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Vou
boicotar a TV
"Deveria
haver uma lei que forçasse essa gente a escolher:
ou
faz política ou ganha dinheiro
com TVs e rádios"
Pouco antes
de morrer, Federico Fellini estava planejando um filme sobre Silvio Berlusconi.
Nele, o magnata televisivo italiano comprava a cidade de Veneza e rebatizava
o Canal Grande de Canal Cinco, nome de sua principal emissora de TV.
Fellini
tinha escolhido o alvo certo. Berlusconi é um dos homens mais ricos
do mundo. Tem de tudo: banco de investimentos, seguradora, empreiteira,
companhia telefônica, portal de internet, time de futebol, editora
de livros, cadeia de cinemas. Além disso, tem também os
três maiores canais de TV privada da Itália. Em 1994, depois
que seus aliados políticos foram afastados do poder por ladroagem,
ele reuniu um bando de publicitários, fundou um partido, anunciou-o
maciçamente em suas TVs e ganhou as eleições. O governo
foi um desastre. Durou apenas sete meses. Mas ele persistiu. No próximo
dia 13 de maio, com a mesma plataforma populista, com as mesmas técnicas
de campanha publicitária, é muito provável que seja
novamente eleito primeiro-ministro.
Todo mundo
sabe que a política é subalterna da TV e do rádio.
Nenhuma novidade nisso. Veja os ministros brasileiros acotovelarem-se
para anunciar medidas de impacto em cadeias nacionais. Ou o apresentador
do horário gratuito do PSDB, Gugu Liberato. Ou a verba de propaganda
com que José Serra pretende viabilizar sua candidatura presidencial.
Ou a infinidade de políticos gerados pela TV ou pelo rádio,
de Hélio Costa a Antônio Britto, de Afanásio Jazadji
a Marta Suplicy. O mais correto seria que jornais e revistas invertessem
a ordem de seus cadernos, começando com o noticiário sobre
a TV até chegar, por último, à política.
Mas o caso
de Berlusconi vai mais longe. Demonstra que, em vez de simplesmente condicionar
a política, a TV decidiu assumir o seu lugar. Tornando-se primeiro-ministro,
Berlusconi irá controlar não só toda a informação
dos três canais da TV privada mas também a dos três
canais da TV pública. E do rádio. Pois o que está
em jogo é isso: liberdade de imprensa.
É
inevitável que a TV influencie a política. Aliás,
tende a influenciar cada vez mais. Nem adianta discutir. Por outro lado,
é perfeitamente evitável que proprietários de TVs
e rádios assumam cargos políticos. Basta uma lei. A Itália
não tem essa lei. O Brasil também não. E nunca vai
ter. Li que um quinto de nossos parlamentares possui TVs e rádios.
Para dar um exemplo, Jader Barbalho tem três TVs e seis rádios
no Pará. Seu poder de fogo, porém, é muito maior,
considerando as inúmeras TVs e rádios de aliados políticos
como Nivaldo Pereira ou José Costa. Seria curioso saber como esses
veículos cobriram o escândalo da Sudam. O conúbio
entre TV e política também é exemplificado pelos
pré-candidatos à Presidência. ACM tem a Globo da Bahia,
Roseana Sarney tem a Globo do Maranhão, Tasso Jereissati tem a
Globo do Ceará e sua mulher o SBT. Isso sem falar nas rádios
e jornais que eles comandam em seus Estados. Nada que se compare ao monopólio
de Berlusconi, claro. Mas o princípio é o mesmo. Deveria
haver uma lei que forçasse essa gente a escolher: ou faz política
ou ganha dinheiro com TVs e rádios.
A Igreja
Metodista de Guarapuava, no Paraná, propôs um boicote à
TV em 1° de maio. Eu topo. Vou desligar a TV e ficar o dia todo na
janela de minha casa em Veneza, olhando o Canal Grande ou Canal
Cinco.
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