Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
Entrevista: José Serra

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 
Acesso rápido
Páginas amarelas de VEJA
2000 | 2001 | 2002

Hora de avançar

O ex-ministro da Saúde dá início
à campanha, reclama das fofocas
eleitorais e antecipa seu plano de metas

Maurício Lima e André Petry

 
Marcia Gouthier/Folha Imagem

"O problema não é ter idéias novas. É tirá-las do papel. Nesta campanha, vai ser importante prestar atenção nesse aspecto"

 
Veja também
Os resultados da última pesquisa do Ibope sobre a eleição presidencial

Na semana passada, José Serra deixou o governo de Fernando Henrique pela segunda vez. A primeira foi em maio de 1996, quando concorreu a prefeito de São Paulo e ficou em terceiro lugar. Agora, aos 59 anos, Serra sai do governo para tentar o salto mais ambicioso de seus quarenta anos de vida pública: concorrer ao Palácio do Planalto pelo PSDB. Tem três grandes desafios à frente: melhorar seu desempenho nas pesquisas, reeditar a aliança que elegeu e reelegeu Fernando Henrique e provar que é bom de voto. Na sua passagem de quase quatro anos pelo Ministério da Saúde, Serra deixa um fornido elenco de vitórias e um problema atual: a aguda epidemia de dengue – que já lhe valeu a chacota de que é "candidato a presidengue". Nesta entrevista, Serra fala do que espera da campanha, protesta contra a atual fase de fofocas eleitorais e adianta, em primeira mão, alguns pontos de seu plano de metas, caso seja eleito.

Veja – O senhor tem só 7% das intenções de voto para presidente, conforme a última pesquisa. Está em quinto lugar. Dá para chegar lá?
Serra – Sim, por que não? Faltam oito meses para a eleição. Pesquisa não define resultado. Se definisse, Paulo Maluf teria sido eleito governador de São Paulo em 1998 e Lula, presidente em 1994. Eles vieram bem nas pesquisas e perderam no final. Não estou preocupado com os outros. O que sei é que não vou retirar minha candidatura sob nenhuma hipótese. Essa fase do tititi eleitoral tem duas características. A primeira é a irrelevância dos acontecimentos. A outra é que retira espaço da discussão de políticas públicas sérias. Só querem saber com quem esse ou aquele candidato vai se encontrar. É um horror. Tenho fé que isso termine mais à frente. Com a proximidade da eleição, o eleitor saberá distinguir entre quem tem propostas e quem não as tem. Nas duas últimas eleições, o eleitor provou que sabe discernir bem. Hoje, não há espaço para aventureiros como Collor de Mello.

Veja – Seus adversários dizem que o senhor é antipático, não tem carisma.
Serra – A crítica é cômoda. Você diz que alguém tem ou não carisma de acordo com o resultado da eleição. É um julgamento a posteriori. Antes diziam que Fernando Henrique não tinha carisma porque perdera a eleição para prefeito em São Paulo. Depois que ganhou duas eleições presidenciais no primeiro turno, ele passou a ter. Meus adversários têm dito que eu seria o melhor presidente, mas não sou o melhor candidato. Deixemos o eleitor julgar. Acho que estamos escolhendo justamente o próximo presidente. Eu me acho simpático, minha mãe me acha simpático. Tem gente que não acha? Paciência...

Veja – Qual é seu caminho para conquistar a aceitação popular?
Serra – Por incrível que possa parecer, ainda sou pouco conhecido. Grande parte das pessoas lembra de mim só como ministro da Saúde, acha que sou médico e especialista em saúde. Quando perguntados se votariam em mim, muitos dizem que não, porque querem que eu fique no ministério. Mas há um fato que me favorece: o cronograma da eleição está adiantado. Com isso, você tem mais tempo para se expor.

Veja – O senhor acredita numa aliança entre os partidos governistas?
Serra – Estou esperançoso em relação ao PMDB. Temos tido boas conversas e sinais de figuras importantes do partido de que há espaço para a união ainda no primeiro turno. Mas estamos cuidando de aliança, não de nomes para o cargo de vice-presidente. Dizem que eu convidei o Jarbas (Jarbas Vasconcelos, governador de Pernambuco). Não é verdade. Estamos trabalhando juntos. Ele me apóia e isso para mim é muito importante. Seria um excelente vice, mas ainda não há nada. Há muita conversa e fofoca nesse período eleitoral. O Tasso (Jereissati, governador do Ceará), por exemplo, vai participar de nossa campanha. Não tenho dúvida. Aliás, ele não vai. Ele já está. É um homem de partido e amigo meu.

