Edição 1 659 - 26/7/2000

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O cansaço dos cidadãos

"A apatia e a insatisfação dos cidadãos com a
democracia representativa só têm um antídoto:
reaproximá-los das decisões"

 
Ilustração Ale Setti

Pesquisas do Ibope em São Paulo e no Rio de Janeiro indicam que 53% dos paulistanos e 52% dos cariocas não estão interessados na escolha de seus prefeitos. Esse descaso aparece também no crescimento dos votos nulos, brancos e da abstenção. Nos dois turnos de 1989 ficaram na média em 19,2%. Em 1994 saltaram para 36,7% e em 1998 chegaram a 40,2%. O Brasil não é diferente ou pior que outros países. Pesquisa nos Estados Unidos mostra que 45% dos eleitores americanos não têm interesse na escolha do presidente da República e 54% ainda nem pensaram sobre ela.

As razões desse desinteresse pelas eleições vão desde os imprecisos limites éticos da política no Brasil até fatores mais gerais que têm a ver com a evolução da democracia de massas no mundo. Não importa se ela é majoritária ou proporcional, parlamentarista ou presidencialista, a distância social e política entre representantes e representados ficou excessiva. O diálogo entre governo e sociedade, Parlamento e sociedade, quase desapareceu. O que passa por comunicação não se distingue de propaganda ou de exposição unilateral e não interativa das opiniões, idéias e ações dos representantes a cidadãos, espectadores entediados da política.

As fronteiras ideológicas embolaram, os valores das sociedades mudaram mais que os dogmas dos políticos – à esquerda e à direita – e as diferenças nas políticas econômicas de liberal-conservadores e social-democratas quase desapareceram. Tudo isso contribuiu para alimentar o desinteresse de muitos cidadãos pela vida partidária e eleitoral. Crises, o desequilíbrio fiscal do Estado e a globalização impuseram uma disciplina fiscal inédita. Há pesquisas mostrando que, embora o ajuste fiscal dos social-democratas preserve mais o interesse dos assalariados que os ajustes conservadores, os cidadãos não vêem mais que a semelhança.

Confortador é que o desgaste dos governos e da política não reduziu o orgulho nacional nem a adesão à democracia. Pesquisa feita em 65 países, com metodologia que permite comparações, o World Values Survey, cuja última rodada foi em 1996, mostra que o Brasil tem índice de adesão à comunidade nacional (orgulho nacional e compromisso com o país) de 64%, semelhante ao de Argentina e Chile. Maior que o da Espanha, 58%, Uruguai, 56%, Japão, 18%, ou Alemanha, 36%. Nos Estados Unidos, Suécia e Noruega, está acima de 75%.

A maioria no Brasil, 78%, acha a democracia o melhor regime político, o mesmo que no Chile e mais que no México, 71%. Mas na Argentina, Alemanha e Suécia essa maioria é superior a 90% e nos Estados Unidos, Austrália e Japão, maior que 80%.

Preferir a democracia não significa estar satisfeito com a democracia que se tem. Só 28% dos brasileiros estão. Mais que os espanhóis, 18%, e os americanos, 25%. Nem significa confiar no Parlamento. Só 34% dos brasileiros confiam, mais que os americanos, 30%, alemães, 29%, japoneses, 27%, e argentinos, 15%.

A apatia e a insatisfação dos cidadãos com a democracia representativa só têm um antídoto: reaproximá-los das decisões. Até agora, as tentativas bem-sucedidas ocorreram no âmbito de cidades. Nessa escala menor, dá para testar formas interativas e inclusivas de democracia, envolvendo diretamente o cidadão nas decisões. Na Grécia, a "Rede Péricles" quer recriar a ágora, o espaço público das antigas cidades gregas onde os cidadãos deliberavam. Por ela, é possível obter toda a informação governamental nos computadores individuais, mas para votar os cidadãos devem ir a quiosques, mantendo o voto como um ato coletivo e não solitário e individual. Em Bolonha, a prefeitura instalou fibra óptica na cidade, para permitir acesso de todas as casas à rede municipal. Com a internet, pode ser possível ir além dos limites da cidade.

São experiências interativas, os cidadãos obtêm informação e são ouvidos, deliberam. Buscam modos ativos de envolvimento da comunidade no processo democrático e talvez assim reforcem sua crença – que é alta – na democracia como ideal e aumentem sua satisfação – que é baixa – com a democracia real.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)