Por que tutelar o cinema?
Ilustração Pepe Casals
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Vi um documentário sobre John Cassavetes. Ele era
o diretor que melhor encarnava a imagem do cinema independente
americano. O documentarista entrevistou parentes, amigos
e colaboradores de Cassavetes. Em vez de ficar falando sobre
estilo ou linguagem cinematográfica, os entrevistados
preferiram falar exclusivamente sobre dinheiro. Porque os
americanos sabem que cinema é isso: dinheiro. De
um lado, há o cinema milionário dos grandes
estúdios. Do outro, o cinema pobre dos independentes.
Para financiar seus filmes, Cassavetes trabalhava como ator
nos filmes dos grandes estúdios. Ou seja, ele investia
dinheiro do próprio bolso. A desvantagem era que
ele nunca tinha um tostão. A vantagem era que podia
realizar os filmes que bem entendia, sem obedecer a ordens
de ninguém. Cassavetes dizia que era melhor trabalhar
no esgoto do que dirigir para os grandes estúdios.
Parece simples, mas
não é. Cinema independente é coisa
de americano. Só eles entendem desse negócio.
O cinema europeu é todo financiado pelo poder público.
Nenhum cineasta europeu corre o risco de perder o carro
ou a casa porque seu filme é um fracasso. Os brasileiros,
que costumam ser tão americanizados em tudo, escolheram
o modelo de cinema europeu, claro. Com a diferença
de que, se seus filmes fracassam, nossos cineastas não
só não perdem suas casas como acabam por comprar
uma cobertura de frente para a praia. No final de junho,
os grandes nomes da cinematografia nacional reuniram-se
em Porto Alegre para elaborar a Carta do Cinema Brasileiro.
A carta contém dezenas de reivindicações.
Na prática, pede-se que o governo entregue ainda
mais dinheiro aos cineastas e crie leis que obriguem os
espectadores a assistir a seus filmes. Vinte chibatadas
em quem se recusar a ver pelo menos um filme nacional por
semana.
Contrariamente a John
Cassavetes, nossos cineastas não exigem mais independência,
mas mais tutela. Pior: tutela governamental. Eles querem
que os burocratas do Ministério da Cultura ou da
Riofilme tomem conta deles. Para grande felicidade dos burocratas,
é evidente. Li uma entrevista com o diretor da Riofilme,
José Carlos Avellar. Ele reclama que os filmes com
tecnologia digital ainda não inventaram nenhuma novidade
do ponto de vista estético. É compreensível
que Avellar desconfie do cinema digital. O digital custa
mais barato e, custando mais barato, diminui o poder dos
burocratas. Os cineastas, por sua vez, também não
querem independência, e continuam a discutir sobre
questões obsoletas como reserva de mercado em salas
cinematográficas. Salas cinematográficas,
se tudo correr bem, tendem a desaparecer. O cinema vai chegar
em casa pela internet, sem gastos com distribuição
e, sobretudo, sem depender dos critérios de escolha
dos exibidores. Os nostálgicos do cinema costumam
afirmar que TV não é lugar para ver filmes,
que nada pode substituir uma salinha escura. Se você
gosta de salinhas escuras, apague a luz do abajur. Bem melhor
do que ter de enfrentar um velho cinema, com aquele cheiro
de carpete mofado e uma cabeçona na poltrona da frente.
E bem melhor do que ter alguém decidindo a que filme
você vai assistir.