Veja – Na aparência, sua aliança preferencial é com o PMDB, cuja cúpula está maculada por escândalos, como a recente prisão de Jader Barbalho. Isso não prejudica?
Serra – Minha aliança preferencial é com a base do governo. Gostaria de ter ao meu lado o PFL, o PMDB, o PTB e o PPB. Gostaria de reeditar a aliança das últimas eleições. Todos os partidos são heterogêneos, não dá para analisar como um bloco. O PMDB é um partido de envergadura nacional com história e importância. Não acredito que o caso de Jader tenha liquidamente um reflexo eleitoral. Todos os partidos têm problemas, uns mais e outros menos. Em relação ao PFL, temos de reconhecer que foi um pilar necessário no governo Fernando Henrique e provou isso ao longo desses anos. Espero o apoio deles, sim. Eles têm uma boa candidata com bons índices nas pesquisas e uma administração para servir de exemplo. Mas acho que a união não é impossível. As chapas só precisam ser formadas no fim de junho. Até lá, muita coisa pode acontecer.

Veja – Se houver aliança, o PFL teria, num eventual governo seu, o mesmo peso que teve com FHC?
Serra – Nunca é do mesmo jeito. Mas é bom frisar isso: não estou falando em voto, aliança eleitoral. Estou falando em governo. O PFL cooperou no governo Fernando Henrique e pode perfeitamente cooperar comigo num governo futuro. Tudo depende das questões substantivas dos programas. Temos de sentar e conversar. Não acredito em diferenças insuperáveis.

Veja – Alguns economistas do PFL defendem a privatização do Banco do Brasil, do BNDES e da Caixa Econômica Federal. Qual é sua posição?
Serra – Eu não sou a favor. Tome-se como exemplo o BNDES. É um banco que funciona admiravelmente bem. Tornou-se uma massa substancial de recursos públicos e instrumento primoroso de política governamental. Cumpre sua função. O BNDES não está explodindo a política monetária porque tem oferta de dinheiro nem está criando cartórios no país. Pelo contrário, ajuda a criar um modelo de desenvolvimento. Não vejo sentido em privatizar BNDES, Caixa ou Banco do Brasil. Acho que criaríamos mais problemas que soluções.

Veja – Por que o senhor quer ser presidente?
Serra – Acho que posso unir a experiência administrativa com a vontade política para exercer o cargo. Tenho condições de juntar o conhecimento acumulado em quarenta anos de vida pública com a ousadia de quem quer avançar mais. No Brasil, o problema não é ter idéias novas. É tirá-las do papel. Nesta campanha, vai ser importante prestar atenção nesse aspecto. Terceirizar idéias, apresentar projetos, tudo isso é fácil. A questão é outra. É preciso ter vontade política, capacidade técnica e persistência para implementá-las. Acho que sou perfeitamente capaz de fazer isso. Aliás, é o que venho fazendo em toda a minha vida. Pratico o ativismo governamental. No Legislativo, pratico o ativismo legislativo. Precisamos dar seqüência às mudanças no Brasil.

Veja – Se for eleito, o que o senhor pretende fazer?
Serra – Partir para as etapas posteriores. Vamos pegar a questão da educação. Hoje, temos quase a totalidade das crianças na escola. O próximo passo é investir na qualidade do ensino ministrado. Algumas questões já vêm sendo implementadas. O Fundef, para citar uma das medidas cruciais, melhorou o salário dos professores. Precisamos de profissionais bem pagos para que o nível das aulas melhore e os bons professores continuem motivados para exercer a profissão. E não me refiro só aos salários, que, evidentemente, ainda estão aquém dos padrões desejados. Temos de investir em reciclagem e em cursos de aperfeiçoamento. Outro ponto importante é criar fontes de financiamento para que Estados e municípios possam investir numa mudança primordial: escolas com alunos em tempo integral. Em poucos anos, poderíamos ter 20% dos alunos da rede pública estudando em dois períodos nos colégios. É uma medida possível e faria grande diferença na formação de milhões de brasileiros.

Veja – A média de crescimento do país no governo FHC foi de 2,4% do PIB. Em seu plano de metas, com que taxa de crescimento o senhor trabalha?
Serra – Em economia, não devemos trabalhar com períodos tão curtos. Prefiro espaços maiores de tempo. Note que, entre 1980 e 2000, o Brasil cresceu a uma taxa de 2,7% ao ano. É evidente que não foi um desempenho espetacular, mas na média da economia mundial. Hoje, identifico pelo menos quatro condições econômicas para que possamos alcançar uma taxa superior a 5% ao ano: afirmação da estabilidade, câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e sistema financeiro sólido.

Veja – Essas condições já existem e, no entanto, o país não cresceu 5% no ano passado.
Serra – Precisamos partir para a etapa da remoção dos obstáculos que impediram o crescimento da economia. Vejo três problemas fundamentais. O primeiro é o déficit em conta corrente, que hoje corresponde a 4% do PIB. Vamos baixar isso. Outro nó górdio é o gargalo energético. Um país que precisa crescer necessita de energia. O cálculo mais usual é que, para cada ponto do PIB em crescimento, precisamos aumentar algo como 1,7% na matriz energética. Será feito. O terceiro ponto é a reforma tributária. Atualmente, o sistema tributário compromete a competitividade da economia brasileira. Encarece as exportações e barateia as importações. Precisamos mudar isso.  

