Edição 1 659 - 26/7/2000

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E para variar...

O IBGE descobriu números positivos
num Brasil soterrado pelas más notícias

Eliana Giannella Simonetti
e Denise Romero

Num país que anda farto de notícias de corrupção, roubalheira, bandidagem e dificuldades de todos os tipos, uma boa nova vem bem a calhar. Na semana passada, ela foi fornecida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O instituto terminou a compilação dos dados e a análise das mudanças que ocorreram no país nos últimos dez anos. Concluiu que nem tudo está tão ruim como parece para quem vive mergulhado no noticiário do dia-a-dia. Com todos os problemas e dificuldades que ainda permanecem, o brasileiro está vivendo muito melhor hoje que em 1989. A distribuição de renda está mais equilibrada, há mais crianças matriculadas em escolas e os lares têm mais conforto. A pesquisa (apelidada de Pnad) é a maior realizada na América Latina para acompanhar transformações na sociedade. Não é pouca coisa. É feita desde 1967 e deve ser levada a sério.

No calhamaço de dados e análises levantados pelos consultores do IBGE há indicadores positivos e negativos. Os positivos são conseqüência de mudanças estruturais que ocorreram nos últimos anos, e que podem garantir um futuro melhor para o país. É assim no que diz respeito à educação. O Brasil caminha para a completa universalização do ensino fundamental. Perto de 96% das crianças de 7 a 14 anos (pobres e ricas) estão na escola. Mais que isso. Cada vez mais gente continua estudando depois de completar o ensino fundamental. Parece incrível, mas em 1978 apenas 3% dos brasileiros tinham mais de onze anos de estudo. Hoje são 19%. É gente mais bem preparada para o mercado de trabalho, que consegue produzir mais e obter melhor salário. A tendência é importante, vem de longe, e já parece ter criado um ciclo virtuoso. Quem termina o curso médio tem ambição de cursar uma faculdade e quer que seus filhos cheguem ainda mais adiante. A população brasileira, portanto, está se preparando para o ambiente cada vez mais competitivo da economia em geral e do mercado de trabalho em particular. "E se fizermos a comparação por regiões do país veremos que nos lugares onde a situação era pior o quadro evoluiu mais depressa, o que é bastante positivo", diz Vandeli Guerra, consultora do IBGE.

Telefone, aparelho de televisão, geladeira, fogão e máquina de lavar roupa são equipamentos cada vez mais comuns nas casas das pessoas. Três mudanças na estrutura do país possibilitaram esse conforto. A primeira foi a estabilidade econômica. A redução da inflação não foi responsável apenas pelo aumento no poder de compra dos mais pobres. Permitiu que as pessoas, de maneira geral, planejassem melhor suas despesas. E possibilitou a oferta de crédito, que facilitou o consumo. A segunda mudança estrutural foi a abertura econômica do país a produtos importados. A concorrência provocou melhora na qualidade dos bens, queda nos preços e uma gama maior de opções de consumo. Finalmente, houve a privatização. O efeito mais contundente, nesse capítulo, pôde ser sentido na área da telefonia. Dez anos atrás, apenas 19% dos lares brasileiros tinham telefone. Hoje são mais de 37%. As pessoas podem reclamar dos serviços, que ainda não estão uma maravilha. Mas é preciso considerar que foram instalados mais telefones fixos desde a privatização, dois anos atrás, do que nos últimos 25 anos de monopólio estatal. E que a eficiência do serviço tinha mesmo de ficar um pouco prejudicada, depois de tremenda explosão.

O capítulo dos indicadores negativos é relacionado com eventos conjunturais e ocasionais. O IBGE descobriu, por exemplo, que a renda dos trabalhadores brasileiros encolheu 7% no último ano. O Brasil empobreceu um pouco, e não havia como evitar que isso ocorresse. Com três anos de crise financeira internacional e uma desvalorização cambial feita de maneira desajeitada, não se poderia imaginar que o país entrasse impávido e sobranceiro no século XXI. Houve queda de exportações, queda de consumo, queda de emprego. Nota-se, no entanto, que a perda de renda foi maior entre os mais ricos, e bem menor entre os mais pobres – o que, afinal, inverte a tendência de os ricos sempre se beneficiarem à custa dos mais pobres. Por que dessa vez os pobres não foram os mais penalizados pela crise econômica brasileira? Simplesmente porque ela não foi seguida de inflação. A economia permaneceu estável, e isso acabou criando um país onde as disparidades de renda não são tão abissais. O brasileiro empobreceu, mas outros países que passaram por experiências semelhantes tiveram resultados piores. A economia da Coréia do Sul encolheu 8%. A da Indonésia, cerca de 14%.

É preciso ter os pés enraizados no chão quando se estuda uma pesquisa como o Pnad. Embora se tenha saído relativamente bem na última década, o país ainda tem muitos problemas a resolver. O movimento de privatização, que se mostrou tão positivo, anda rateando. As reformas legislativas e constitucionais que permitirão que o Estado se dedique com mais atenção a suas funções, e deixe a economia correr mais livremente, estão paradas. É preciso, claro, combater a corrupção, aumentar os serviços de segurança nas cidades, a qualidade do ensino e dos serviços de saúde. Neste período de transição que o país atravessa, ainda há muitos caroços a digerir. E eles podem atrapalhar o crescimento futuro. "O Brasil tem condições de escapar das terríveis estatísticas internacionais que colocam o país entre os piores em termos de distribuição de renda e qualidade de vida. Precisa não desistir do caminho que vem trilhando para garantir crescimento de longo prazo", diz Odair Abate, economista-chefe do banco Lloyds, em São Paulo.

Moral da história: uma sociedade em transição passa por altos e baixos. É normal. É uma ilusão pensar que tudo pode melhorar ao mesmo tempo, e rápido. Os números divulgados pelo IBGE na semana passada ajudam a incutir um pouco mais de ânimo num país cansado de tanta desgraça.



Marcelo Carnaval/Ag. JB

 
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