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Hora
de avançar
O
ex-ministro da Saúde
dá início
à campanha, reclama das fofocas
eleitorais e antecipa seu plano de metas
Maurício
Lima e André Petry
Marcia Gouthier/Folha Imagem
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"O
problema
não é ter idéias novas. É tirá-las
do papel. Nesta campanha, vai ser importante prestar atenção
nesse
aspecto"
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Veja também |
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Na
semana passada, José Serra deixou o governo de Fernando Henrique
pela segunda vez. A primeira foi em maio de 1996, quando concorreu a prefeito
de São Paulo e ficou em terceiro lugar. Agora, aos 59 anos, Serra
sai do governo para tentar o salto mais ambicioso de seus quarenta anos
de vida pública: concorrer ao Palácio do Planalto pelo PSDB.
Tem três grandes desafios à frente: melhorar seu desempenho
nas pesquisas, reeditar a aliança que elegeu e reelegeu Fernando
Henrique e provar que é bom de voto. Na sua passagem de quase quatro
anos pelo Ministério da Saúde, Serra deixa um fornido elenco
de vitórias e um problema atual: a aguda epidemia de dengue
que já lhe valeu a chacota de que é "candidato a presidengue".
Nesta entrevista, Serra fala do que espera da campanha, protesta contra
a atual fase de fofocas eleitorais e adianta, em primeira mão,
alguns pontos de seu plano de metas, caso seja eleito.
Veja
O senhor tem só 7% das intenções de voto
para presidente, conforme a última pesquisa. Está em quinto
lugar. Dá para chegar lá?
Serra
Sim, por que não? Faltam oito meses para a eleição.
Pesquisa não define resultado. Se definisse, Paulo Maluf teria
sido eleito governador de São Paulo em 1998 e Lula, presidente
em 1994. Eles vieram bem nas pesquisas e perderam no final. Não
estou preocupado com os outros. O que sei é que não vou
retirar minha candidatura sob nenhuma hipótese. Essa fase do tititi
eleitoral tem duas características. A primeira é a irrelevância
dos acontecimentos. A outra é que retira espaço da discussão
de políticas públicas sérias. Só querem saber
com quem esse ou aquele candidato vai se encontrar. É um horror.
Tenho fé que isso termine mais à frente. Com a proximidade
da eleição, o eleitor saberá distinguir entre quem
tem propostas e quem não as tem. Nas duas últimas eleições,
o eleitor provou que sabe discernir bem. Hoje, não há espaço
para aventureiros como Collor de Mello.
Veja Seus adversários dizem que o senhor é
antipático, não tem carisma.
Serra
A crítica é cômoda. Você diz que alguém
tem ou não carisma de acordo com o resultado da eleição.
É um julgamento a posteriori. Antes diziam que Fernando
Henrique não tinha carisma porque perdera a eleição
para prefeito em São Paulo. Depois que ganhou duas eleições
presidenciais no primeiro turno, ele passou a ter. Meus adversários
têm dito que eu seria o melhor presidente, mas não sou o
melhor candidato. Deixemos o eleitor julgar. Acho que estamos escolhendo
justamente o próximo presidente. Eu me acho simpático, minha
mãe me acha simpático. Tem gente que não acha? Paciência...
Veja Qual é seu caminho para conquistar a aceitação
popular?
Serra
Por incrível que possa parecer, ainda sou pouco conhecido. Grande
parte das pessoas lembra de mim só como ministro da Saúde,
acha que sou médico e especialista em saúde. Quando perguntados
se votariam em mim, muitos dizem que não, porque querem que eu
fique no ministério. Mas há um fato que me favorece: o cronograma
da eleição está adiantado. Com isso, você tem
mais tempo para se expor.
Veja
O senhor acredita numa aliança entre os partidos governistas?
Serra
Estou esperançoso em relação ao PMDB. Temos tido
boas conversas e sinais de figuras importantes do partido de que há
espaço para a união ainda no primeiro turno. Mas estamos
cuidando de aliança, não de nomes para o cargo de vice-presidente.
Dizem que eu convidei o Jarbas (Jarbas Vasconcelos, governador de Pernambuco).
Não é verdade. Estamos trabalhando juntos. Ele me apóia
e isso para mim é muito importante. Seria um excelente vice, mas
ainda não há nada. Há muita conversa e fofoca nesse
período eleitoral. O Tasso (Jereissati, governador do Ceará),
por exemplo, vai participar de nossa campanha. Não tenho dúvida.
Aliás, ele não vai. Ele já está. É
um homem de partido e amigo meu.
Veja Na aparência, sua aliança preferencial
é com o PMDB, cuja cúpula está maculada por escândalos,
como a recente prisão de Jader Barbalho. Isso não prejudica?
