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Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
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DVD

Feitiço do Tempo (Groundhog Day, Estados Unidos, 1993. Columbia) – Difícil imaginar sujeito mais de mal com a vida que o homem do tempo interpretado por Bill Murray nessa comédia. E difícil também pensar em castigo pior para ele que ir para a pequena cidade de Punxsutawney cobrir as festividades do "Dia da Marmota", em que o bichinho sai de sua toca para anunciar se o inverno vai ser longo. No caso do protagonista, será longuíssimo: Bill fica preso nesse dia, que se repete infinitas vezes, até que ele aprenda uma coisinha ou outra sobre os malefícios do sarcasmo e do egocentrismo. Murray combina mel e vinagre na medida certa para o papel, e o roteiro tira reviravoltas dos lugares mais inesperados – um processo muito bem explicado pelo diretor Harold Ramis no making of incluído no DVD.

 

LIVROS

Holocaustos Coloniais, de Mike Davis (tradução de Alda Porto; Record; 486 páginas; 45 reais) – Professor de teoria urbana no Instituto de Arquitetura do Sul da Califórnia, o americano Mike Davis tem duas qualidades raras num intelectual. É um ensaísta de mão- cheia, que defende teses originais sem abrir mão da clareza e de um sólido arcabouço informativo. Além disso, sabe escrever com humor. Sua obra mais conhecida, Ecologia do Medo, mostra como nenhuma outra cidade do século XX esteve tão ligada à idéia de catástrofe quanto Los Angeles. Nesse livro, ele procura demonstrar como grandes secas causadas pelo fenômeno do El Niño, no fim do século XIX, teriam sido decisivas, ao lado do imperialismo europeu, na formação do que hoje se conhece como Terceiro Mundo.

A Consciência de Zeno, de Italo Svevo (tradução de Ivo Barroso; 412 páginas; 32 reais) – Trata-se de uma obra-prima do romance do século XX e seu relançamento no Brasil deve ser comemorado. O italiano Ettore Schmitz – verdadeiro nome de Svevo – lançou o livro em 1923, quando já contava 62 anos, depois de passar mais de duas décadas sem publicar, desgostoso com o fracasso de suas primeiras obras. Para tanto, recebeu o estímulo de seu professor de inglês em Trieste, ninguém menos que o escritor irlandês James Joyce. A Consciência de Zeno é a autobiografia fictícia de um burguês cuja vida está imersa em tédio e vazio existencial, e que começa a escrever por incentivo de seu psicanalista. Leia trecho do livro.

 

DISCOS

Ismael Canta... Ismael, Ismael Silva (InterCD) – Um dos pioneiros do samba carioca, Ismael Silva (1905-1978) volta à cena com a reedição desse álbum raríssimo, lançado originalmente em 1957. Ismael Canta... Ismael traz diversas "parcerias" do compositor com Francisco Alves no fim dos anos 20 (na verdade, Alves comprava a sua participação nos sambas do amigo) e uma composição co-assinada por Lamartine Babo. Ismael Silva saiu de cena na década de 40 e permaneceu no ostracismo até 1954, quando voltou a fazer pequenas apresentações no Rio de Janeiro. Nesse disco, sua voz miúda é encorpada com a ajuda de um coro e uma percussão que paira sobre todos os instrumentos. Mas esses detalhes não atrapalham a audição desse CD cheio de letras irônicas, como as de Não Há e Antonico, esta última gravada por Gal Costa nos anos 70. Ouça a faixa Antonico.

Ocean's Eleven, vários intérpretes (WEA) – É a trilha do filme de Steven Soderbergh, que no Brasil recebeu o título de Onze Homens e Um Segredo. O disco é dividido em duas partes. A primeira traz uma eclética seleção musical, que inclui o grupo de hip hop De La Soul, o cantor Elvis Presley e até mesmo o compositor francês Debussy. A outra é ocupada pelas composições do DJ e produtor irlandês David Holmes, que faz um coquetel saboroso de jazz e funk, à moda dos anos 70. Ele utiliza de maneira esperta alguns dos melhores diálogos do filme – sem se tornar cansativo, como às vezes acontece com trilhas sonoras. David Holmes ganhou fama recentemente ao atualizar, com releituras eletrônicas, temas musicais de grandes personagens do cinema, como James Bond e Shaft. Ouça a faixa Gritty Shaker.

 

VÍDEO

20TH Century Fox/divulgação
A Espinha: não falta atmosfera


A Espinha do Diabo
(El Espinazo del Diablo, Espanha/México, 2001. Fox) – Atmosfera é o que não falta nesse drama sobrenatural do diretor mexicano Guillermo del Toro. Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), um orfanato recebe os filhos de opositores do ditador Francisco Franco. Um deles, Carlos, é alojado na cama de um outro menino, que morreu há pouco – talvez por causa de uma bomba franquista jogada no pátio da escola, talvez por outras razões. Carlos acha que pode ver o fantasma do garoto, e busca sem descanso desvendar as causas de sua morte. Claro que encontrará muito mais do que procurava. Del Toro filma essa história com tintas fortes e originais – o que não é pouco quando o que está em questão é o mais vasto subgênero do cinema espanhol, o de filmes que se debruçam sobre o trauma da guerra civil.

 

OS MAIS VENDIDOS - CRÍTICA


Liane Neves
Scliar: autor de um dos 25 contos nacionais

Uma antologia que vai de um texto escrito pelo grego Homero por volta de 850 a.C. a uma história do baiano João Ubaldo Ribeiro é sem dúvida um exercício de sincretismo despudorado. Embora se arrisque por essa trilha, contudo, o escritor gaúcho Flávio Moreira da Costa faz uma seleção das mais competentes em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal (Ediouro; 546 páginas; 44,90 reais). O livro, que investe no mesmo filão explorado com sucesso pelo carioca Italo Moriconi em seu Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, se vale de conceitos elásticos. No campo do humor, não há apenas textos de comédia rasgada. Há também relatos de fina ironia, como O Fantasma de Canterville, do irlandês Oscar Wilde, e alguns que muita gente hesitaria em incluir numa coletânea de humor, como Comunicado a uma Academia, do tcheco Franz Kafka. Moreira da Costa também tomou a liberdade de incluir textos que não pertencem ao gênero conto, como uma série de cartas do comediante americano Groucho Marx. Finalmente, a antologia, que ocupa o oitavo lugar da categoria ficção na lista de mais vendidos de VEJA, procura equilibrar-se entre os nomes célebres e os menos óbvios. Tomem-se por exemplo os 25 contos brasileiros. No pacote despontam, ao lado de nomes consagrados como Machado de Assis e Moacyr Scliar, vários ilustres desconhecidos – entre os quais o gaúcho Paulo Corrêa Lopes (1898-1957), autor do insólito História de uma Traça, protagonizado por um inseto que se torna espírita depois de devorar um livro de Allan Kardec.

 

 

   
 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano, Fnac; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura; Maceió: Sodiler.

 

   
 
   
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