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DVD
Feitiço
do Tempo (Groundhog Day, Estados Unidos, 1993. Columbia)
Difícil imaginar sujeito mais de mal com a vida que o homem
do tempo interpretado por Bill Murray nessa comédia. E difícil
também pensar em castigo pior para ele que ir para a pequena cidade
de Punxsutawney cobrir as festividades do "Dia da Marmota", em que o bichinho
sai de sua toca para anunciar se o inverno vai ser longo. No caso do protagonista,
será longuíssimo: Bill fica preso nesse dia, que se repete
infinitas vezes, até que ele aprenda uma coisinha ou outra sobre
os malefícios do sarcasmo e do egocentrismo. Murray combina mel
e vinagre na medida certa para o papel, e o roteiro tira reviravoltas
dos lugares mais inesperados um processo muito bem explicado pelo
diretor Harold Ramis no making of incluído no DVD.
LIVROS
Holocaustos
Coloniais, de Mike Davis (tradução de Alda Porto;
Record; 486 páginas; 45 reais) Professor de teoria urbana
no Instituto de Arquitetura do Sul da Califórnia, o americano Mike
Davis tem duas qualidades raras num intelectual. É um ensaísta
de mão- cheia, que defende teses originais sem abrir mão
da clareza e de um sólido arcabouço informativo. Além
disso, sabe escrever com humor. Sua obra mais conhecida, Ecologia do
Medo, mostra como nenhuma outra cidade do século XX esteve
tão ligada à idéia de catástrofe quanto Los
Angeles. Nesse livro, ele procura demonstrar como grandes secas causadas
pelo fenômeno do El Niño, no fim do século XIX, teriam
sido decisivas, ao lado do imperialismo europeu, na formação
do que hoje se conhece como Terceiro Mundo.
A
Consciência de Zeno, de Italo Svevo (tradução
de Ivo Barroso; 412 páginas; 32 reais) Trata-se de uma obra-prima
do romance do século XX e seu relançamento no Brasil deve
ser comemorado. O italiano Ettore Schmitz verdadeiro nome de Svevo
lançou o livro em 1923, quando já contava 62 anos,
depois de passar mais de duas décadas sem publicar, desgostoso
com o fracasso de suas primeiras obras. Para tanto, recebeu o estímulo
de seu professor de inglês em Trieste, ninguém menos que
o escritor irlandês James Joyce. A Consciência de Zeno
é a autobiografia fictícia de um burguês cuja
vida está imersa em tédio e vazio existencial, e que começa
a escrever por incentivo de seu psicanalista. Leia
trecho do livro.
DISCOS
Ismael
Canta... Ismael, Ismael Silva (InterCD) Um dos pioneiros
do samba carioca, Ismael Silva (1905-1978) volta à cena com a reedição
desse álbum raríssimo, lançado originalmente em 1957.
Ismael Canta... Ismael traz diversas "parcerias" do compositor
com Francisco Alves no fim dos anos 20 (na verdade, Alves comprava a sua
participação nos sambas do amigo) e uma composição
co-assinada por Lamartine Babo. Ismael Silva saiu de cena na década
de 40 e permaneceu no ostracismo até 1954, quando voltou a fazer
pequenas apresentações no Rio de Janeiro. Nesse disco, sua
voz miúda é encorpada com a ajuda de um coro e uma percussão
que paira sobre todos os instrumentos. Mas esses detalhes não atrapalham
a audição desse CD cheio de letras irônicas, como
as de Não Há e Antonico, esta última
gravada por Gal Costa nos anos 70. Ouça
a faixa Antonico.
Ocean's
Eleven, vários intérpretes (WEA) É
a trilha do filme de Steven Soderbergh, que no Brasil recebeu o título
de Onze Homens e Um Segredo. O disco é dividido em duas
partes. A primeira traz uma eclética seleção musical,
que inclui o grupo de hip hop De La Soul, o cantor Elvis Presley e até
mesmo o compositor francês Debussy. A outra é ocupada pelas
composições do DJ e produtor irlandês David Holmes,
que faz um coquetel saboroso de jazz e funk, à moda dos anos 70.
Ele utiliza de maneira esperta alguns dos melhores diálogos do
filme sem se tornar cansativo, como às vezes acontece com
trilhas sonoras. David Holmes ganhou fama recentemente ao atualizar, com
releituras eletrônicas, temas musicais de grandes personagens do
cinema, como James Bond e Shaft. Ouça
a faixa Gritty Shaker.
VÍDEO
20TH Century Fox/divulgação
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| A
Espinha: não falta atmosfera
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A Espinha do Diabo (El Espinazo del Diablo, Espanha/México,
2001. Fox) Atmosfera é o que não falta nesse drama
sobrenatural do diretor mexicano Guillermo del Toro. Durante a Guerra
Civil Espanhola (1936-1939), um orfanato recebe os filhos de opositores
do ditador Francisco Franco. Um deles, Carlos, é alojado na cama
de um outro menino, que morreu há pouco talvez por causa
de uma bomba franquista jogada no pátio da escola, talvez por outras
razões. Carlos acha que pode ver o fantasma do garoto, e busca
sem descanso desvendar as causas de sua morte. Claro que encontrará
muito mais do que procurava. Del Toro filma essa história com tintas
fortes e originais o que não é pouco quando o que
está em questão é o mais vasto subgênero do
cinema espanhol, o de filmes que se debruçam sobre o trauma da
guerra civil.
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OS
MAIS VENDIDOS - CRÍTICA
Liane Neves
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| Scliar:
autor de um dos 25 contos nacionais |
Uma antologia que vai de um texto escrito pelo grego Homero por volta
de 850 a.C. a uma história do baiano João Ubaldo Ribeiro
é sem dúvida um exercício de sincretismo despudorado.
Embora se arrisque por essa trilha, contudo, o escritor gaúcho
Flávio Moreira da Costa faz uma seleção das mais
competentes em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura
Universal (Ediouro; 546 páginas; 44,90 reais). O livro,
que investe no mesmo filão explorado com sucesso pelo carioca
Italo Moriconi em seu Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século,
se vale de conceitos elásticos. No campo do humor, não
há apenas textos de comédia rasgada. Há também
relatos de fina ironia, como O Fantasma de Canterville, do
irlandês Oscar Wilde, e alguns que muita gente hesitaria em
incluir numa coletânea de humor, como Comunicado a uma Academia,
do tcheco Franz Kafka. Moreira da Costa também tomou a liberdade
de incluir textos que não pertencem ao gênero conto,
como
uma série de cartas do comediante americano Groucho Marx. Finalmente,
a antologia, que ocupa o oitavo lugar da categoria ficção
na lista de mais vendidos de VEJA, procura equilibrar-se entre os
nomes célebres e os menos óbvios. Tomem-se por exemplo
os 25 contos brasileiros. No pacote despontam, ao lado de nomes consagrados
como Machado de Assis e Moacyr Scliar, vários ilustres desconhecidos
entre os quais o gaúcho Paulo Corrêa Lopes (1898-1957),
autor do insólito História de uma Traça, protagonizado
por um inseto que se torna espírita depois de devorar um livro
de Allan Kardec. |
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