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Semana de fúriaO
Senado vive seu momento mais
Até
pouco tempo atrás, o Senado era considerado uma Casa amena, onde
políticos experientes, uns em fim de carreira, calmamente se ocupavam
de travar debates sem eletricidade. Na semana passada, o Senado era o
retrato de seu próprio avesso. Na segunda-feira, seu presidente,
o senador Jader Barbalho, subiu à tribuna com o objetivo de explicar
sua sociedade comercial com um saqueador da Sudam e, sobretudo,
desidratar as pressões para que abandonasse o comando do PMDB e
do próprio Senado. No dia seguinte, e assim seguiria até
o fim da semana, as pressões mudaram de endereço, mas nem
por isso a temperatura caiu. O anúncio simultâneo de um laudo
e dois depoimentos desenrolaram o tapete dos escândalos à
frente de outros dois senadores: José Roberto Arruda, líder
do partido tucano no Senado, e Antonio Carlos Magalhães, do PFL
baiano ambos acusados de terem maquinado a violação
do painel eletrônico durante a votação que se pretendia
secreta da cassação do mandato do senador Luiz Estevão,
ocorrida em 28 de junho do ano passado.
Agora é diferente. Jader Barbalho, Antonio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda são caciques do Senado. Esta é a peculiaridade desta crise. Ela envolve numa fogueira moral alguns dos mais poderosos parlamentares brasileiros, representantes máximos das legendas de maior expressão no governo: PMDB, PFL e PSDB. As repercussões políticas deste caso são muito graves. Poucas vezes o Senado atravessou momentos tão conturbados, dando à opinião pública todos os motivos para ter sua fé nos políticos ainda mais abalada do que já era. Na quinta-feira, já chocado diante das repetidas revelações sobre as ligações do senador Jader Barbalho com os fraudadores da Sudam, o Senado estremeceu durante as cinco horas do depoimento estarrecedor da ex-diretora do Prodasen Regina Borges. Ao contar como José Roberto Arruda e Antonio Carlos Magalhães teriam encomendado a ela a violação do sigilo do painel eletrônico, manobra que ambos os senadores negam com veemência, ela produziu um silêncio pesado na sala do Conselho de Ética, que a convocara para depor. Respondeu minuciosamente a todas as perguntas, às vezes chorando, e deu detalhes copiosos sobre os motivos que a levaram a cometer um ato irregular.
A cassação é improvável porque o processo, para ter solidez, requer provas. Até o momento, embora os depoimentos sejam acachapantes, eles fornecem apenas indícios a ser confirmados. Só depois de consolidados é que se dá início ao processo de cassação por quebra de decoro parlamentar. Segundo o regimento do Congresso, um deputado ou senador quebra o decoro parlamentar quando abusa de suas prerrogativas constitucionais, quando recebe vantagem indevida ou quando pratica irregularidade grave no desempenho de seu mandato. Vencida essa etapa, de transformar suspeitas em elementos mais concretos, há outra dificuldade de caráter político. Embora as histórias que vêm assombrando o Senado estejam circunscritas ao Congresso Nacional, sem resvalar para o Palácio do Planalto, os envolvidos são os mais graduados caciques dos partidos mais fortes da base de sustentação do governo no Congresso. Arruda era líder do governo. Cabia a ele falar em nome do presidente da República, com autorização oficial para negociar cargos, votos e verbas. Acabou renunciando à função após as denúncias. ACM presidia o Senado até recentemente e atuava como uma espécie de primeiro-ministro informal do governo Fernando Henrique, "cargo" que já havia ocupado na gestão de José Sarney e de Fernando Collor. Exerceu essa função até romper com FHC meses atrás. Para ocorrer a cassação, são necessárias três votações: uma primeira no Conselho de Ética, uma segunda na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), e uma terceira no plenário. Se o Conselho de Ética entender que o processo deve ser interrompido, não cabe recurso, mas, se decidir recomendar a cassação, ela vai à Comissão de Constituição e Justiça. O caso só chega ao plenário se a CCJ também recomendar a cassação. O Conselho de Ética é composto de dezesseis senadores. Desses, o governo possui treze votos. São cinco do PMDB, cinco do PFL e três do PSDB. Na CCJ, a matemática é semelhante. Dos 23 integrantes, o governo tem dezoito votos. Há ainda uma outra questão, essa talvez a mais delicada. É possível cassar Arruda e ACM, acusados de violar o painel eletrônico, deixando Jader Barbalho no Senado, depois de todo o processo de desgaste que ele vem sofrendo? E como os dois colegas Jader é uma potência no mundo de Brasília. Preside o PMDB e concomitantemente dirige o Senado Federal. Embora Arruda e ACM estejam enfrentado acusações pesadas, eles não infringiram a lei. Não há um único artigo na legislação penal brasileira definindo como crime um atentado contra a privacidade dos demais senadores. No caso de Jader Barbalho, as acusações vão além dos limites estreitos do regimento do Senado. Para começar, ele possui um patrimônio de 30 milhões de reais, que não conseguiu até hoje justificar. Além disso, um relatório do Banco Central aponta indícios de que aplicou recursos públicos nos tempos em que governava o Pará e embolsou o rendimento. Jader também apareceu perigosamente próximo de fraudadores da Sudam. A Câmara dos Deputados já cassou quinze parlamentares de 1988 para cá. No Senado, um tabu de 176 anos foi quebrado com a cassação de Luiz Estevão, mas poucos parlamentares experientes acreditam que o fato se repita desta vez. Na semana passada, a leitura feita por alguns políticos era de que uma solução indolor ainda poderia ser tentada, mas dificilmente seria engolida pela opinião pública. Por solução indolor (para a corporação, claro) entenda-se fingir que nada de estranho aconteceu e que ninguém vai perceber se tudo permanecer como está. A grande expectativa agora gira em torno do depoimento de Antonio Carlos Magalhães no Conselho de Ética. Acredita-se que ele dará o tom do que está por vir.
Com reportagem de Patrícia Queiroz
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