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Edição 1 770 - 25 de setembro de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

A perenidade
do Brasil

"Nos momentos de incerteza,
os povos se agarram ao que
podem para
afirmar sua presença"


Um bichinho de nada, "uma antiga espécie de crustáceo próxima a caranguejos". De mais a mais, já transformado em pedregulho em sua condição de fóssil de 100 milhões de anos. Porém, estudos aprofundados mostraram que o bichinho tinha pênis. Assim, um paleontólogo da Universidade de Leicester, na Inglaterra, pôde declarar: "Esse é o pênis mais antigo que existe. Não se sabe de nenhum outro mais antigo". De quebra, esse bicho surpreendente viveu e virou pedra em Pindorama. Daí o título eloqüente sob o qual a descoberta foi anunciada na Folha de S.Paulo (15 de setembro): "Fóssil de pênis mais antigo é achado no Brasil".

Noticiado dessa forma, numa conjuntura nacional complicada, o fato deve ter influenciado positivamente alguns leitores do jornal. Nos momentos de incerteza, os povos se agarram ao que podem para afirmar sua presença. Às vezes, de maneira grotesca. Dois meses atrás, a Espanha e o Marrocos arreganharam os dentes para disputar uma ilhota marítima menor que um estádio de futebol. No caso da antiguidade peniana do crustáceo "brasileiro", o eventual orgulho nacional terá sido inocente. Mais interessante é a tendência de projetar o "Brasil" até o passado mais longínquo da Terra, como se o torrão nacional existisse desde sempre. Como se a presença tarimbada no passado fosse a garantia inarredável de nossa presença no futuro.

Tome-se, por exemplo, a continuidade mecânica que a historiografia e os manuais escolares estabelecem entre o Brasil de hoje e o território heterogêneo açambarcado pela América portuguesa. Ora, não passa pela cabeça de um americano confundir a história da América britânica com a dos Estados Unidos. Da mesma forma, os mexicanos, os peruanos ou os argentinos não transpõem diretamente a história nacional de seus países para o quadro dos respectivos vice-reinados espanhóis de que dependiam. No Brasil, essa identificação entre colônia e nação é imediata. Recentemente, num congresso histórico realizado numa grande universidade européia, um professor brasileiro, comentando a carta de Pero Vaz de Caminha, assinalou uma frase do documento e a definiu, sem pestanejar, como uma expressão "tipicamente brasileira".

A mesma obsessão por um passado contínuo e prestigioso comanda as pesquisas a respeito dos sobrenomes brasileiros. Multiplicam-se os livros e os sites que pretendem rastrear os nomes das famílias até os confins da história ocidental. Pouco se diz sobre a legislação portuguesa, e depois brasileira, que permitia trocas de sobrenome. Até o Código Civil de 1916, podiam-se batizar os filhos com o sobrenome da mãe ou dos avós maternos, os irmãos tinham às vezes sobrenomes diferentes e as mulheres não estavam obrigadas a adotar o nome do marido. Imigrantes sem sobrenome definido escolhiam o nome do lugar de onde vinham, ou o nome do porto em que embarcavam, para assinar seus primeiros documentos no Brasil. Sobre os índios e os negros brasileiros, a busca do nome é também problemática.

Mas é justamente o lado aleatório dessa identificação individual com o passado que deve fundamentar a identificação coletiva com o presente. Membro da comunidade afro-brasileira, vítima histórica de métodos extremos de desenraizamento geográfico e social, o grande escritor Lima Barreto (1881-1922) registrou em seu Diário Íntimo: "Os negros diferenciam o Brasil e mantêm sua independência, porquanto estão certos de que em outro lugar não têm pátria". Esse pensamento generoso, inspirado na idéia de que a perenidade do país se funda na reconstrução dos destinos e na coesão da comunidade nacional presente, deveria encontrar esteio na atualidade. Quatro candidatos de opiniões bastante distintas disputam as eleições presidenciais no quadro de uma campanha eleitoral em que todos os partidos políticos estão representados. Não tem sido corriqueiro em nosso país, não é banal no resto do mundo. Vale a pena botar fé na perenidade do Brasil.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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