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Santos
ridículos
"O
barroco brasileiro
nunca
foi
arte. É
apenas a expressão
de
uma
sociedade retrógrada"
O Brasil trouxe alguns santos e oratórios barrocos para a Bienal
de Veneza. As obras ficam expostas até 4 de novembro na Igreja
de San Giacomo dall'Orio. Pode parecer estranho que alguém tenha
pensado em mostrar santos e oratórios barrocos numa feira internacional
de arte contemporânea, mas os organizadores do evento acham necessário
contextualizar nossa arte. Ou seja, para compreender a arte contemporânea
brasileira, os estrangeiros precisam antes conhecer o que fizemos no passado.
O mesmo raciocínio vale para a retrospectiva de arte brasileira
que o Museu Guggenheim, de Nova York, marcou para setembro. O ponto de
partida para a visita será um altar barroco do século XVIII.
É
uma iniciativa suicida, claro. Arte barroca, na Itália, é
associada a Bernini e Borromini, à Fontana di Trevi e ao Jardim
de Boboli. Trazer nossos santos para cá significa expô-los
ao mais absoluto ridículo. O barroco brasileiro nunca foi nem nunca
será arte. É artesanato. De fato, o contraste entre os toscos
santos brasileiros e a igreja veneziana em que foram colocados é
impiedoso. Basta ver os nomes. San Giacomo dall'Orio tem um afresco e
um quadro de Veronese. Tem também um quadro de Lorenzo Lotto. Um
quadro menor, mas sempre um Lorenzo Lotto. Tem um ciclo completo de Palma,
o Jovem. Tem um crucifixo gótico de Paolo Veneziano. Tem um dos
mais elaborados tetos de madeira da arquitetura italiana, do século
XIII. Os pobrezinhos dos santos brasileiros, desproporcionais, inexpressivos,
rudimentares, banais, destoam nesse ambiente elevado.
O problema não é apenas técnico, mas temático,
ideológico. Nosso barroco limitou-se a reproduzir, no século
XVIII, a iconografia religiosa do século XII, com imagens simplórias
de santos e mártires que mostram seus atributos clássicos.
Compare-os a uma obra qualquer da Igreja de San Giacomo dall'Orio, como,
por exemplo, a Predicação de São João Batista,
de Francesco Bassano. Por trás dessa tela, lêem-se comentários
eruditos sobre a Reforma, o Concílio de Trento e os pintores protestantes
da Alemanha. Arte é informação, interpretação,
discussão. Nos santos e oratórios brasileiros, não
há nada disso. Não é arte. Outra coisa: do Renascimento
em diante, a arte passou a ser vista como um impulso individual, enquanto
nosso barroco é obra predominantemente de escravos. Como reconhecer
impulso individual num escravo? Ele não está só obedecendo
às ordens de seu senhor? Existe alguma diferença, para ele,
entre entalhar santos ou cortar cana-de-açúcar?
Não quer dizer que esses objetos sejam desprovidos de interesse.
Mas o interesse é histórico, não artístico.
Os santos e oratórios barrocos são a expressão perfeita
da sociedade brasileira da época: escravista, retrógrada,
arbitrária, brutal, ignorante. A Companhia das Letras, algum tempo
atrás, republicou as Ordenações Filipinas,
o código de leis português que vigorou no Brasil de 1603
a 1830, cobrindo todo o período barroco. Os hereges eram queimados
vivos. Os escravos eram açoitados no pelourinho. Os livros não
podiam ser impressos sem licença do rei. Esse foi o Brasil que
criou os santos e oratórios que agora, orgulhosamente, estamos
mostrando ao mundo. Uma civilização tão atrasada
não pode gerar uma arte avançada. Talvez o discurso valha
até hoje. Talvez não seja uma péssima idéia,
afinal, expor nossa arte contemporânea ao lado de imagens barrocas.
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