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Luiz
Felipe de Alencastro
A perenidade
do Brasil
"Nos
momentos de incerteza,
os
povos se agarram ao que
podem para afirmar sua presença"
Um
bichinho de nada, "uma antiga espécie de crustáceo próxima
a caranguejos". De mais a mais, já transformado em pedregulho em
sua condição de fóssil de 100 milhões de anos.
Porém, estudos aprofundados mostraram que o bichinho tinha pênis.
Assim, um paleontólogo da Universidade de Leicester, na Inglaterra,
pôde declarar: "Esse é o pênis mais antigo que existe.
Não se sabe de nenhum outro mais antigo". De quebra, esse bicho
surpreendente viveu e virou pedra em Pindorama. Daí o título
eloqüente sob o qual a descoberta foi anunciada na Folha de S.Paulo
(15 de setembro): "Fóssil de pênis mais antigo é achado
no Brasil".
Noticiado
dessa forma, numa conjuntura nacional complicada, o fato deve ter influenciado
positivamente alguns leitores do jornal. Nos momentos de incerteza, os
povos se agarram ao que podem para afirmar sua presença. Às
vezes, de maneira grotesca. Dois meses atrás, a Espanha e o Marrocos
arreganharam os dentes para disputar uma ilhota marítima menor
que um estádio de futebol. No caso da antiguidade peniana do crustáceo
"brasileiro", o eventual orgulho nacional terá sido inocente. Mais
interessante é a tendência de projetar o "Brasil" até
o passado mais longínquo da Terra, como se o torrão nacional
existisse desde sempre. Como se a presença tarimbada no passado
fosse a garantia inarredável de nossa presença no futuro.
Tome-se,
por exemplo, a continuidade mecânica que a historiografia e os manuais
escolares estabelecem entre o Brasil de hoje e o território heterogêneo
açambarcado pela América portuguesa. Ora, não passa
pela cabeça de um americano confundir a história da América
britânica com a dos Estados Unidos. Da mesma forma, os mexicanos,
os peruanos ou os argentinos não transpõem diretamente a
história nacional de seus países para o quadro dos respectivos
vice-reinados espanhóis de que dependiam. No Brasil, essa identificação
entre colônia e nação é imediata. Recentemente,
num congresso histórico realizado numa grande universidade européia,
um professor brasileiro, comentando a carta de Pero Vaz de Caminha, assinalou
uma frase do documento e a definiu, sem pestanejar, como uma expressão
"tipicamente brasileira".
A mesma
obsessão por um passado contínuo e prestigioso comanda as
pesquisas a respeito dos sobrenomes brasileiros. Multiplicam-se os livros
e os sites que pretendem rastrear os nomes das famílias até
os confins da história ocidental. Pouco se diz sobre a legislação
portuguesa, e depois brasileira, que permitia trocas de sobrenome. Até
o Código Civil de 1916, podiam-se batizar os filhos com o sobrenome
da mãe ou dos avós maternos, os irmãos tinham às
vezes sobrenomes diferentes e as mulheres não estavam obrigadas
a adotar o nome do marido. Imigrantes sem sobrenome definido escolhiam
o nome do lugar de onde vinham, ou o nome do porto em que embarcavam,
para assinar seus primeiros documentos no Brasil. Sobre os índios
e os negros brasileiros, a busca do nome é também problemática.
Mas é
justamente o lado aleatório dessa identificação individual
com o passado que deve fundamentar a identificação coletiva
com o presente. Membro da comunidade afro-brasileira, vítima histórica
de métodos extremos de desenraizamento geográfico e social,
o grande escritor Lima Barreto (1881-1922) registrou em seu Diário
Íntimo: "Os negros diferenciam o Brasil e mantêm sua
independência, porquanto estão certos de que em outro lugar
não têm pátria". Esse pensamento generoso, inspirado
na idéia de que a perenidade do país se funda na reconstrução
dos destinos e na coesão da comunidade nacional presente, deveria
encontrar esteio na atualidade. Quatro candidatos de opiniões bastante
distintas disputam as eleições presidenciais no quadro de
uma campanha eleitoral em que todos os partidos políticos estão
representados. Não tem sido corriqueiro em nosso país, não
é banal no resto do mundo. Vale a pena botar fé na perenidade
do Brasil.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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