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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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Os dois vizinhos


Liane Neves
Claudio Rossi
João Pedro Stedile e Olacyr de Moraes: o líder radical e o capitalista na Fazenda Itamarati

Está ocorrendo em Mato Grosso do Sul um fato de grande significado simbólico na agricultura brasileira. A Fazenda Itamarati, que já foi a maior plantação de soja do mundo, atingindo padrões de produtividade jamais vistos no país, vai ser entregue ao Movimento dos Sem Terra (MST). Em maio deste ano, o Ministério do Desenvolvimento Agrário comprou metade da fazenda e lá irá assentar 1.300 famílias. A outra metade permanece nas mãos do dono da terra, Olacyr de Moraes, um paulista que fez fortuna como empreiteiro de obras públicas. Ou seja, Olacyr de Moraes, o capitalista, e João Pedro Stedile, o radical líder dos sem-terra, serão vizinhos.

Olacyr é um dos grandes pioneiros da agricultura moderna brasileira. A Itamarati teve um dos primeiros laboratórios de pesquisa agrícola do país e foi o primeiro latifúndio a usar uma técnica inovadora para irrigação de grandes áreas. Resultado: plantava soja, milho e algodão num padrão invejado nas melhores fazendas do mundo. Atualmente, cerca de 70% do algodão que se planta em Mato Grosso usa um tipo de grão desenvolvido nos laboratórios de Olacyr. O empresário não vendeu a propriedade por desejo próprio. Na tentativa de melhorar a infra-estrutura de escoamento de grãos da região, ele decidiu construir uma ferrovia de 1,2 bilhão de dólares que ligasse o Centro-Oeste ao Porto de Santos. O passo revelou-se ousado demais e seu império começou a ruir.

É num pedaço desse empreendimento-modelo que o MST vai entrar com enxadas e carroças para praticar um padrão de agricultura próprio da primeira metade do século passado. Na última semana, o governo discutia os detalhes sobre a forma como os sem-terra vão explorar a fazenda. O governador de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, empenha-se muito para que a transferência seja bem-sucedida. "Para o partido, é uma questão de honra", afirma. A partir de agora, sem paixão nem ideologia, o Brasil vai poder acompanhar a produção de cada um dos lados da cerca. Veja reportagem.

 
 
   
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