Polícia

Assalto de cinema

Luvas cirúrgicas, crachás falsos e
seqüestro, os requintes do roubo à
agência do BB no Rio

 


Ricardo Chaves
A agência do Banco do Brasil assaltada no domingo 16: três horas para arrombar a porta do cofre, de 40 centímetros


Assalto a banco é rotina no Brasil, mas nem sempre se vê uma ação espetacular como a que ocorreu no domingo 16 no Rio de Janeiro. Portando 70 quilos de equipamentos, entre maçaricos, alicates de pressão e furadeiras, uma quadrilha formada por quinze homens invadiu um prédio de 42 andares do Banco do Brasil, dominou dezesseis seguranças armados e, sem disparar um só tiro, saiu dali com uma Kombi lotada de jóias, dólares e outros valores. O tamanho do roubo ainda não foi estimado, mas fala-se em quantias superiores a 20 milhões de reais. Para não chamar a atenção na hora do ataque, os bandidos estavam disfarçados. Uns de vigilantes, outros de prestadores de serviço. Usavam até crachá. Para não deixar impressões digitais, luvas cirúrgicas. Durante a ação, falavam por códigos e se tratavam por apelidos. O chefe do bando era "Papai Noel".

Os bandidos impressionaram pela organização, mas o sucesso foi garantido graças a um expediente audacioso. Na manhã do assalto, dois homens seqüestraram o chefe da segurança do banco, Alexander Machado Campos, em um ponto de ônibus a caminho do trabalho. Ele foi levado pelos bandidos de volta a sua casa, onde estavam sua mulher e o filho, um bebê de 11 meses. Os dois foram mantidos como reféns, e Campos foi mandado para o banco com a instrução de facilitar a entrada dos bandidos. Ele foi avisado de que seu filho e a mulher seriam mortos caso tentasse fazer qualquer coisa para atrapalhar o plano.

Garantida pela ameaça a Campos, a quadrilha não encontrou dificuldade para render os vigias. Os dois seguranças da portaria tiveram as armas descarregadas e receberam ordem de ficar em seus postos para não chamar a atenção de uma cabine da Polícia Militar que fica em frente do banco. O sistema de alarme ligado a uma central de segurança disparou três vezes. A central telefonou para checar, mas Campos respondeu que tudo estava em ordem. Os ladrões queriam o conteúdo dos cofres de aluguel. Fizeram um buraco na porta do cofre, que tem 40 centímetros de espessura, e esvaziaram 108 gavetas com jóias e dinheiro. Durante as dez horas em que ficaram dentro do banco eles receberam várias instruções de uma pessoa do lado de fora por meio de telefones celulares. Ao fim do serviço, desapareceram sem deixar rastro.

Apesar dos cuidados tomados pelo bando, seu modo de agir já levou a polícia a identificar dois deles: Cléber de Barros Mendes e o ex-policial militar Nelisson do Nascimento, uma dupla perigosa, envolvida em outros episódios espetaculares. "Operações tão detalhadas como esta são um padrão desta quadrilha", diz o delegado Márcio Franco, encarregado de esclarecer o crime. A polícia calcula que os dois tenham praticado mais de dez roubos a banco, num total de 50 milhões de reais.

 

 




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