Edição 1 659 - 26/7/2000

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VÍDEO

Mifune (Mifunes Sidste Sang, Dinamarca/Suécia, 1999. Cult) – Os mandamentos do movimento dinamarquês Dogma 95 são radicais: é proibido usar luz artificial, trilha sonora ou cenários – apenas locações de verdade são permitidas. Câmara só na mão, sem tripé, e o diretor não assina o filme. Esse voto de pobreza produziu fitas muito comentadas, como Festa de Família, Os Idiotas e Mifune, que chega agora em vídeo e é, disparado, o melhor exemplar do trio, até por ser o menos "dogmático". Ou seja, o diretor Soren Kragh-Jacobsen (sim, sabe-se sempre quem é o autor da obra) não fica balançando a câmara desnecessariamente, só para parecer anárquico. A história também é acima da média. Kresten, o protagonista, posa de empresário bem-sucedido e acaba de se casar. Mas, quando seu pai morre, é obrigado a reencontrar o passado, na forma de uma fazenda caindo aos pedaços e um irmão deficiente mental. Precisando de ajuda, contrata uma empregada – aliás, uma prostituta perseguida por um psicopata. Logo, tudo o que parecia horrível se torna promissor. Um filme surpreendente.

 

LIVROS

Lembrando Babilônia, de David Malouf (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 253 páginas; 22 reais) – Separe este livro para ler durante as Olimpíadas de Sydney. Não, ele não tem nada a ver com práticas esportivas. Mas se trata de um ótimo romance sobre o período de formação da Austrália e o encontro de culturas que se deu ali. Malouf conta a história de um grupo de colonos escoceses que, em meados do século passado, constroem seu vilarejo numa das regiões mais isoladas e inóspitas do país. Um dia, um homem surge dos pântanos. Europeu, ele foi abandonado na infância e criado por uma tribo de aborígines. "Paródia de um homem branco", nas palavras do autor, esse novo personagem causa inquietação e perplexidade entre os moradores do vilarejo e traz à tona todas as contradições do processo colonizador. Malouf, o mais importante escritor australiano da atualidade, explora os conflitos que se seguem e ainda oferece descrições detalhadas das paisagens de sua terra natal.

Valdemir Cunha
Valdemir Cunha
Londres: história romanceada

Londres, o Romance, de Edward Rutherfurd (tradução de Alves Calado; Record; 1.019 páginas; 65 reais) – Nem livro de história nem guia turístico, esta obra é uma espécie de biografia romanceada da capital da Inglaterra, na qual figuras reais como Thomas Cromwell e Charles Dickens se misturam com mais de 100 personagens inventados pelo autor. Começando pelo tempo dos druidas, 2.000 anos atrás, e chegando até os dias de hoje, Rutherfurd não deixa escapar nenhum evento importante. Há também muitas curiosidades – como a origem dos nomes de ruas ou da palavra "xerife", e as técnicas necessárias para fabricar uma armadura. Para cobrir tantos assuntos, ele recorre a métodos folhetinescos. A ação corre depressa. Seus heróis e vilões ganham traços caricaturais ao lutar pela glória ou pelo amor, pela honra ou pela vingança. Mas tudo é muito divertido e, no final, as peças se encaixam. O efeito pode não ser o mesmo de uma visita a Londres, mas essa viagem literária certamente tem seus encantos e vantagens. Pelo menos, você não vai ter de provar a comida inglesa.

 

DISCO

The Very Best of, Ray Charles (WEA) – Para quem não dispõe de nenhum CD de Ray Charles em sua discoteca, essa coletânea vem a calhar. O álbum reúne as principais colaborações do cantor e pianista de 69 anos à cena musical americana. Seu currículo é dos mais respeitáveis. Foi ele o responsável pelo surgimento da soul music, um dos ritmos mais populares no mundo todo. Isso remonta à década de 50, quando o artista misturou os blues ensandecidos que tocava ao piano com aquele coral típico das igrejas gospel americanas. Esse cruzamento é muito bem ilustrado em faixas como Hallelujah I Love Her So e What'd Say, que tiveram grande repercussão na época em que foram lançadas. A receita foi aproveitada por cantores de todas as cores, raças e credos. Marvin Gaye, Joe Cocker e Stevie Wonder, entre outras feras, foram seguidores confessos do estilo criado por Ray Charles. Nas décadas seguintes, ele adicionou à sua invenção ritmos como jazz, rock e até mesmo country. Dessa fase destacam-se hits que até hoje estão presentes nas apresentações do cantor, como Unchain My Heart e as deliciosas baladas I Can't Stop Loving You e Georgia On My Mind.

 

OS MAIS VENDIDOS — Crítica

A comparação era inevitável e Zélia Gattai logo tratou de esclarecer: Terra Nostra serviu mesmo de inspiração para seu mais recente livro de memórias. Foi assistindo aos primeiros capítulos da novela da Rede Globo, encerrada há pouco, que ela teve a idéia de contar a imigração de seus parentes da Itália para o Brasil, no final do século XIX. A dívida, no entanto, acaba por aí mesmo. Nas aventuras e desventuras de Angelina Da Col e Ernesto Gattai, seus pais, e nas lembranças de sua própria infância, Zélia tinha material mais do que suficiente para não precisar recorrer a outras fontes. Città di Roma (Record; 174 páginas; 22 reais) ocupa nesta semana a sétima posição na lista de mais vendidos de VEJA. Às vezes terno, às vezes engraçado, o que o livro nunca deixa de ser é autêntico.

Cida Souza
Zélia: mais histórias de família em seu novo e cativante livro

O título das memórias corresponde ao nome do navio que trouxe Angelina e Ernesto, ainda crianças, de Gênova até o Porto de Santos. Essa travessia é apenas um ponto de partida. Zélia depois vai narrar episódios variados, relativos não apenas à vida familiar, mas também às dificuldades encontradas pelos italianos na nova terra. Ninguém deve esperar do livro exatidão histórica absoluta. Zélia afirma que não fez uso de anotações ou diários, tendo confiado apenas na memória. Ao contrário do que ocorre em seu livro mais conhecido, Anarquistas Graças a Deus (1979), ela não dá muita ênfase à política em Città di Roma, embora esse tema renda algumas passagens fortes, como a da prisão e tortura de Ernesto, simpatizante do comunismo, pela polícia de Getúlio Vargas. O que a mulher de Jorge Amado desejava mesmo era contar boas histórias. E isso ela conseguiu.

Carlos Graieb

 
Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.