invejável: membro da Resistência francesa na II Guerra, advogado de celebridades, como os pintores Braque, Chagall e Picasso, amigo íntimo do presidente François Mitterrand, de quem foi ministro das Relações Exteriores por duas vezes entre 1984 e 1993. Em seguida, chegou à presidência do Conselho Constitucional (a Suprema Corte da França) e se tornou o quinto homem mais importante da República. No final de maio, o mundo refinado de Dumas desabou. Ele foi condenado a seis meses de prisão por corrupção num caso envolvendo a Elf, companhia de petróleo francesa que era controlada pelo Estado nos anos Mitterrand. Antes de ser privatizada, em 1994, a estatal funcionou como uma poderosa arma política para premiar os amigos e cooptar adversários. "A Elf era a vaca leiteira da República", definiu Dumas. Na semana passada, com a reputação arruinada e sem mais nada a perder, ele resolveu deixar a fleuma de lado e partir para o contra-ataque. Em entrevista ao jornal Le Figaro, afirmou que dois ministros do atual governo socialista, Hubert Vedrine, das Relações Exteriores, e Elisabeth Guigou, do Trabalho, sabiam da bandalheira dentro da Elf. Dumas não poupou nem mesmo o próprio Mitterrand, morto em 1996. "Ele também sabia de tudo", disse. Vedrine e Guigou, que fizeram parte do governo Mitterrand, negaram tudo – mas o estrago já está feito, lançando a sombra da suspeita sobre a gestão do primeiro-ministro Lionel Jospin.

A Elf, que concentrava suas operações na África, tornou-se célebre por usar seu poder para manipular governos africanos a serviço da França. Até aí, em nome do interesse nacional, os franceses podiam entender e perdoar. O problema é que, escândalo atrás de escândalo, soube-se que a estatal também agia na política européia. Em 1992, o chanceler alemão Helmut Kohl, em campanha eleitoral, parece ter recebido uma polpuda gratificação da estatal francesa pela intermediação na compra de uma refinaria na Alemanha. Parte do dinheiro da venda acabou desviada para o fundo de campanha de Kohl. O caso terminou abreviando a vida pública do pai da unificação alemã. Na mesma época, a Elf pagou 11 milhões de dólares a Christine Deviers-Joncour para que ela se tornasse amante de Dumas e o convencesse a autorizar a venda de seis fragatas francesas à Marinha de Taiwan. Os barcos, avaliados em 1,5 bilhão de dólares, foram vendidos por 2 bilhões. A diferença foi distribuída entre altos funcionários franceses e taiwaneses.

Christine, que lançou uma autobiografia intitulada La Putain de la République (A P... da República), foi condenada a um ano e meio de prisão. O "caso Elf", como os franceses chamam o maior escândalo de corrupção do país nos últimos cinqüenta anos, tem tantas ramificações que sobrou até para o governo de José María Aznar, na Espanha. Josep Piqué, ministro das Relações Exteriores de Aznar, foi um dos responsáveis pela venda da Ertoil, companhia privada espanhola de petróleo, para a Elf, em 1991. Um processo na Justiça da Espanha tenta agora descobrir onde foram parar 90 milhões de dólares, de um total de 200 milhões envolvidos na venda da empresa. Na semana passada, a Suprema Corte revogou a imunidade do chanceler espanhol e começou a investigá-lo por fraude.

O caso Elf é apenas mais um na série de escândalos envolvendo políticos franceses. O pano de fundo dessa novela é a batalha presidencial do ano que vem. O presidente Jacques Chirac, acusado de arrecadação ilegal de fundos de campanha quando era prefeito de Paris, deve enfrentar o socialista Jospin, que recentemente se enrolou todo para explicar seu passado trotskista. Tentando botar ordem na casa, o Parlamento francês aprovou o fim da imunidade presidencial. Os próximos chefes de Estado passam a responder nos tribunais por atos cometidos antes ou durante o mandato. Se a lei existisse nos tempos de Mitterrand, o homem-símbolo do socialismo francês talvez tivesse um final de vida bem menos glorioso.

 
 
   
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