O cansaço dos cidadãos
"A apatia e a insatisfação dos
cidadãos com a
democracia representativa só têm um antídoto:
reaproximá-los das decisões"
Ilustração Ale Setti
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Pesquisas do Ibope em São Paulo e no Rio de Janeiro
indicam que 53% dos paulistanos e 52% dos cariocas não
estão interessados na escolha de seus prefeitos.
Esse descaso aparece também no crescimento dos votos
nulos, brancos e da abstenção. Nos dois turnos
de 1989 ficaram na média em 19,2%. Em 1994 saltaram
para 36,7% e em 1998 chegaram a 40,2%. O Brasil não
é diferente ou pior que outros países. Pesquisa
nos Estados Unidos mostra que 45% dos eleitores americanos
não têm interesse na escolha do presidente
da República e 54% ainda nem pensaram sobre ela.
As razões desse desinteresse pelas eleições
vão desde os imprecisos limites éticos da
política no Brasil até fatores mais gerais
que têm a ver com a evolução da democracia
de massas no mundo. Não importa se ela é majoritária
ou proporcional, parlamentarista ou presidencialista, a
distância social e política entre representantes
e representados ficou excessiva. O diálogo entre
governo e sociedade, Parlamento e sociedade, quase desapareceu.
O que passa por comunicação não se
distingue de propaganda ou de exposição unilateral
e não interativa das opiniões, idéias
e ações dos representantes a cidadãos,
espectadores entediados da política.
As fronteiras ideológicas embolaram, os valores
das sociedades mudaram mais que os dogmas dos políticos
à esquerda e à direita e as diferenças
nas políticas econômicas de liberal-conservadores
e social-democratas quase desapareceram. Tudo isso contribuiu
para alimentar o desinteresse de muitos cidadãos
pela vida partidária e eleitoral. Crises, o desequilíbrio
fiscal do Estado e a globalização impuseram
uma disciplina fiscal inédita. Há pesquisas
mostrando que, embora o ajuste fiscal dos social-democratas
preserve mais o interesse dos assalariados que os ajustes
conservadores, os cidadãos não vêem
mais que a semelhança.
Confortador é que o desgaste dos governos e da
política não reduziu o orgulho nacional nem
a adesão à democracia. Pesquisa feita em 65
países, com metodologia que permite comparações,
o World Values Survey, cuja última rodada foi em
1996, mostra que o Brasil tem índice de adesão
à comunidade nacional (orgulho nacional e compromisso
com o país) de 64%, semelhante ao de Argentina e
Chile. Maior que o da Espanha, 58%, Uruguai, 56%, Japão,
18%, ou Alemanha, 36%. Nos Estados Unidos, Suécia
e Noruega, está acima de 75%.
A maioria no Brasil, 78%, acha a democracia o melhor regime
político, o mesmo que no Chile e mais que no México,
71%. Mas na Argentina, Alemanha e Suécia essa maioria
é superior a 90% e nos Estados Unidos, Austrália
e Japão, maior que 80%.
Preferir a democracia não significa estar satisfeito
com a democracia que se tem. Só 28% dos brasileiros
estão. Mais que os espanhóis, 18%, e os americanos,
25%. Nem significa confiar no Parlamento. Só 34%
dos brasileiros confiam, mais que os americanos, 30%, alemães,
29%, japoneses, 27%, e argentinos, 15%.
A apatia e a insatisfação dos cidadãos
com a democracia representativa só têm um antídoto:
reaproximá-los das decisões. Até agora,
as tentativas bem-sucedidas ocorreram no âmbito de
cidades. Nessa escala menor, dá para testar formas
interativas e inclusivas de democracia, envolvendo diretamente
o cidadão nas decisões. Na Grécia,
a "Rede Péricles" quer recriar a ágora, o
espaço público das antigas cidades gregas
onde os cidadãos deliberavam. Por ela, é possível
obter toda a informação governamental nos
computadores individuais, mas para votar os cidadãos
devem ir a quiosques, mantendo o voto como um ato coletivo
e não solitário e individual. Em Bolonha,
a prefeitura instalou fibra óptica na cidade, para
permitir acesso de todas as casas à rede municipal.
Com a internet, pode ser possível ir além
dos limites da cidade.
São experiências interativas, os cidadãos
obtêm informação e são ouvidos,
deliberam. Buscam modos ativos de envolvimento da comunidade
no processo democrático e talvez assim reforcem sua
crença que é alta na democracia como
ideal e aumentem sua satisfação que é
baixa com a democracia real.
Sérgio Abranches
é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)