A quem interessa?
Ed Ferreira

ACM e Jader Barbalho: disputa de poder |
Uma reportagem especial de VEJA desta semana mostra que o senador
Jader Barbalho declarou ao Fisco um patrimônio de 2,6 milhões
de reais, quando, na realidade, seus bens são estimados
em quase 30 milhões de reais. A diferença não
é uma fraude. O senador usa em sua declaração
valores históricos que, uma vez atualizados, revelam a
verdadeira dimensão de seu patrimônio surpreendentemente
volumoso. Quando o dono de uma fortuna tão vistosa é
um dos homens mais poderosos do país, presidente de um
tradicional partido, o PMDB, e candidato a um dos postos mais
altos da hierarquia política, a presidência do Senado
Federal, ela passa a ser merecedora de atenção mais
detida. Em especial quando se sabe que, nos últimos 34
anos, Jader Barbalho tem sido um político, e não
um homem de negócios. Como um político reúne
30 milhões de reais?
É
dever da imprensa investigar e divulgar fatos dessa natureza.
Mas não tenha dúvida. No momento em que você
estiver lendo estas linhas, já estarão circulando
interpretações sobre a "real" motivação
de VEJA para publicar esta matéria. Isso porque o trabalho
foi concluído no momento em que Jader Barbalho trava com
o senador Antonio Carlos Magalhães uma das mais rasteiras
disputas de que se tem notícia na história das rivalidades
políticas no Brasil. Eles deixaram suas diferenças
chegar a um ponto em que, em pleno Senado da República,
ACM chamou o colega de "ladrão" e Jader tachou o rival
de "corrupto e mentiroso". Para dar aos insultos uma aparência
de trabalho investigativo, ambos vazaram para a imprensa dossiês
com acusações mútuas, que têm em comum
o fato de serem muito pesadas e não se sustentarem em provas
convincentes.
A reportagem de VEJA não se baseia nos dossiês divulgados
pelos dois políticos. Sua motivação é
jornalística, e a natureza dos fatos que divulga é,
infelizmente para o senador Barbalho, muito mais contundente.
A quem interessa esse trabalho de apuração? A resposta
é simples: ele serve aos interesses do país e àqueles
do leitor de VEJA, que, ao longo dos 32 anos de história
da revista, se acostumou com a tradição de jornalismo
sério e independente que praticamos sem medo, e
sem favoritismo.