Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
Geral Especial
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
  Os ingleses e seus jardins
Medo da Aids cai e a infecção entre gays jovens sobe
Publicação aceita os desvios da linguagem oral
Nova Harley-Davidson para quem gosta de velocidade
Drogas: Reacende o debate sobre a liberação
China remove prédios por causa de hidrelétrica
O resgate do submarino russo Kursk
A volta do Concorde
Apnéia aumenta probabilidade de acidentes
Pesquisa associa morte de fumantes a contas públicas
Segredos do confessionário em xeque
Cada vez mais pessoas sofrem o peso de viver só
Gays no tribunal
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Montagem sobre foto de Pedro Rubens

No Brasil, 9% dos lares já são
compostos de pessoas que moram
sozinhas. Elas formam um mercado
respeitável e se dizem felizes. Mas
ninguém gosta de se imaginar
solitário para sempre

Aida Veiga


BLOCO DO EU SOZINHO

A tendência a viver

Aida Veiga


BLOCO DO EU SOZINHO

A tendência a viver sozinho é mundial. Alguns dos países campeões de domicílios ocupados por uma só pessoa são:

SUÉCIA 40%
DINAMARCA 36%
INGLATERRA 35%
ALEMANHA 30%
FRANÇA 30%
ESTADOS UNIDOS 26%
BRASIL 9%

Muito se tem falado nos últimos tempos sobre a desagregação da família tradicional, composta de pai, mãe e filhos morando na mesma casa. Com o alto número de separações e recasamentos, cada vez menos lares são formados exatamente por esses personagens. Além disso, já virou motivo de conversa que, como o casamento deixou de ser uma prioridade, as uniões agora ocorrem mais tarde. Pouco se comenta, no entanto, a respeito de um subproduto dessa nova realidade: o número de domicílios habitados por apenas um homem ou uma mulher. Hoje em dia, para um contingente cada vez maior de pessoas, morar só é um estilo de vida – não importa se bom ou mau, feliz ou infeliz. Segundo o levantamento mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 4 milhões de brasileiros moram sozinhos. Essa fatia ocupa 9% dos domicílios do país. Em algumas capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, uma em cada oito casas tem apenas um morador e metade dos apartamentos em flats é ocupada por uma única pessoa. A quantidade dos que vivem sozinhos no Brasil é pequena se comparada à da Inglaterra, onde um terço das casas tem apenas um morador, ou à da cidade de Paris, em que 50% dos domicílios são habitados por uma pessoa somente. Mas viver só é uma tendência mundial na qual o Brasil se enquadra plenamente. "Nos últimos dezoito anos, houve um crescimento de 41% no número de pessoas que moram sozinhas no país", contabiliza o sociólogo Rafael Osório, consultor do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e autor de estudo sobre o tema.

Na maioria das vezes, são pessoas independentes e instaladas em lares confortáveis. Elas gostam de proclamar que é ótimo não ter de dar satisfação de nada a ninguém e costumam fazer uma lista das vantagens de ser sozinho – assistem ao que desejam na televisão, decoram (ou bagunçam) a casa de um jeito todo pessoal, entram e saem sem dar explicações, lêem até altas horas na cama etc. Mas, à medida que o diálogo avança, não é difícil extrair dos solitários a confissão de que a perspectiva de viver só para sempre é preocupante. Para alguns, chega a ser apavorante. No balanço geral, querem mesmo é ver mais uma escova instalada no copo em cima da pia do banheiro, ainda que não imediatamente. VEJA acompanhou dois grupos de discussão sobre o assunto organizados pela agência de estudos do comportamento Comsenso. Um era composto de homens e outro de mulheres (não identificados, por prévio acordo). Todos entre 30 e 40 anos, solteiros, viúvos ou separados, que moram sozinhos em São Paulo. Durante duas horas, eles apontaram as vantagens e desvantagens de viver sós e debateram os motivos que os levaram a seguir esse caminho. Demonstraram, em sua maioria, conviver sem grandes problemas com a falta de companhia, mas manifestaram o medo de permanecer solitários para o resto de seus dias.


