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Edição 1 697 - 25 de abril de 2001
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Festival nacional de algemas

Depois de grampear os fraudadores,
a PF caça 27 pessoas. A maioria é solta,
mas as prisões devem continuar

Nessa história, tudo tem sido superlativo. A fraude está na casa dos 2 bilhões de reais. A investigação, que começou há dois anos, resultou na maior operação de escuta telefônica simultânea de que se tem notícia. Por sete meses, foram monitoradas dezoito linhas telefônicas e captados 369 diálogos. No início da semana passada, deu-se a outra ponta superlativa: foi deflagrada a maior operação policial da história recente do país. Na segunda-feira, noventa agentes da Polícia Federal espalharam-se por seis Estados à caça de 27 suspeitos de assaltar os cofres da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Até o fim da semana, os procuradores do Ministério Público Federal haviam pedido à Justiça a prisão de nada menos que 97 suspeitos. Destes, 27 pedidos foram aceitos e outros quarenta ainda estavam sob análise. Dos 22 suspeitos que chegaram a ser capturados, porém, a grande maioria conseguiu ser libertada no decorrer da semana por força de habeas-corpus. Passaram pela prisão empresários, funcionários da Sudam e donos de escritórios especializados em apresentar projetos para saquear os cofres públicos.

Os juízes que libertaram os suspeitos entenderam que, por terem endereço fixo e emprego conhecido, eles podiam responder às acusações em liberdade. Com as prisões, os agentes da PF e os procuradores do Ministério Público quiseram aprofundar ainda mais as investigações. Nos escritórios montados para apresentar projetos, os policiais chegaram a sair com Kombis lotadas de documentos, cópias de cheques e arquivos de computadores. Houve operações de busca e apreensão em 26 escritórios nos Estados de Goiás, Amapá, Mato Grosso, Pará, Tocantins e no Distrito Federal. No meio dessa papelada, os procuradores pretendem encontrar conexões capazes de esclarecer ainda mais o funcionamento da quadrilha da Sudam. Um primeiro sinal já apareceu. Em Cuiabá, os policiais apreenderam computadores do empresário José Osmar Borges, o ex-sócio do senador Jader Barbalho que está sendo acusado de desviar 133 milhões de reais da Sudam. Em Belém, no escritório de Maria Auxiliadora Barra Martins, uma das especialistas em montar projetos fraudados, a PF encontrou um contrato de venda de ações de Borges para ela. Trata-se de um indício de que Borges e Auxiliadora podem ser salteadores da mesma quadrilha.

Dos que estiveram presos, vinte são considerados bagrinhos: comerciantes que emitiram notas frias, fiscais que receberam propina e laranjas que ofereceram o nome para constar como sócios em empresas financiadas pela Sudam. Mas, entre a massa de presos, havia dois peixes mais graúdos. São justamente José Osmar Borges e Maria Auxiliadora Barra Martins – que, juntos, são acusados de desviar quase 400 milhões de reais da instituição. José Osmar Borges passou menos de 24 horas na cadeia na semana passada. "Como ele foi solto, aconselho a todos os cidadãos honestos que tomem dinheiro emprestado na Sudam", ironizou o procurador da República Pedro Taques, de Mato Grosso, que segue o rastro de Osmar Borges desde 1997 e foi o primeiro a destampar o caldeirão de suas falcatruas. Dono de extraordinário saldo bancário, Borges movimentou 209 milhões de reais por meio de uma de suas empresas, a Saint Germany, em 1996 – ano em que Jader Barbalho se tornou sócio da firma em terras no Pará.

A contabilidade de Borges vai muito além dos limites de Belém e Cuiabá. As polpudas remessas feitas por sua empresa para o exterior passaram por uma conta no BCN em Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, em nome de Pedro Paulo Velasquez Romero. Dali, o dinheiro foi enviado para fora do país, mas ainda não se sabe para quem nem para onde. O Banco Central, no entanto, já sabe que Velasquez Romero é um fantasma cuja conta no BCN foi usada para lavar 548 milhões de reais entre 1995 e 1997. Ele nunca foi encontrado pela polícia e, até agora, o único rastro que deixou foi uma caixa postal. No endereço que declarou ao abrir a conta no BCN, os técnicos do BC encontraram uma mulher, "moradora há quarenta anos", que afirmou desconhecer o correntista. O outro peixe graúdo capturado, Maria Auxiliadora, esteve presa em Palmas, capital do Tocantins. Maria Auxiliadora, cujo escritório fica num prédio que pertencia a Jader Barbalho até três anos atrás, parece uma mulher simples, mas é dona de dois aviões bimotores, que costuma usar para viagens mais longas, embora nenhum deles esteja em seu nome: o Cessna 310, prefixo PT-IHP, e o Baron, prefixo PT-JEP. Na quinta-feira, seu Baron decolou de Belém para Brasília. A bordo, transportava os advogados de Maria Auxiliadora, que obtiveram o habeas-corpus no Tribunal Regional Federal (TRF) que a libertou. Para voltar a Belém, a ex-detida viajou a bordo de um dos aviões, pilotado por seu marido.