Serra
Minha aliança preferencial é com a base do governo. Gostaria
de ter ao meu lado o PFL, o PMDB, o PTB e o PPB. Gostaria de reeditar
a aliança das últimas eleições. Todos os partidos
são heterogêneos, não dá para analisar como
um bloco. O PMDB é um partido de envergadura nacional com história
e importância. Não acredito que o caso de Jader tenha liquidamente
um reflexo eleitoral. Todos os partidos têm problemas, uns mais
e outros menos. Em relação ao PFL, temos de reconhecer que
foi um pilar necessário no governo Fernando Henrique e provou isso
ao longo desses anos. Espero o apoio deles, sim. Eles têm uma boa
candidata com bons índices nas pesquisas e uma administração
para servir de exemplo. Mas acho que a união não é
impossível. As chapas só precisam ser formadas no fim de
junho. Até lá, muita coisa pode acontecer.
Veja Se houver aliança, o PFL teria, num eventual
governo seu, o mesmo peso que teve com FHC?
Serra
Nunca é do mesmo jeito. Mas é bom frisar isso: não
estou falando em voto, aliança eleitoral. Estou falando em governo.
O PFL cooperou no governo Fernando Henrique e pode perfeitamente cooperar
comigo num governo futuro. Tudo depende das questões substantivas
dos programas. Temos de sentar e conversar. Não acredito em diferenças
insuperáveis.
Veja Alguns economistas do PFL defendem a privatização
do Banco do Brasil, do BNDES e da Caixa Econômica Federal. Qual
é sua posição?
Serra
Eu não sou a favor. Tome-se como exemplo o BNDES. É um banco
que funciona admiravelmente bem. Tornou-se uma massa substancial de recursos
públicos e instrumento primoroso de política governamental.
Cumpre sua função. O BNDES não está explodindo
a política monetária porque tem oferta de dinheiro nem está
criando cartórios no país. Pelo contrário, ajuda
a criar um modelo de desenvolvimento. Não vejo sentido em privatizar
BNDES, Caixa ou Banco do Brasil. Acho que criaríamos mais problemas
que soluções.
Veja Por que o senhor quer ser presidente?
Serra
Acho que posso unir a experiência administrativa com a vontade política
para exercer o cargo. Tenho condições de juntar o conhecimento
acumulado em quarenta anos de vida pública com a ousadia de quem
quer avançar mais. No Brasil, o problema não é ter
idéias novas. É tirá-las do papel. Nesta campanha,
vai ser importante prestar atenção nesse aspecto. Terceirizar
idéias, apresentar projetos, tudo isso é fácil. A
questão é outra. É preciso ter vontade política,
capacidade técnica e persistência para implementá-las.
Acho que sou perfeitamente capaz de fazer isso. Aliás, é
o que venho fazendo em toda a minha vida. Pratico o ativismo governamental.
No Legislativo, pratico o ativismo legislativo. Precisamos dar seqüência
às mudanças no Brasil.
Veja Se for eleito, o que o senhor pretende fazer?
Serra
Partir para as etapas posteriores. Vamos pegar a questão da educação.
Hoje, temos quase a totalidade das crianças na escola. O próximo
passo é investir na qualidade do ensino ministrado. Algumas questões
já vêm sendo implementadas. O Fundef, para citar uma das
medidas cruciais, melhorou o salário dos professores. Precisamos
de profissionais bem pagos para que o nível das aulas melhore e
os bons professores continuem motivados para exercer a profissão.
E não me refiro só aos salários, que, evidentemente,
ainda estão aquém dos padrões desejados. Temos de
investir em reciclagem e em cursos de aperfeiçoamento. Outro ponto
importante é criar fontes de financiamento para que Estados e municípios
possam investir numa mudança primordial: escolas com alunos em
tempo integral. Em poucos anos, poderíamos ter 20% dos alunos da
rede pública estudando em dois períodos nos colégios.
É uma medida possível e faria grande diferença na
formação de milhões de brasileiros.
Veja A média de crescimento do país no governo
FHC foi de 2,4% do PIB. Em seu plano de metas, com que taxa de crescimento
o senhor trabalha?
Serra
Em economia, não devemos trabalhar com períodos tão
curtos. Prefiro espaços maiores de tempo. Note que, entre 1980
e 2000, o Brasil cresceu a uma taxa de 2,7% ao ano. É evidente
que não foi um desempenho espetacular, mas na média da economia
mundial. Hoje, identifico pelo menos quatro condições econômicas
para que possamos alcançar uma taxa superior a 5% ao ano: afirmação
da estabilidade, câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e sistema
financeiro sólido.
Veja Essas condições já existem e, no
entanto, o país não cresceu 5% no ano passado.
Serra
Precisamos partir para a etapa da remoção dos obstáculos
que impediram o crescimento da economia. Vejo três problemas fundamentais.
O primeiro é o déficit em conta corrente, que hoje corresponde
a 4% do PIB. Vamos baixar isso. Outro nó górdio é
o gargalo energético. Um país que precisa crescer necessita
de energia. O cálculo mais usual é que, para cada ponto
do PIB em crescimento, precisamos aumentar algo como 1,7% na matriz energética.