Veja – Todo mundo fala em reforma tributária e ninguém a faz.
Serra – O problema é que todo mundo é a favor da reforma tributária, mas todos defendem modelos diferentes. Já chegou a hora de parar de ouvir nessa matéria. Não adianta ficar ouvindo e tirar uma resultante das pressões. O resultado disso é zero. O governo tem de concluir seu estudo, apontar o critério que mencionei aqui e jogar todo o seu peso nisso.

Veja – Como reduzir o déficit em conta corrente?
Serra – Exportando, exportando e exportando. A solução mais viável passa pelo aumento das exportações e pela substituição das importações. Temos de formular parcerias com a iniciativa privada, realocar recursos do BNDES, enfim, contagiar a sociedade com essa preocupação. Se for eleito, farei logo de saída uma reunião com todos os governadores para receber sugestões e mapear oportunidades para incrementar as exportações. Mato Grosso, por exemplo, é o Estado que mais cresceu nos últimos dois anos. A taxa foi de 10% ao ano, um assombro. Boa parte desse crescimento se deve às exportações de soja e algodão. Recentemente, o governador Dante de Oliveira me explicava que a construção da Rodovia Cuiabá–Santarém vai diminuir em 20% o custo de exportação da soja. Com esse investimento, vamos exportar mais por menos. Há certamente outras oportunidades como essa a ser aproveitadas.

Veja – Substituição de importações não é uma política muito diferente da atual?
Serra – A substituição não seria para alguma autarquia ps.

Veja – Substituição de importações não é uma política muito diferente da atual?
Serra – A substituição não seria para alguma autarquia passar a produzir itens banais, nem seria calcada em reserva de mercado, protecionismo ou outros conceitos que já não cabem num mundo como o nosso. A substituição de importações é fundamental para expandir nossa matriz de exportação. Na época de Getúlio Vargas, deu-se um grande salto nas indústrias de base. Com Juscelino Kubitschek, avançamos na indústria automobilística. No período de Ernesto Geisel, foi a vez das petroquímicas. O próximo salto, a meu ver, terá de ser na indústria de microprocessadores. Não é necessário que o país passe a produzir microprocessadores de uma hora para a outra. Podemos atrair indústrias para que se instalem aqui ou fazer um sistema misto de capital estrangeiro e nacional. A Intel, por exemplo, instalou uma filial na Costa Rica. Não é uma questão de esquerda ou direita. O país precisa gerar empregos e crescer.

Veja – As taxas de juros estão hoje em 18,75%. Qual índice o senhor considera ideal?
Serra – Temos condições de reduzir os juros reais a um nível de 7%. A substituição das importações e o aumento das exportações vão diminuir a dependência do capital estrangeiro e fazer com que possamos baixar os juros.

Veja – E a inflação?
Serra – Está um pouco acima do ideal. O objetivo é fazê-la descer ao patamar de 2,5% ao ano. Não é promessa de campanha, mas essa taxa deve ser perseguida.

Veja – O senhor está deixando o Ministério da Saúde com uma epidemia de dengue. O que aconteceu?
Serra – É natural que os olhos da sociedade estejam voltados para onde há problemas. O que não pode haver é exploração eleitoral. Não tenho dúvida de que a dengue vai cair até o fim do ano. Para analisar a moléstia, é preciso ver o que aconteceu com as doenças infecto-contagiosas no país. O sarampo, levamos a zero. A cólera, quase zero. Tivemos nove casos no ano passado. O tétano neonatal também é residual. A malária foi contida. A febre amarela urbana continua erradicada. No ano passado, tivemos alguns casos de febre amarela silvestre, hoje também sob controle. Já vacinamos 60 milhões de pessoas. A tuberculose, apesar dos riscos, está contida. Já a dengue é uma doença peculiar. Não tem vacina nem terapia certeira. Ninguém com dengue toma um remédio e fica bom. É uma doença que prospera num clima tropical úmido e atinge bairros e cidades com 100% de água e esgoto. Em 90% dos casos, tem mais a ver com água acumulada em quintais e terraços. Excluindo-se o Estado do Rio de Janeiro, a dengue teria caído 30% em relação ao ano passado. Mas não pensem que estamos entregando o problema sem apontar um caminho. Hoje, pagamos 40 000 agentes sanitários no Brasil. Fizemos nove cadeias nacionais de rádio e televisão sobre o tema, reuniões com os secretários e aumentamos sete vezes os gastos contra a moléstia. Enfim, tomamos atitudes. Agora, vamos conscientizar a população e combater o mal.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS