Revista VEJA
Vida Digital
Vovô está on-line
A internet costuma ser vista como diversão da garotada. Não é mais assim. As pesquisas mostram que no mundo todo os adultos já passam mais tempo na rede que os jovens
Carolina Melo
Na ponta da linha
Thaís (à esq.), com sua filha Juliana: as ligações para Londres se tornaram quase de graça depois que ela descobriu o Skype (Claudio Gatti)
Os pais costumam comentar que seus filhos adolescentes parecem movidos a internet. São horas e horas dedicadas aos programas de mensagens, às redes sociais, aos games e a tudo o mais que passa pela rede e desperta o interesse da garotada. No ambiente doméstico, a rede mundial parece ser território dos jovens. A novidade é que essa impressão é falsa. Estatísticas indicam que o perfil demográfico da internet se modificou. Os adultos, inclusive aqueles com idade próxima à aposentadoria, já rivalizam com os jovens na quantidade de horas passadas diante da internet. Uma pesquisa recente do instituto americano comScore, feita em 170 países, que abrigam 1,35 bilhão de pessoas conectadas à rede, expôs as cifras que provam o fenômeno. Em números globais, os jovens de 15 a 24 anos passam, em média, 24 horas por mês ligados à rede. Os adultos de 45 a 54 anos permanecem mais tempo: 26 horas. As pessoas com mais de 55 anos passam tanto tempo quanto os jovens: 24 horas mensais. Do ponto de vista estatístico, pode-se dizer que hoje, no mundo, as pessoas de todas as idades estão igualmente conectadas à rede.
O levantamento da comScore aponta as peculiaridades de cada país no que diz respeito ao tempo gasto na internet. A grande surpresa são os Estados Unidos, onde o número de adultos ligados à rede disparou em relação ao dos jovens. Estes, na faixa de 15 a 24 anos, passam 33 horas por mês conectados, contra 41 horas entre as pessoas na faixa de 45 a 54 anos. No Brasil, os jovens ainda dedicam mais tempo à rede: 30 horas mensais, na faixa entre 15 e 24 anos, contra 23 horas dos adultos na faixa entre 45 e 54 anos. Os especialistas em internet avaliam que é questão de tempo (pouco) para que os brasileiros mais velhos igualem ou superem os jovens na quantidade de horas de navegação. Diz o diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas, Ronaldo Lemos: “Os serviços oferecidos pela internet se ampliam num ritmo espetacular. Hoje, há exibição de filmes, programas de TV, execução de músicas de todos os gêneros. Os mais velhos já descobriram a possibilidade de encontrar os amigos virtualmente, por meio dos sites de relacionamento, e de se informar sobre questões de saúde. Toda essa oferta é irresistível”.
George Andrew Carle, especialista em tecnologia da Universidade George Mason, na Virgínia, disse a VEJA que, nos Estados Unidos, a procura pela internet por parte da população com mais de 50 anos se deve também a uma característica daquele país. Quando os jovens adultos iniciam a universidade ou a vida profissional, é comum que se mudem para outras cidades, às vezes longe de onde moravam. “Os programas de mensagens e as redes sociais se tornaram recursos indispensáveis para se comunicar com os filhos, ver suas fotos, acompanhar sua vida. Ninguém mais quer fazer isso pelo correio”, diz Carle.
A gerente administrativa Thaís Silveira, de 53 anos, de São Paulo, tem uma filha que mora em Londres, Renata, com quem se comunica frequentemente. Desde que descobriu o Skype, a ferramenta gratuita de comunicação por voz da internet, viu que poderia economizar nas contas de telefone para falar com Renata. Aos poucos, Thaís descobriu outros atrativos da rede, como os sites que vendem ingressos de cinema e de teatro. “Hoje, fico on-line mais tempo do que a Juliana, a filha que mora comigo”, ela afirma. O funcionário público aposentado Amaro Rildson Cavalcanti, de 65 anos, do Recife, entrou no Facebook há seis meses para se comunicar com a filha, Lívia, que fazia um curso de línguas no exterior. Gostou tanto do site de relacionamento que mantém a conta ativa até hoje, após o retorno da filha. “Descobri que posso me comunicar com amigos da época da faculdade e já encontrei vários deles”, diz Cavalcanti. Para Lívia, é comum ver os pais on-line: “Às vezes, vou comentar no Facebook sobre a foto de uma amiga minha e percebo que minha mãe fez um comentário antes de mim. É engraçado”, ela brinca.
A pesquisa americana mostra que a Argentina tem um perfil demográfico da internet semelhante ao do Brasil, com os jovens ainda na liderança do número de horas de conexão, mas com os adultos chegando perto de sua marca. Na Índia, embora o país tenha se tornado um importante centro mundial de tecnologia, as pessoas permanecem menos tempo conectadas do que no Brasil. Os jovens passam apenas treze horas por mês — contra trinta no Brasil — e os adultos com mais de 45, apenas onze (23 horas no Brasil). A adesão dos mais velhos à internet parece irreversível na maioria dos países. A artista plástica paulista Maria Izabel Fernandes, de 75 anos, divide o notebook com seu marido, o engenheiro aposentado Ruy Palhares, de 77. Ambos têm uma conta no Orkut, e frequentemente um dos netos do casal recebe e-mails dos avós em plena madrugada. “Viro a noite vendo sites de galerias de arte”, afirma Maria Izabel. “Não vivo mais sem meu computador.”
Gerações conectadas
Ruy e Maria Izabel: a maneira mais fácil de encontrar os netos é por meio das redes sociais (Claudio Gatti)
(Media Metrix)
Notícias de longe
Amaro e a mulher, Margareth: conta no Facebook para se comunicar com a filha Lívia (ao fundo) quando ela estava no exterior (Leo Caldas)
(Media Metrix)

