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Edição 1 697 - 25 de abril de 2001
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Jader cai no caldeirão
da Sudam

A mulher do senador é dona de empresa suspeita de desviar 9 milhões. Sua
contadora fraudou a Sudam

Lourenço Flores, de Cuiabá


Dida Sampaio/AE
Márcia Cristina, mulher de Jader: vinte dias para se explicar


No início, o nome do senador Jader Barbalho surgiu como padrinho de dirigentes da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia envolvidos em suspeita de corrupção. Depois, seu nome apareceu na boca de fraudadores da Sudam grampeados pela Polícia Federal em diálogos nos quais eles festejavam a eleição de Jader à presidência do Senado. Mais tarde, descobriu-se que o senador tivera uma sociedade com um dos mais notórios fraudadores da Sudam – assunto sobre o qual ele fazia silêncio de sepulcro. Agora, Jader Barbalho acaba de mergulhar dentro do caldeirão de fraudes da Sudam. Na quarta-feira passada, os interventores da autarquia despacharam doze notificações para um grupo de empresas suspeitas de desviar recursos dos projetos. Entre as companhias notificadas está a Centeno & Moreira, cuja sede fica em Belém do Pará. A firma terá de prestar explicações sobre a suspeita de ter feito um desvio de 9 milhões de reais de recursos da Sudam. E de quem é a Centeno & Moreira? É de Márcia Cristina Zaluth Centeno, a atual mulher de Jader Barbalho.



Ana Araujo
Jader Barbalho, na tribuna do Senado, fala de sua sociedade com fraudador: partilha de bens? Que partilha?


A revelação de que o senador é casado com uma mulher que está oficialmente sob suspeita de ter desviado 9 milhões de reais da Sudam já é, em si, um petardo. Fica ainda pior quando se sabe que Jader, conforme ele próprio revelou na semana passada, já usou, ao menos uma vez, o nome da atual mulher num negócio no qual não desejava que o próprio nome aparecesse. Mas isso não é tudo. No balanço contábil da Centeno & Moreira, publicado no Diário Oficial do Pará, na edição de 31 de agosto de 1998, há outra informação tenebrosa. Lendo-se à página 16, descobre-se que Márcia Cristina aparece como "diretora-presidente" da empresa, e seu irmão, Felisberto Macedo Centeno Júnior, como "diretor". O surpreendente vem em seguida: a empresa familiar tem como responsável por sua contabilidade uma mulher. E quem é essa mulher? Ela mesma: Maria Auxiliadora Barra Martins, que foi presa pela Polícia Federal na semana passada sob a suspeita de que seu escritório em Belém é um bunker de projetos destinados a assaltar os cofres da Sudam.

Nos arquivos da Sudam, é até possível que se encontre alguma companhia que tenha contratado os serviços de Maria Auxiliadora com boas intenções. Seu escritório na capital paraense, porém, exibe um currículo tão vasto de fraudes que custa acreditar que alguém tivesse sido tão ingênuo a ponto de supor que seu trabalho fosse estritamente contábil, no bom sentido. De 1996 para cá, o escritório de Maria Auxiliadora intermediou 68 projetos na Sudam, cujos valores, somados, chegam à portentosa cifra de 1,1 bilhão de reais. Pelo que se sabe até agora, desse total Maria Auxiliadora conseguiu liberar 248,6 milhões de reais. A maioria dos projetos é uma fraude. Na investigação recente feita pelo governo, os fiscais encarregados de apurar o rombo da Sudam escolheram, aleatoriamente, 24 projetos de Maria Auxiliadora para examinar. Encontraram tramóias em 22. Só escaparam dois. Com esse cardápio de serviços, qual seria o papel de Auxiliadora na contabilidade da Centeno & Moreira?

Procurado por VEJA, o interventor da Sudam, José Diogo Cyrillo, não quis dar detalhes das irregularidades que a Centeno & Moreira cometeu. Limitou-se a dizer que a empresa já recebeu cerca de 80% dos recursos de seu projeto incentivado pela Sudam, mas executou só 20% do planejado. Disse, também, que a suspeita de desvio de 9 milhões de reais foi levantada por fiscais da Sudam durante investigação feita em 1999. E por que nada se fez desde então? "Talvez por motivos espíritas", ironizou o interventor, que, em 1999, nada tinha a ver com a Sudam. Quem sabe o nome do espírito não seja José Artur Guedes Tourinho? Em 1999, Tourinho ocupava o cargo de superintendente da Sudam por indicação, aliás, do próprio senador Jader Barbalho. Desde a semana passada, sob suspeita de se esbaldar na folia de fraudes da Sudam, Tourinho está com seus bens indisponíveis por ordem da Justiça. Sua prisão temporária também foi pedida, mas ainda está sendo examinada pela Justiça.

