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Gustavo Franco

Milhões de empregos

"O próximo governante seguramente vai frustrar-se caso acredite verdadeiramente na fórmula clássica de geração de empregos
via programa de governo. E, ao fracassar,
já contará com um álibi"


Ilustração Ale Setti


Os candidatos andam falando em criação de empregos como quem participa de um leilão ou de um concurso de fórmulas mágicas. Há anos o ministro Malan ouve essas coisas e repete que para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, errada e que tem a ver com "vontade política".

O desafio da geração de empregos se divide em dois problemas com os quais se luta faz muitos anos, e sem muito sucesso: restaurar o crescimento e reduzir os encargos sobre os salários.

Nesse segundo tema, as manifestações dos candidatos têm sido vagas e hesitantes, exceção para o documento denominado Agenda Perdida, escrito, sob encomenda de José Alexandre Scheinkman, por economistas de diversos partidos e persuasões, a maior parte dos quais jovem, ainda desconhecida e que vem estudando temas sociais (emprego, educação, pobreza, criminalidade, por exemplo) sob novos ângulos e com grande competência.

Existem muitas idéias novas a explorar no terreno do emprego, todas passando pela redução dos encargos, ou seja, trata-se de repensar o FGTS, suas conexões com a Previdência, a CLT e a própria Justiça do Trabalho.

Candidato que não quiser discutir esses temas em profundidade, e com a disposição para quebrar alguns paradigmas, não pode falar a sério sobre criação de empregos.

Sobre o outro problema, o crescimento, há um importante detalhe sempre diminuído pelos candidatos: a contribuição do investimento público para a aceleração do crescimento vai ser pequena, especialmente se for mantida a responsabilidade fiscal como filosofia básica para as finanças públicas. Acabou a era dos Planos de Metas, e já faz tempo.

Portanto, diferentemente do que ocorreu na época de JK, ou dos recém-reabilitados governos militares, o crescimento da economia terá de ser puxado pelo investimento privado. Essa tese foi talvez a principal conclusão de mais uma reunião do Fórum Nacional, na semana passada, no BNDES, a partir de um trabalho do professor Jorge Chami Batista.

É importante que se tenha claro que o trato do investimento privado envolve uma tecnologia muito diferente daquela que requer o investimento público. Este resulta de decisão administrativa, ou política, e usa recursos de impostos, emissão de moeda ou dívida pública. Sempre precisa haver a famosa "vontade política" para onerar a sociedade em nome de alguma outra boa causa.

O investimento privado não funciona com nada disso, muito pelo contrário. A boa teoria econômica ensina que o empresário é caprichoso e apenas investe quando se sente muito seguro sobre o futuro, pois investir envolve levantar dinheiro, que nunca é barato, assumir compromissos e empreendimentos de tamanho e sucesso incertos e tomar riscos, muitos riscos. O retorno esperado desse esforço deve ser maior que o custo do capital, e aqui no Brasil, como sabemos, não apenas o futuro, mas também o passado, é incerto, e o custo de capital é altíssimo.

Para que o investimento privado decole, os empresários precisam de menos impostos e encargos, baixas taxas de juros (ou seja, finanças públicas em ordem e dívida pública em queda) para prazos longos (e não apenas no BNDES, mas no mercado de capitais em geral), horizontes previsíveis, políticas consolidadas e previsíveis e pouco sensíveis à oscilante "vontade política" dos governos.

O próximo governante seguramente vai frustrar-se caso acredite verdadeiramente na fórmula clássica de geração de empregos via programa de governo. E, ao fracassar, já contará com um álibi: o "mercado" não terá entendido suas boas intenções. Os "especuladores internacionais" serão acusados, como no passado se atribuía a inflação aos "oligopólios" e aos "tubarões".

Assusta, portanto, não apenas o fato de os candidatos estarem usando a embocadura incorreta no tema do crescimento e do investimento privado, mas também a constatação de que já conseguiram um "bode expiatório" para suas desventuras.


Gustavo Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)

 
 
   
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