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Edição 1 659 - 26/7/2000
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O nome do ex-secretário apareceu no noticiário como resultado de uma combinação de dois ingredientes de alto poder explosivo. Um desses ingredientes é seu mal explicado envolvimento com o juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lau-Lau, coordenador da maracutaia na obra do Fórum Trabalhista de São Paulo, o maior caso de roubança de que se tem notícia no país. A gangue desviou pelo menos 220 milhões de reais de uma construção que consumiu 302 milhões em valores atuais corrigidos. Ou seja, roubaram-se 73 de cada 100 reais liberados pelo governo para a obra. Nos tempos de PC Farias, falava-se em comissão de 6% a 15%. Houve um caso de caixinha que chegou a 40%. Deixou boquiabertos os deputados da CPI que culminou com o impeachment de Fernando Collor. A turma do TRT elevou a propina ao impressionante patamar de 73%. Deve ser recorde mundial.
Quando Lau-Lau teve seu sigilo de comunicação quebrado, Eduardo Jorge mergulhou o pé na lama. Descobriu-se que os números dos telefones registrados em nome do juiz se conectaram duas centenas de vezes aos números do assessor de FHC. Ainda não se sabe quantas vezes os dois efetivamente se falaram e qual foi o tema das conversas, mas basta a quantidade de telefonemas para tornar o caso muito complicado para o ex-assessor de FHC. Eduardo Jorge garante que a maioria das chamadas não passou da secretária e que, nas vezes em que conversaram, trataram apenas sobre a nomeação de juízes classistas. A versão do assessor foi torpedeada na semana passada, quando uma listagem mais atualizada identificou novos telefonemas trocados entre os dois, após o secretário deixar o Palácio. Já não tinha mais nada a ver com o governo pelo menos oficialmente , quanto mais com juízes classistas. O outro ingrediente explosivo são seus sinais exteriores de enriquecimento. Eduardo Jorge é um funcionário público aposentado pelo Senado e ganha 8.000 reais. Sua mulher, Lídice, recebe outros 8.000. Formam um casal de classe média alta. Pegou mal a decisão de comprar um apartamento avaliado em 1 milhão de reais. Como um burocrata de Brasília consegue morar no luxuoso Praia Guinle, condomínio do Rio de Janeiro habitado por artistas e empresários? Segundo Eduardo Jorge declarou a VEJA, o imóvel é compatível com sua evolução patrimonial e também com a renda que passou a ter depois de deixar o governo. O ex-secretário afirmou que possui quatro contratos de consultoria e que recebe no mínimo 15.000 reais mensais de cada um, mais participações nos resultados. Se os números forem esses mesmos, Eduardo Jorge poderia comprar um apartamento de 1 milhão de reais a cada ano e meio.
Na alta cúpula tucana e entre parlamentares de primeira grandeza, a discussão que interessa é saber que tipo de negócio Eduardo Jorge está fazendo e em nome de quem ele fala. Só então se conhecerá a extensão da crise. Ela será de menor porte se se descobrir que Eduardo Jorge trabalhou por conta própria desde que saiu do governo e, ávido por ganhar dinheiro, não resistiu à tentação e tratou de intermediar negócios com o poder público. É preciso dizer que, afora a discussão moral que se pode travar em torno do tema, não há crime algum em apresentar duas partes interessadas em fazer negócios ainda que uma delas seja o governo. A crise terá proporções maiores e conseqüência desconhecida se as investigações apontarem para a existência de uma rede de influência no governo. No Palácio do Planalto, há naturalmente uma apreensão grande em relação ao andamento do caso. Afinal, Eduardo Jorge conheceu a intimidade da máquina governamental e esteve também envolvido com a campanha da reeleição, durante a qual atuou como coordenador. Organizava as despesas e, de vez em quando, arrecadava fundos. Chegou a pedir 250.000 reais de contribuição à empresa Meta, que deu o dinheiro. Durante uma viagem a Moçambique, o presidente Fernando Henrique, pressionado a falar sobre o ex-assessor, apostou na hipótese da crise de pequeno porte. "Não se trata de um processo contra o governo nem de uma questão política. Se houver alguma questão, ela é individual, primeiro", afirmou. O presidente disse o que dele se esperava ouvir. Mas o tamanho da crise só será percebido após o depoimento de Eduardo Jorge ao Congresso e, principalmente, com o desenvolvimento das investigações do Ministério Público. Enquanto esteve no Planalto, Eduardo Jorge tornou-se um especialista em nomeações. Todas as indicações feitas pelos políticos passavam antes por seu crivo. O candidato tinha seu passado checado e, se não houvesse nada de errado, a nomeação era confirmada. Em duas áreas especialmente ricas do governo, o assessor mantinha a vigilância. Uma é formada pelos fundos de pensão. A outra, pelas seguradoras estatais coincidência ou não, área na qual atuaria ao deixar o Planalto