 
Fotos Janduari Simões
Fotos Anduari Simies
O ranário da atual mulher de Jader e a placa de incentivo da Sudam: em 1999, os fiscais acharam o buraco mas nada se fez

É preciso levar em conta que a empresa da mulher de Jader até pode ter explicações razoáveis para o uso dos 9 milhões de reais. Mas o que se vê no endereço onde a Centeno & Moreira deveria estar executando o projeto auxiliado pela Sudam é um indício no sentido contrário. A empresa começou a pedir dinheiro à Sudam em 1989. A intenção era montar uma criação de rãs para produzir, anualmente, 28.000 quilos de carne congelada e 121.000 quilos de pele. Parece que, no início, o negócio até funcionou. Chegou a construir uns quinze galpões, fazer algumas exportações de rã para os Estados Unidos e vendas para hotéis de luxo de Belém, como o Hilton, o maior da capital paraense. Hoje, os galpões estão cercados de mato. À frente há uma placa em que se lê que ali funciona um projeto financiado pela Sudam. Seu prazo de implantação foi apagado com tinta branca. Quem chega perto consegue ler. Diz assim: "Um ano". Passou-se mais de uma década. Agora, a mulher de Jader tem vinte dias para apresentar sua defesa – ou para recolher aos cofres públicos os 9 milhões de reais, valor que já inclui correção e multa.

Por coincidência, no mesmo lote de empresas notificadas na semana passada está a Moinho Santo Antônio. A companhia, acusada de desviar mais de 13 milhões de reais da Sudam, pertence ao senhor José Osmar Borges – que foi sócio de Márcia Cristina e Jader numa agropecuária entre 1996 e 1998. Na edição passada, VEJA revelou a existência dessa sociedade. O negócio começou em maio de 1996. Nessa época, Borges desembolsou 1,7 milhão de reais na compra da agropecuária e Márcia entrou com apenas 207 reais. Em 1998, Borges deixou a sociedade, e as terras que pertenciam à agropecuária acabaram sendo incorporadas ao latifúndio da Fazenda Rio Branco, que pertence a Jader e sua mulher. A revelação da sociedade deixou o senador agitado. Na segunda-feira, ele subiu à tribuna do Senado e falou por mais de uma hora. Falou do gigantismo de seu patrimônio de 30 milhões de reais, da suspeita de que desviou 10 milhões de reais do Banco do Pará, dos acusados de corrupção que nomeou para a Sudam e, rapidamente, de seu negócio com Borges.

O senador afirmou que a sociedade na agropecuária era uma operação lícita e pública, tanto que está registrada na Junta Comercial do Pará, e não oculta num contrato de gaveta. Explicou que só colocou o nome de sua atual mulher no negócio porque, naquela época, maio de 1996, estava em processo de separação da ex-mulher, a deputada Elcione Barbalho, e não queria incluir as novas terras na partilha de bens. E disse que não via nenhum problema em se ter associado a Borges porque não sabia de coisa alguma que desabonasse a conduta do empresário – pois as primeiras notícias de que Borges fraudava a Sudam só viriam a público no ano seguinte, em 1997. Ninguém fez apartes a seu discurso – para criticar ou elogiar –, e Jader deixou a tribuna prometendo entregar declarações de imposto de renda de sua atual mulher e, também, da Fazenda Rio Branco, para provar que todos os passos da negociação foram devidamente informados ao Fisco. Em resumo, disse tudo sobre o periférico e silenciou sobre o essencial. A começar pelas declarações, que, até sexta-feira passada, não haviam sido entregues ao Senado...


Auxiliadora, do bunker de fraudes: nas contas da mulher de Jader

Na verdade, o negócio nunca foi público. Quem for à Junta Comercial de Belém e pedir todos os documentos de propriedades do senador sairá sem saber da sociedade que manteve com Borges. Isso porque o nome de Jader aparece na ficha da agropecuária Campo Maior – que nem existe mais. Às vésperas de ser eleito para a presidência do Senado, Jader deu uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. Perguntado sobre suas relações com Borges, o senador disse apenas que o conhecia – e nada falou sobre já ter sido seu sócio. Também não ficou claro por que colocou o nome de sua atual mulher com cota de 207 reais na agropecuária. A partilha de bens entre Jader e a ex-mulher entrou na Justiça em 1995, e o que o senador adquirisse depois disso – incluindo as terras da Campo Maior, compradas em maio de 1996 – não entraria na divisão patrimonial com ela. E, mesmo que entrasse, por que Jader não colocou os 207 reais em seu nome? Será que não queria partilhar essa quantia com a ex-mulher? (Alô, alô, deputada Elcione: tentaram lhe surrupiar 103,50 reais!)

O mais impressionante, no entanto, é o argumento de que, até fazer a sociedade, Jader jamais ouvira falar mal de Borges – como se fosse natural envolver o nome da mulher num negócio com alguém que mal se conhece. A leitura mais demolidora da defesa de Jader foi feita por Márcio Moreira Alves, do jornal O Globo. Ao resumir o argumento, o colunista escreveu que o senador optou por dizer o equivalente ao seguinte: "Quando me associei ao Drácula, pensava que ele era vegetariano. Só se descobriu que assaltava o banco de sangue um ano depois". Para um político com carreira vitoriosa, Jader Barbalho sabe muito pouco de seus amigos. Tourinho, ex-Sudam, está com bens indisponíveis. Borges, ex-sócio, passou um dia em cana na semana passada. José Soares Sobrinho, seu articulador político no Pará, caiu no xilindró na segunda-feira. Auxiliadora, contadora de sua mulher, está presa. Antônio Pinho Brasil, seu assessor no Ministério da Reforma Agrária, acaba de ser condenado a quatro anos de cadeia. Será que todos viraram Drácula só depois?

 
O balanço contábil da empresa da mulher de Jader no Diário Oficial: a contabilista é fraudadora da Sudam


Com reportagem de
Christian Schwartz,
de Belém, e Ana d'Angelo, de Brasília

 
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