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Festival nacional
de algemas
Depois
de grampear os fraudadores,
a PF caça 27 pessoas. A maioria é solta,
mas as prisões devem continuar
Nessa
história, tudo tem sido superlativo. A fraude está na casa
dos 2 bilhões de reais. A investigação, que começou
há dois anos, resultou na maior operação de escuta
telefônica simultânea de que se tem notícia. Por sete
meses, foram monitoradas dezoito linhas telefônicas e captados 369
diálogos. No início da semana passada, deu-se a outra ponta
superlativa: foi deflagrada a maior operação policial da
história recente do país. Na segunda-feira, noventa agentes
da Polícia Federal espalharam-se por seis Estados à caça
de 27 suspeitos de assaltar os cofres da Superintendência do Desenvolvimento
da Amazônia (Sudam). Até o fim da semana, os procuradores
do Ministério Público Federal haviam pedido à Justiça
a prisão de nada menos que 97 suspeitos. Destes, 27 pedidos foram
aceitos e outros quarenta ainda estavam sob análise. Dos 22 suspeitos
que chegaram a ser capturados, porém, a grande maioria conseguiu
ser libertada no decorrer da semana por força de habeas-corpus.
Passaram pela prisão empresários, funcionários da
Sudam e donos de escritórios especializados em apresentar projetos
para saquear os cofres públicos.
Os juízes
que libertaram os suspeitos entenderam que, por terem endereço
fixo e emprego conhecido, eles podiam responder às acusações
em liberdade. Com as prisões, os agentes da PF e os procuradores
do Ministério Público quiseram aprofundar ainda mais as
investigações. Nos escritórios montados para apresentar
projetos, os policiais chegaram a sair com Kombis lotadas de documentos,
cópias de cheques e arquivos de computadores. Houve operações
de busca e apreensão em 26 escritórios nos Estados de Goiás,
Amapá, Mato Grosso, Pará, Tocantins e no Distrito Federal.
No meio dessa papelada, os procuradores pretendem encontrar conexões
capazes de esclarecer ainda mais o funcionamento da quadrilha da Sudam.
Um primeiro sinal já apareceu. Em Cuiabá, os policiais apreenderam
computadores do empresário José Osmar Borges, o ex-sócio
do senador Jader Barbalho que está sendo acusado de desviar 133
milhões de reais da Sudam. Em Belém, no escritório
de Maria Auxiliadora Barra Martins, uma das especialistas em montar projetos
fraudados, a PF encontrou um contrato de venda de ações
de Borges para ela. Trata-se de um indício de que Borges e Auxiliadora
podem ser salteadores da mesma quadrilha.
Dos que
estiveram presos, vinte são considerados bagrinhos: comerciantes
que emitiram notas frias, fiscais que receberam propina e laranjas que
ofereceram o nome para constar como sócios em empresas financiadas
pela Sudam. Mas, entre a massa de presos, havia dois peixes mais graúdos.
São justamente José Osmar Borges e Maria Auxiliadora Barra
Martins que, juntos, são acusados de desviar quase 400 milhões
de reais da instituição. José Osmar Borges passou
menos de 24 horas na cadeia na semana passada. "Como ele foi solto, aconselho
a todos os cidadãos honestos que tomem dinheiro emprestado na Sudam",
ironizou o procurador da República Pedro Taques, de Mato Grosso,
que segue o rastro de Osmar Borges desde 1997 e foi o primeiro a destampar
o caldeirão de suas falcatruas. Dono de extraordinário saldo
bancário, Borges movimentou 209 milhões de reais por meio
de uma de suas empresas, a Saint Germany, em 1996 ano em que Jader
Barbalho se tornou sócio da firma em terras no Pará.
A contabilidade
de Borges vai muito além dos limites de Belém e Cuiabá.
As polpudas remessas feitas por sua empresa para o exterior passaram por
uma conta no BCN em Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, em nome
de Pedro Paulo Velasquez Romero. Dali, o dinheiro foi enviado para fora
do país, mas ainda não se sabe para quem nem para onde.
O Banco Central, no entanto, já sabe que Velasquez Romero é
um fantasma cuja conta no BCN foi usada para lavar 548 milhões
de reais entre 1995 e 1997. Ele nunca foi encontrado pela polícia
e, até agora, o único rastro que deixou foi uma caixa postal.
No endereço que declarou ao abrir a conta no BCN, os técnicos
do BC encontraram uma mulher, "moradora há quarenta anos", que
afirmou desconhecer o correntista. O outro peixe graúdo capturado,
Maria Auxiliadora, esteve presa em Palmas, capital do Tocantins. Maria
Auxiliadora, cujo escritório fica num prédio que pertencia
a Jader Barbalho até três anos atrás, parece uma mulher
simples, mas é dona de dois aviões bimotores, que costuma
usar para viagens mais longas, embora nenhum deles esteja em seu nome:
o Cessna 310, prefixo PT-IHP, e o Baron, prefixo PT-JEP. Na quinta-feira,
seu Baron decolou de Belém para Brasília. A bordo, transportava
os advogados de Maria Auxiliadora, que obtiveram o habeas-corpus no Tribunal
Regional Federal (TRF) que a libertou. Para voltar a Belém, a ex-detida
viajou a bordo de um dos aviões, pilotado por seu marido.
Na semana
passada, em meio aos quarenta pedidos de prisão que ainda dependiam
de decisão da Justiça estavam os nomes dos dois últimos
secretários do ministro Fernando Bezerra, da Integração
Nacional. Um deles é Maurício Vasconcelos, que chegou ao
ministério por indicação de Jader Barbalho. O outro
é Benivaldo Alves de Azevedo, amigo do ministro Fernando Bezerra
há quarenta anos. Ele foi demitido duas semanas atrás, após
dar uma entrevista a VEJA na qual admitiu que teve um encontro em Brasília
com um dos grandes fraudadores da Sudam, Geraldo Pinto da Silva
que, mesmo depois de ficar dias foragido, conseguiu um habeas-corpus para
evitar sua prisão. Nos diálogos grampeados pela PF, o nome
de Benivaldo é citado por fraudadores da Sudam. Numa das conversas,
o fraudador Pinto da Silva conta a um interlocutor que Benivaldo lhe deu
detalhes de como o presidente Fernando Henrique pretendia investigar as
fraudes na autarquia. Ainda na lista dos nomes mais ilustres está
José Artur Guedes Tourinho, ex-chefe nacional da Sudam. Por indicação
de Jader, de quem é amigo desde os tempos de adolescência,
Tourinho comandou a Sudam entre 1996 e 1999. Agora está com os
bens indisponíveis, por decisão judicial, mas sua prisão
ainda não foi apreciada.
A queda
do clã Em outra linha de investigação,
a polícia acredita que, apertando o cerco sobre os bagrinhos, poderá
chegar aos tubarões do esquema. Entre os vinte presos considerados
peixes pequenos mas valiosos como fontes de informação
estava Romildo Soares, um dos integrantes do clã Soares,
aliados políticos de Jader na região de Altamira, no Pará.
Na quinta-feira passada, Romildo entregou-se à polícia em
Palmas, capital do Tocantins. Até sexta-feira, seu depoimento ainda
não havia sido tomado, mas os procuradores que investigam o caso
acreditam que Romildo, fustigado pela polícia, pode vir a dar detalhes
importantes de como o dinheiro desviado da Sudam azeitava o caixa de campanhas
políticas. Numa fita gravada pela PF, na qual Romildo conversa
com um de seus funcionários, apareceram as primeiras pistas. "Esse
dinheiro tem que sair antes da campanha porque uma parte dele eu arrumei
para a campanha, entendeu?", diz Romildo, em referência a uma liberação
de recursos da Sudam para um de seus "projetos".
A saraivada
de prisões da semana passada atingiu em cheio o clã Soares.
Além de Romildo, um irmão seu, José Soares Sobrinho,
também caiu nas mãos da Polícia Federal. Sua prisão
ocorreu em Macapá, no Amapá, mas ele foi transferido para
uma cadeia no Tocantins, onde se concentra o grosso das apurações.
No ano passado, durante a campanha de Domingos Juvenil, do PMDB, para
a prefeitura de Altamira, José Soares recebeu Jader Barbalho em
sua casa para um almoço. Tanto José como Romildo participaram
ativamente da campanha do candidato Domingos Juvenil, indicado por Jader.
Chegaram a comprar cestas básicas e a pagar cachê de cabos
eleitorais. Com a escuta telefônica feita pela Polícia Federal,
descobriu-se uma tremenda coincidência: o dinheiro desviado da Sudam,
feudo político de Jader, era usado para azeitar a campanha dos
aliados do senador. Juntos, os irmãos Soares criaram doze empresas
financiadas pela Sudam no Amapá, Tocantins e Pará. Considerando-se
os projetos de apenas três delas, a idéia era arrancar 14,2
milhões de reais dos cofres públicos. Os procuradores acham
que é dinheiro demais para uma família cuja principal fonte
de renda é uma humilde distribuidora de bebidas. E acreditam que,
sob o constrangimento da prisão, ainda que passageira, os irmãos
Soares possam vir a optar por não caminhar solitariamente até
o cadafalso.
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A
FORÇA DA DENÚNCIA
Uma
semana depois de VEJA publicar uma reportagem de capa noticiando
que uma escuta telefônica captara 369 diálogos de suspeitos
de integrar a máfia da Sudam, a Justiça começou
a autorizar prisões em todo o país. O esquema, flagrado
pela escuta da Polícia Federal, tinha a intenção
de saquear até 1,5 bilhão de reais dos cofres da autarquia.
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