e se associar à Meta. Em 1996, Eduardo Jorge insistiu com o então presidente do Banco do Brasil, Paulo César Ximenes, que nomeasse um ex-deputado, Luiz Vasconcelos, para a presidência da Previ, o poderoso fundo de pensão do banco, que administra uma fortuna de 32 bilhões de reais. Ximenes disse a amigos que temia pela gestão de Vasconcelos, mas acabou cedendo diante da "forte pressão do Planalto feita por Eduardo Jorge", segundo contou a um amigo na ocasião. O nomeado ficou apenas seis meses no cargo um recorde. Por que saiu? Ninguém diz com clareza, mas sabe-se que sua saída está relacionada à atuação na compra do prédio do hotel Meridien no Rio, por 44 milhões de reais. Ximenes disse a pelo menos dois interlocutores que ficou "chocado" com as atitudes do presidente da Previ durante a negociação. A transação ocorreu em 12 de novembro daquele ano. Vasconcelos foi afastado da Previ no dia 20. Era o fim de Vasconcelos no governo? Não. Eduardo Jorge o instalou na diretoria da BrasilSaúde, seguradora também ligada ao BB. Nesse período, Vasconcelos selou alguns contratos com que empresa? Com a Meta, essa corretora da qual Eduardo Jorge é sócio hoje. O primeiro serviço feito por Eduardo Jorge à Meta foi no início de 1998, quando ele ainda era secretário do governo. A pedido do presidente da empresa, Ivan Aragão, o assessor de FHC o apresentou a José Maria Monteiro, que atuou como caixa de campanha do governador Mário Covas, então presidente da Cosesp, a seguradora estatal do governo de São Paulo. Graças a esse contato, a Cosesp fez dois negócios com a Meta. Num deles, a corretora de Aragão intermediou a transferência de uma carteira de 80.000 veículos da Cosesp para a Sul América. Em outro negócio, a Cosesp fechou seu escritório em Brasília, demitiu o pessoal e entregou a representação à Meta. O funcionário da Cosesp encarregado da transferência da representação era o diretor Julio Cesar Figueiredo, marido de uma sobrinha de Eduardo Jorge. Ao sair da Cosesp, em 1998, José Maria Monteiro tornou-se dirigente da seguradora do Banco do Brasil. Em sua gestão, a seguradora contratou a Meta para fechar um pacote de seguros com o Ministério dos Transportes. Detalhe: sem licitação. Na semana passada, o presidente da Meta, Ivan Aragão, conversava com um amigo. Comentou que a intenção de associar-se a Eduardo Jorge foi fortalecer sua empresa. "Poderíamos, quem sabe, triplicar nosso faturamento", disse. O ex-secretário fez alguns contatos iniciais, mas passou a se irritar com a pressão para que ajudasse a empresa com mais empenho. Resultado: o ritmo de crescimento da Meta era maior antes que depois da entrada formal de Eduardo Jorge na diretoria. A Meta era uma empresa de médio porte até 1994. Faturava 2,4 milhões de reais por ano. Dobrou seu faturamento no primeiro ano do governo FHC. Dobrou novamente em 1996. Desde então se firmou como uma corretora temida no mundo estatal. Em 1997, a empresa faturou 13 milhões de reais. Em 1998, um ano antes da entrada de Eduardo Jorge, a firma faturou 8 milhões. No ano passado, quando ele se associou, a Meta arrecadou 10 milhões. Previa 12 milhões para este ano, antes do escândalo. "Se chegarmos a 7 milhões, darei pulos de alegria. Estou lutando para permanecer vivo", comentou Aragão. São tantas as denúncias envolvendo o ex-secretário que é até possível classificá-las. Há as acusações tolas, ligadas quase todas a integrantes de sua família. Lídice, a mulher de Eduardo Jorge, já atuou como produtora cultural com patrocínio da seguradora da Caixa Econômica Federal. Uma irmã de Eduardo Jorge, Maria Delith Caldas Balabau, é diretora administrativa e financeira do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, o Sebrae, um cargo público. Um irmão seu presta serviços a uma empresa de consultoria ligada ao PSDB. A importância disso é nenhuma. Outra classe de denúncias está ligada às andanças de Eduardo Jorge no mundo das seguradoras. E uma terceira categoria de acusações diz respeito ao prédio do TRT. Até o momento, não há uma única prova de que Eduardo Jorge tenha recebido algum tipo de favorecimento da gangue do fórum. É isso que os integrantes do Ministério Público querem esclarecer com a quebra dos sigilos fiscal e telefônico do ex-assessor de FHC. No caso do prédio, o golpe é de tal magnitude que se pergunta como pode ter ocorrido sem que aparecesse alguém para barrá-lo em pleno vôo. As primeiras irregularidades detectatas no prédio do TRT foram apontadas pelos auditores do Tribunal de Contas da União em 1992. Mas apenas em 1999 a obra deixou de receber dinheiro público. Nesse meio tempo, as autoridades liberaram um terço de bilhão de reais para a máfia do juiz. Essas autoridades estavam encasteladas no Judiciário, no Congresso e no Executivo. Tanto as que leram o que assinavam quanto as que não leram, e ainda as que recebiam telefonemas do juiz Lau-lau.
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