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Edição 1 697 - 25 de abril de 2001
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Vou boicotar a TV

"Deveria haver uma lei que forçasse essa gente a escolher:
o
u faz política ou ganha dinheiro
com TVs e rádios"

Pouco antes de morrer, Federico Fellini estava planejando um filme sobre Silvio Berlusconi. Nele, o magnata televisivo italiano comprava a cidade de Veneza e rebatizava o Canal Grande de Canal Cinco, nome de sua principal emissora de TV.

Fellini tinha escolhido o alvo certo. Berlusconi é um dos homens mais ricos do mundo. Tem de tudo: banco de investimentos, seguradora, empreiteira, companhia telefônica, portal de internet, time de futebol, editora de livros, cadeia de cinemas. Além disso, tem também os três maiores canais de TV privada da Itália. Em 1994, depois que seus aliados políticos foram afastados do poder por ladroagem, ele reuniu um bando de publicitários, fundou um partido, anunciou-o maciçamente em suas TVs e ganhou as eleições. O governo foi um desastre. Durou apenas sete meses. Mas ele persistiu. No próximo dia 13 de maio, com a mesma plataforma populista, com as mesmas técnicas de campanha publicitária, é muito provável que seja novamente eleito primeiro-ministro.

Todo mundo sabe que a política é subalterna da TV e do rádio. Nenhuma novidade nisso. Veja os ministros brasileiros acotovelarem-se para anunciar medidas de impacto em cadeias nacionais. Ou o apresentador do horário gratuito do PSDB, Gugu Liberato. Ou a verba de propaganda com que José Serra pretende viabilizar sua candidatura presidencial. Ou a infinidade de políticos gerados pela TV ou pelo rádio, de Hélio Costa a Antônio Britto, de Afanásio Jazadji a Marta Suplicy. O mais correto seria que jornais e revistas invertessem a ordem de seus cadernos, começando com o noticiário sobre a TV até chegar, por último, à política.

Mas o caso de Berlusconi vai mais longe. Demonstra que, em vez de simplesmente condicionar a política, a TV decidiu assumir o seu lugar. Tornando-se primeiro-ministro, Berlusconi irá controlar não só toda a informação dos três canais da TV privada mas também a dos três canais da TV pública. E do rádio. Pois o que está em jogo é isso: liberdade de imprensa.

É inevitável que a TV influencie a política. Aliás, tende a influenciar cada vez mais. Nem adianta discutir. Por outro lado, é perfeitamente evitável que proprietários de TVs e rádios assumam cargos políticos. Basta uma lei. A Itália não tem essa lei. O Brasil também não. E nunca vai ter. Li que um quinto de nossos parlamentares possui TVs e rádios. Para dar um exemplo, Jader Barbalho tem três TVs e seis rádios no Pará. Seu poder de fogo, porém, é muito maior, considerando as inúmeras TVs e rádios de aliados políticos como Nivaldo Pereira ou José Costa. Seria curioso saber como esses veículos cobriram o escândalo da Sudam. O conúbio entre TV e política também é exemplificado pelos pré-candidatos à Presidência. ACM tem a Globo da Bahia, Roseana Sarney tem a Globo do Maranhão, Tasso Jereissati tem a Globo do Ceará e sua mulher o SBT. Isso sem falar nas rádios e jornais que eles comandam em seus Estados. Nada que se compare ao monopólio de Berlusconi, claro. Mas o princípio é o mesmo. Deveria haver uma lei que forçasse essa gente a escolher: ou faz política ou ganha dinheiro com TVs e rádios.

A Igreja Metodista de Guarapuava, no Paraná, propôs um boicote à TV em 1° de maio. Eu topo. Vou desligar a TV e ficar o dia todo na janela de minha casa em Veneza, olhando o Canal Grande – ou Canal Cinco.

 

 
 
   
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