E para variar...
O IBGE descobriu números positivos
num Brasil soterrado pelas más notícias
Eliana Giannella Simonetti
e Denise Romero
Num país que anda farto de notícias de corrupção,
roubalheira, bandidagem e dificuldades de todos os tipos,
uma boa nova vem bem a calhar. Na semana passada, ela foi
fornecida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). O instituto terminou a compilação
dos dados e a análise das mudanças que ocorreram
no país nos últimos dez anos. Concluiu que
nem tudo está tão ruim como parece para quem
vive mergulhado no noticiário do dia-a-dia. Com todos
os problemas e dificuldades que ainda permanecem, o brasileiro
está vivendo muito melhor hoje que em 1989. A distribuição
de renda está mais equilibrada, há mais crianças
matriculadas em escolas e os lares têm mais conforto.
A pesquisa (apelidada de Pnad) é a maior realizada
na América Latina para acompanhar transformações
na sociedade. Não é pouca coisa. É
feita desde 1967 e deve ser levada a sério.
No calhamaço de dados e análises levantados
pelos consultores do IBGE há indicadores positivos
e negativos. Os positivos são conseqüência
de mudanças estruturais que ocorreram nos últimos
anos, e que podem garantir um futuro melhor para o país.
É assim no que diz respeito à educação.
O Brasil caminha para a completa universalização
do ensino fundamental. Perto de 96% das crianças
de 7 a 14 anos (pobres e ricas) estão na escola.
Mais que isso. Cada vez mais gente continua estudando depois
de completar o ensino fundamental. Parece incrível,
mas em 1978 apenas 3% dos brasileiros tinham mais de onze
anos de estudo. Hoje são 19%. É gente mais
bem preparada para o mercado de trabalho, que consegue produzir
mais e obter melhor salário. A tendência é
importante, vem de longe, e já parece ter criado
um ciclo virtuoso. Quem termina o curso médio tem
ambição de cursar uma faculdade e quer que
seus filhos cheguem ainda mais adiante. A população
brasileira, portanto, está se preparando para o ambiente
cada vez mais competitivo da economia em geral e do mercado
de trabalho em particular. "E se fizermos a comparação
por regiões do país veremos que nos lugares
onde a situação era pior o quadro evoluiu
mais depressa, o que é bastante positivo", diz Vandeli
Guerra, consultora do IBGE.
Telefone, aparelho de televisão, geladeira, fogão
e máquina de lavar roupa são equipamentos
cada vez mais comuns nas casas das pessoas. Três mudanças
na estrutura do país possibilitaram esse conforto.
A primeira foi a estabilidade econômica. A redução
da inflação não foi responsável
apenas pelo aumento no poder de compra dos mais pobres.
Permitiu que as pessoas, de maneira geral, planejassem melhor
suas despesas. E possibilitou a oferta de crédito,
que facilitou o consumo. A segunda mudança estrutural
foi a abertura econômica do país a produtos
importados. A concorrência provocou melhora na qualidade
dos bens, queda nos preços e uma gama maior de opções
de consumo. Finalmente, houve a privatização.
O efeito mais contundente, nesse capítulo, pôde
ser sentido na área da telefonia. Dez anos atrás,
apenas 19% dos lares brasileiros tinham telefone. Hoje são
mais de 37%. As pessoas podem reclamar dos serviços,
que ainda não estão uma maravilha. Mas é
preciso considerar que foram instalados mais telefones fixos
desde a privatização, dois anos atrás,
do que nos últimos 25 anos de monopólio estatal.
E que a eficiência do serviço tinha mesmo de
ficar um pouco prejudicada, depois de tremenda explosão.
O capítulo dos indicadores negativos é relacionado
com eventos conjunturais e ocasionais. O IBGE descobriu,
por exemplo, que a renda dos trabalhadores brasileiros encolheu
7% no último ano. O Brasil empobreceu um pouco, e
não havia como evitar que isso ocorresse. Com três
anos de crise financeira internacional e uma desvalorização
cambial feita de maneira desajeitada, não se poderia
imaginar que o país entrasse impávido e sobranceiro
no século XXI. Houve queda de exportações,
queda de consumo, queda de emprego. Nota-se, no entanto,
que a perda de renda foi maior entre os mais ricos, e bem
menor entre os mais pobres o que, afinal, inverte a tendência
de os ricos sempre se beneficiarem à custa dos mais
pobres. Por que dessa vez os pobres não foram os
mais penalizados pela crise econômica brasileira?
Simplesmente porque ela não foi seguida de inflação.
A economia permaneceu estável, e isso acabou criando
um país onde as disparidades de renda não
são tão abissais. O brasileiro empobreceu,
mas outros países que passaram por experiências
semelhantes tiveram resultados piores. A economia da Coréia
do Sul encolheu 8%. A da Indonésia, cerca de 14%.
É preciso ter os pés enraizados no chão
quando se estuda uma pesquisa como o Pnad. Embora se tenha
saído relativamente bem na última década,
o país ainda tem muitos problemas a resolver. O movimento
de privatização, que se mostrou tão
positivo, anda rateando. As reformas legislativas e constitucionais
que permitirão que o Estado se dedique com mais atenção
a suas funções, e deixe a economia correr
mais livremente, estão paradas. É preciso,
claro, combater a corrupção, aumentar os serviços
de segurança nas cidades, a qualidade do ensino e
dos serviços de saúde. Neste período
de transição que o país atravessa,
ainda há muitos caroços a digerir. E eles
podem atrapalhar o crescimento futuro. "O Brasil tem condições
de escapar das terríveis estatísticas internacionais
que colocam o país entre os piores em termos de distribuição
de renda e qualidade de vida. Precisa não desistir
do caminho que vem trilhando para garantir crescimento de
longo prazo", diz Odair Abate, economista-chefe do banco
Lloyds, em São Paulo.
Moral da história: uma sociedade em transição
passa por altos e baixos. É normal. É uma
ilusão pensar que tudo pode melhorar ao mesmo tempo,
e rápido. Os números divulgados pelo IBGE
na semana passada ajudam a incutir um pouco mais de ânimo
num país cansado de tanta desgraça.

Marcelo Carnaval/Ag. JB
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