Será feito. O terceiro ponto é a reforma tributária.
Atualmente, o sistema tributário compromete a competitividade da
economia brasileira. Encarece as exportações e barateia
as importações. Precisamos mudar isso.
Veja Todo mundo fala em reforma tributária e ninguém
a faz.
Serra
O problema é que todo mundo é a favor da reforma tributária,
mas todos defendem modelos diferentes. Já chegou a hora de parar
de ouvir nessa matéria. Não adianta ficar ouvindo e tirar
uma resultante das pressões. O resultado disso é zero. O
governo tem de concluir seu estudo, apontar o critério que mencionei
aqui e jogar todo o seu peso nisso.
Veja Como reduzir o déficit em conta corrente?
Serra
Exportando,
exportando e exportando. A solução mais viável passa
pelo aumento das exportações e pela substituição
das importações. Temos de formular parcerias com a iniciativa
privada, realocar recursos do BNDES, enfim, contagiar a sociedade com
essa preocupação. Se for eleito, farei logo de saída
uma reunião com todos os governadores para receber sugestões
e mapear oportunidades para incrementar as exportações.
Mato Grosso, por exemplo, é o Estado que mais cresceu nos últimos
dois anos. A taxa foi de 10% ao ano, um assombro. Boa parte desse crescimento
se deve às exportações de soja e algodão.
Recentemente, o governador Dante de Oliveira me explicava que a construção
da Rodovia CuiabáSantarém vai diminuir em 20% o custo
de exportação da soja. Com esse investimento, vamos exportar
mais por menos. Há certamente outras oportunidades como essa a
ser aproveitadas.
Veja Substituição de importações
não é uma política muito diferente da atual?
Serra
A substituição não seria para alguma autarquia ps.
Veja Substituição de importações
não é uma política muito diferente da atual?
Serra
A substituição não seria para alguma autarquia passar
a produzir itens banais, nem seria calcada em reserva de mercado, protecionismo
ou outros conceitos que já não cabem num mundo como o nosso.
A substituição de importações é fundamental
para expandir nossa matriz de exportação. Na época
de Getúlio Vargas, deu-se um grande salto nas indústrias
de base. Com Juscelino Kubitschek, avançamos na indústria
automobilística. No período de Ernesto Geisel, foi a vez
das petroquímicas. O próximo salto, a meu ver, terá
de ser na indústria de microprocessadores. Não é
necessário que o país passe a produzir microprocessadores
de uma hora para a outra. Podemos atrair indústrias para que se
instalem aqui ou fazer um sistema misto de capital estrangeiro e nacional.
A Intel, por exemplo, instalou uma filial na Costa Rica. Não é
uma questão de esquerda ou direita. O país precisa gerar
empregos e crescer.
Veja As taxas de juros estão hoje em 18,75%. Qual
índice o senhor considera ideal?
Serra
Temos
condições de reduzir os juros reais a um nível de
7%. A substituição das importações e o aumento
das exportações vão diminuir a dependência
do capital estrangeiro e fazer com que possamos baixar os juros.
Veja E a inflação?
Serra
Está um pouco acima do ideal. O objetivo é fazê-la
descer ao patamar de 2,5% ao ano. Não é promessa de campanha,
mas essa taxa deve ser perseguida.
Veja
O senhor está deixando o Ministério da Saúde
com uma epidemia de dengue. O que aconteceu?
Serra
É natural que os olhos da sociedade estejam voltados para onde
há problemas. O que não pode haver é exploração
eleitoral. Não tenho dúvida de que a dengue vai cair até
o fim do ano. Para analisar a moléstia, é preciso ver o
que aconteceu com as doenças infecto-contagiosas no país.
O sarampo, levamos a zero. A cólera, quase zero. Tivemos nove casos
no ano passado. O tétano neonatal também é residual.
A malária foi contida. A febre amarela urbana continua erradicada.
No ano passado, tivemos alguns casos de febre amarela silvestre, hoje
também sob controle. Já vacinamos 60 milhões de pessoas.
A tuberculose, apesar dos riscos, está contida. Já a dengue
é uma doença peculiar. Não tem vacina nem terapia
certeira. Ninguém com dengue toma um remédio e fica bom.
É uma doença que prospera num clima tropical úmido
e atinge bairros e cidades com 100% de água e esgoto. Em 90% dos
casos, tem mais a ver com água acumulada em quintais e terraços.
Excluindo-se o Estado do Rio de Janeiro, a dengue teria caído 30%
em relação ao ano passado. Mas não pensem que estamos
entregando o problema sem apontar um caminho. Hoje, pagamos 40 000 agentes
sanitários no Brasil. Fizemos nove cadeias nacionais de rádio
e televisão sobre o tema, reuniões com os secretários
e aumentamos sete vezes os gastos contra a moléstia. Enfim, tomamos
atitudes. Agora, vamos conscientizar a população e combater
o mal.
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