Na semana passada, em meio aos quarenta pedidos de prisão que ainda dependiam de decisão da Justiça estavam os nomes dos dois últimos secretários do ministro Fernando Bezerra, da Integração Nacional. Um deles é Maurício Vasconcelos, que chegou ao ministério por indicação de Jader Barbalho. O outro é Benivaldo Alves de Azevedo, amigo do ministro Fernando Bezerra há quarenta anos. Ele foi demitido duas semanas atrás, após dar uma entrevista a VEJA na qual admitiu que teve um encontro em Brasília com um dos grandes fraudadores da Sudam, Geraldo Pinto da Silva – que, mesmo depois de ficar dias foragido, conseguiu um habeas-corpus para evitar sua prisão. Nos diálogos grampeados pela PF, o nome de Benivaldo é citado por fraudadores da Sudam. Numa das conversas, o fraudador Pinto da Silva conta a um interlocutor que Benivaldo lhe deu detalhes de como o presidente Fernando Henrique pretendia investigar as fraudes na autarquia. Ainda na lista dos nomes mais ilustres está José Artur Guedes Tourinho, ex-chefe nacional da Sudam. Por indicação de Jader, de quem é amigo desde os tempos de adolescência, Tourinho comandou a Sudam entre 1996 e 1999. Agora está com os bens indisponíveis, por decisão judicial, mas sua prisão ainda não foi apreciada.

A queda do clã – Em outra linha de investigação, a polícia acredita que, apertando o cerco sobre os bagrinhos, poderá chegar aos tubarões do esquema. Entre os vinte presos considerados peixes pequenos – mas valiosos como fontes de informação – estava Romildo Soares, um dos integrantes do clã Soares, aliados políticos de Jader na região de Altamira, no Pará. Na quinta-feira passada, Romildo entregou-se à polícia em Palmas, capital do Tocantins. Até sexta-feira, seu depoimento ainda não havia sido tomado, mas os procuradores que investigam o caso acreditam que Romildo, fustigado pela polícia, pode vir a dar detalhes importantes de como o dinheiro desviado da Sudam azeitava o caixa de campanhas políticas. Numa fita gravada pela PF, na qual Romildo conversa com um de seus funcionários, apareceram as primeiras pistas. "Esse dinheiro tem que sair antes da campanha porque uma parte dele eu arrumei para a campanha, entendeu?", diz Romildo, em referência a uma liberação de recursos da Sudam para um de seus "projetos".

A saraivada de prisões da semana passada atingiu em cheio o clã Soares. Além de Romildo, um irmão seu, José Soares Sobrinho, também caiu nas mãos da Polícia Federal. Sua prisão ocorreu em Macapá, no Amapá, mas ele foi transferido para uma cadeia no Tocantins, onde se concentra o grosso das apurações. No ano passado, durante a campanha de Domingos Juvenil, do PMDB, para a prefeitura de Altamira, José Soares recebeu Jader Barbalho em sua casa para um almoço. Tanto José como Romildo participaram ativamente da campanha do candidato Domingos Juvenil, indicado por Jader. Chegaram a comprar cestas básicas e a pagar cachê de cabos eleitorais. Com a escuta telefônica feita pela Polícia Federal, descobriu-se uma tremenda coincidência: o dinheiro desviado da Sudam, feudo político de Jader, era usado para azeitar a campanha dos aliados do senador. Juntos, os irmãos Soares criaram doze empresas financiadas pela Sudam no Amapá, Tocantins e Pará. Considerando-se os projetos de apenas três delas, a idéia era arrancar 14,2 milhões de reais dos cofres públicos. Os procuradores acham que é dinheiro demais para uma família cuja principal fonte de renda é uma humilde distribuidora de bebidas. E acreditam que, sob o constrangimento da prisão, ainda que passageira, os irmãos Soares possam vir a optar por não caminhar solitariamente até o cadafalso.

 

A FORÇA DA DENÚNCIA

Uma semana depois de VEJA publicar uma reportagem de capa noticiando que uma escuta telefônica captara 369 diálogos de suspeitos de integrar a máfia da Sudam, a Justiça começou a autorizar prisões em todo o país. O esquema, flagrado pela escuta da Polícia Federal, tinha a intenção de saquear até 1,5 bilhão de reais dos cofres da autarquia.

 

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Dos arquivos de VEJA
Reportagem de VEJA, de 11/04/2001, revela, com exclusividade, a operação de escuta da PF, que gravou fraudadores da Sudam



 
 
   
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