Regis Filho

ANA LÚCIA MIRANDA,
46 anos, socióloga paulistana
Dois casamentos desfeitos, mora sozinha há dois anos
Vantagem
"Sou dona do meu tempo: saio para comer de madrugada, passo o domingo na cama."
Desvantagem
"É triste chegar da rua querendo contar algo que aconteceu e não ter para quem."


"E se eu cair?"
– É claro que é possível viver bem sozinho – em especial, quando dá para jogar para um futuro incerto a hora de dizer "sim" a alguém que deseje dividir o mesmo teto. Em certos momentos, contudo, é difícil driblar a tristeza de não ter ninguém ao lado. Para não falar dos pensamentos terríveis que atormentam as pessoas sós de qualquer idade – do tipo "E se eu cair, bater a cabeça e desmaiar, quem vai me socorrer?". Tudo fica mais complicado, porém, para os que deixam de ver no horizonte a possibilidade de ter um companheiro. Nessa hora, bate a culpa e a auto-estima baixa a níveis abissais. "A solidão pode levar a que a pessoa forme uma imagem negativa de si própria e julgue que ninguém a aprecia", afirma o psiquiatra Nairo de Souza Vargas, do departamento de psiquiatria da Universidade de São Paulo. A dor de estar só, acreditam alguns, é um dos preços a pagar pelo individualismo – que, na esteira do progresso material, hoje marca as relações humanas em diferentes âmbitos. Os mais pessimistas, como o filósofo francês Gilles Lipovetsky, que cunhou a expressão "neo-individualismo" no livro O Crepúsculo do Dever, chegam a dizer que, mais do que nunca, as pessoas estão propensas a enxergar na família apenas um instrumento de realização pessoal. Mas talvez esse seja um julgamento duro demais, dado que o sofrimento existe até entre os solitários mais convictos e focados no sucesso social e profissional.


SelmyYassuda

CLAUDIO VERSIANI,
35 anos, subprefeito do Rio de Janeiro
Solteiro, mora sozinho há dois anos
Vantagem
"Posso ficar no escritório até tarde, levar trabalho para casa, que ninguém reclama."
Desvantagem
"A vida é tranqüila demais."


"A solidão é um dos sentimentos mais temidos pelo ser humano. Todo mundo sabe que muita gente que se casa aos 50, 60 anos não o faz porque está apaixonada, mas para garantir uma companhia no futuro", diz a antropóloga carioca Maria Cristina Duarte. Resta o consolo de que a cobrança social diminuiu consideravelmente. À medida que mais e mais pessoas entram na idade madura sozinhas, seja por não terem se casado, seja por terem se casado e separado, mais assimilável vai se tornando o, por assim dizer, conceito. Ser solteiro aos 35 anos não é mais sinônimo de homem volúvel demais ou homossexual. Ser solteira aos 40 não mais representa, obrigatoriamente, mulher encalhada, a coitadinha que ficou para titia. "Tinha 27 anos quando me separei e, apesar de ter tido três filhos, sentia mais pressão para casar novamente do que hoje, aos 44", conta o empresário Atílio Manzoli Jr., de Porto Alegre.

"Viver sozinha foi a decisão mais acertada que já tomei", afirma a publicitária Claudia Dias, 34 anos, do Rio de Janeiro. Depois de um casamento de seis anos, ela preferiu alugar um quarto-e-sala a voltar a morar com a mãe em um apartamento de frente para o mar na Avenida Atlântica, em Copacabana. Apesar de estar gostando da experiência, ela sonha em casar novamente. "Adoro ser independente, mas sinto falta de um companheiro, tanto para trocar lâmpadas como para conversar. É penoso não ter ninguém ao lado quando o telefone toca de madrugada. Receber uma notícia ruim sozinha é desesperador." Essa vontade de Claudia de voltar a dividir os lençóis, frise-se, nada tem a ver com pressão social. É puramente subjetiva.




   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS