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Jader
cai no caldeirão
da Sudam
A mulher do senador é dona de empresa suspeita
de desviar
9 milhões. Sua
contadora fraudou a Sudam
Lourenço
Flores, de Cuiabá
Dida Sampaio/AE
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| Márcia
Cristina, mulher de Jader: vinte dias para se explicar |
No início, o nome do senador Jader Barbalho surgiu como padrinho
de dirigentes da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia
envolvidos em suspeita de corrupção. Depois, seu nome apareceu
na boca de fraudadores da Sudam grampeados pela Polícia Federal
em diálogos nos quais eles festejavam a eleição de
Jader à presidência do Senado. Mais tarde, descobriu-se que
o senador tivera uma sociedade com um dos mais notórios fraudadores
da Sudam assunto sobre o qual ele fazia silêncio de sepulcro.
Agora, Jader Barbalho acaba de mergulhar dentro do caldeirão de
fraudes da Sudam. Na quarta-feira passada, os interventores da autarquia
despacharam doze notificações para um grupo de empresas
suspeitas de desviar recursos dos projetos. Entre as companhias notificadas
está a Centeno & Moreira, cuja sede fica em Belém do
Pará. A firma terá de prestar explicações
sobre a suspeita de ter feito um desvio de 9 milhões de reais de
recursos da Sudam. E de quem é a Centeno & Moreira? É
de Márcia Cristina Zaluth Centeno, a atual mulher de Jader Barbalho.
Ana Araujo
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| Jader
Barbalho, na tribuna do Senado, fala de sua sociedade com fraudador:
partilha de bens? Que partilha? |
A revelação de que o senador é casado com uma mulher
que está oficialmente sob suspeita de ter desviado 9 milhões
de reais da Sudam já é, em si, um petardo. Fica ainda pior
quando se sabe que Jader, conforme ele próprio revelou na semana
passada, já usou, ao menos uma vez, o nome da atual mulher num
negócio no qual não desejava que o próprio nome aparecesse.
Mas isso não é tudo. No balanço contábil da
Centeno & Moreira, publicado no Diário Oficial do Pará,
na edição de 31 de agosto de 1998, há outra informação
tenebrosa. Lendo-se à página 16, descobre-se que Márcia
Cristina aparece como "diretora-presidente" da empresa, e seu irmão,
Felisberto Macedo Centeno Júnior, como "diretor". O surpreendente
vem em seguida: a empresa familiar tem como responsável por sua
contabilidade uma mulher. E quem é essa mulher? Ela mesma: Maria
Auxiliadora Barra Martins, que foi presa pela Polícia Federal na
semana passada sob a suspeita de que seu escritório em Belém
é um bunker de projetos destinados a assaltar os cofres da Sudam.
Nos arquivos da Sudam, é até possível que se encontre
alguma companhia que tenha contratado os serviços de Maria Auxiliadora
com boas intenções. Seu escritório na capital paraense,
porém, exibe um currículo tão vasto de fraudes que
custa acreditar que alguém tivesse sido tão ingênuo
a ponto de supor que seu trabalho fosse estritamente contábil,
no bom sentido. De 1996 para cá, o escritório de Maria Auxiliadora
intermediou 68 projetos na Sudam, cujos valores, somados, chegam à
portentosa cifra de 1,1 bilhão de reais. Pelo que se sabe até
agora, desse total Maria Auxiliadora conseguiu liberar 248,6 milhões
de reais. A maioria dos projetos é uma fraude. Na investigação
recente feita pelo governo, os fiscais encarregados de apurar o rombo
da Sudam escolheram, aleatoriamente, 24 projetos de Maria Auxiliadora
para examinar. Encontraram tramóias em 22. Só escaparam
dois. Com esse cardápio de serviços, qual seria o papel
de Auxiliadora na contabilidade da Centeno & Moreira?
Procurado por VEJA, o interventor da Sudam, José Diogo Cyrillo,
não quis dar detalhes das irregularidades que a Centeno & Moreira
cometeu. Limitou-se a dizer que a empresa já recebeu cerca de 80%
dos recursos de seu projeto incentivado pela Sudam, mas executou só
20% do planejado. Disse, também, que a suspeita de desvio de 9
milhões de reais foi levantada por fiscais da Sudam durante investigação
feita em 1999. E por que nada se fez desde então? "Talvez por motivos
espíritas", ironizou o interventor, que, em 1999, nada tinha a
ver com a Sudam. Quem sabe o nome do espírito não seja José
Artur Guedes Tourinho? Em 1999, Tourinho ocupava o cargo de superintendente
da Sudam por indicação, aliás, do próprio
senador Jader Barbalho. Desde a semana passada, sob suspeita de se esbaldar
na folia de fraudes da Sudam, Tourinho está com seus bens indisponíveis
por ordem da Justiça. Sua prisão temporária também
foi pedida, mas ainda está sendo examinada pela Justiça.
Fotos Janduari Simões
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Fotos Anduari Simies
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| O
ranário da atual mulher de Jader e a placa de incentivo da Sudam:
em 1999, os fiscais acharam o buraco mas nada se fez |
É
preciso levar em conta que a empresa da mulher de Jader até pode
ter explicações razoáveis para o uso dos 9 milhões
de reais. Mas o que se vê no endereço onde a Centeno &
Moreira deveria estar executando o projeto auxiliado pela Sudam é
um indício no sentido contrário. A empresa começou
a pedir dinheiro à Sudam em 1989. A intenção era
montar uma criação de rãs para produzir, anualmente,
28.000 quilos de carne congelada e 121.000 quilos de pele. Parece que,
no início, o negócio até funcionou. Chegou a construir
uns quinze galpões, fazer algumas exportações de
rã para os Estados Unidos e vendas para hotéis de luxo de
Belém, como o Hilton, o maior da capital paraense. Hoje, os galpões
estão cercados de mato. À frente há uma placa em
que se lê que ali funciona um projeto financiado pela Sudam. Seu
prazo de implantação foi apagado com tinta branca. Quem
chega perto consegue ler. Diz assim: "Um ano". Passou-se mais de uma década.
Agora, a mulher de Jader tem vinte dias para apresentar sua defesa
ou para recolher aos cofres públicos os 9 milhões de reais,
valor que já inclui correção e multa.
Por coincidência, no mesmo lote de empresas notificadas na semana
passada está a Moinho Santo Antônio. A companhia, acusada
de desviar mais de 13 milhões de reais da Sudam, pertence ao senhor
José Osmar Borges que foi sócio de Márcia
Cristina e Jader numa agropecuária entre 1996 e 1998. Na edição
passada, VEJA revelou a existência dessa sociedade. O negócio
começou em maio de 1996. Nessa época, Borges desembolsou
1,7 milhão de reais na compra da agropecuária e Márcia
entrou com apenas 207 reais. Em 1998, Borges deixou a sociedade, e as
terras que pertenciam à agropecuária acabaram sendo incorporadas
ao latifúndio da Fazenda Rio Branco, que pertence a Jader e sua
mulher. A revelação da sociedade deixou o senador agitado.
Na segunda-feira, ele subiu à tribuna do Senado e falou por mais
de uma hora. Falou do gigantismo de seu patrimônio de 30 milhões
de reais, da suspeita de que desviou 10 milhões de reais do Banco
do Pará, dos acusados de corrupção que nomeou para
a Sudam e, rapidamente, de seu negócio com Borges.
O
senador afirmou que a sociedade na agropecuária era uma operação
lícita e pública, tanto que está registrada na Junta
Comercial do Pará, e não oculta num contrato de gaveta.
Explicou que só colocou o nome de sua atual mulher no negócio
porque, naquela época, maio de 1996, estava em processo de separação
da ex-mulher, a deputada Elcione Barbalho, e não queria incluir
as novas terras na partilha de bens. E disse que não via nenhum
problema em se ter associado a Borges porque não sabia de coisa
alguma que desabonasse a conduta do empresário pois as primeiras
notícias de que Borges fraudava a Sudam só viriam a público
no ano seguinte, em 1997. Ninguém fez apartes a seu discurso
para criticar ou elogiar , e Jader deixou a tribuna prometendo entregar
declarações de imposto de renda de sua atual mulher e, também,
da Fazenda Rio Branco, para provar que todos os passos da negociação
foram devidamente informados ao Fisco. Em resumo, disse tudo sobre o periférico
e silenciou sobre o essencial. A começar pelas declarações,
que, até sexta-feira passada, não haviam sido entregues
ao Senado...
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| Auxiliadora,
do bunker de fraudes: nas contas da mulher de Jader |
Na
verdade, o negócio nunca foi público. Quem for à
Junta Comercial de Belém e pedir todos os documentos de propriedades
do senador sairá sem saber da sociedade que manteve com Borges.
Isso porque o nome de Jader aparece na ficha da agropecuária Campo
Maior que nem existe mais. Às vésperas de ser eleito
para a presidência do Senado, Jader deu uma entrevista ao jornal
Folha de S.Paulo. Perguntado sobre suas relações
com Borges, o senador disse apenas que o conhecia e nada falou
sobre já ter sido seu sócio. Também não ficou
claro por que colocou o nome de sua atual mulher com cota de 207 reais
na agropecuária. A partilha de bens entre Jader e a ex-mulher entrou
na Justiça em 1995, e o que o senador adquirisse depois disso
incluindo as terras da Campo Maior, compradas em maio de 1996 não
entraria na divisão patrimonial com ela. E, mesmo que entrasse,
por que Jader não colocou os 207 reais em seu nome? Será
que não queria partilhar essa quantia com a ex-mulher? (Alô,
alô, deputada Elcione: tentaram lhe surrupiar 103,50 reais!)
O
mais impressionante, no entanto, é o argumento de que, até
fazer a sociedade, Jader jamais ouvira falar mal de Borges como
se fosse natural envolver o nome da mulher num negócio com alguém
que mal se conhece. A leitura mais demolidora da defesa de Jader foi feita
por Márcio Moreira Alves, do jornal O Globo. Ao resumir
o argumento, o colunista escreveu que o senador optou por dizer o equivalente
ao seguinte: "Quando me associei ao Drácula, pensava que ele era
vegetariano. Só se descobriu que assaltava o banco de sangue um
ano depois". Para um político com carreira vitoriosa, Jader Barbalho
sabe muito pouco de seus amigos. Tourinho, ex-Sudam, está com bens
indisponíveis. Borges, ex-sócio, passou um dia em cana na
semana passada. José Soares Sobrinho, seu articulador político
no Pará, caiu no xilindró na segunda-feira. Auxiliadora,
contadora de sua mulher, está presa. Antônio Pinho Brasil,
seu assessor no Ministério da Reforma Agrária, acaba de
ser condenado a quatro anos de cadeia. Será que todos viraram Drácula
só depois?
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| O
balanço contábil da empresa da mulher de Jader no Diário Oficial:
a contabilista é fraudadora da Sudam |
Com reportagem de Christian Schwartz,
de Belém, e Ana d'Angelo, de Brasília

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