Edição 1 625 - 24/11/1999

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Paulistano é ruim de voto


Ilustração Alê Setti

Desde o retorno da democracia, os paulistanos elegeram Jânio Quadros, Luiza Erundina, Paulo Maluf e Celso Pitta à prefeitura da cidade. O que impediria que também elegessem a apresentadora Hebe Camargo, se ela, como sugeriu o PPB, realmente se candidatasse? Paulistano é ruim de voto. É capaz de fazer as maiores tolices sem sentir a menor vergonha. Toda vez que um paulistano reclama que seu voto para deputado federal vale dezenas de vezes menos que o de um eleitor do Acre, recordo-lhe o nome dos quatro prefeitos para os quais ele teve a coragem de votar nos últimos anos. Das inúmeras barbaridades cometidas por nossos valorosos constituintes, essa desproporcionalidade eleitoral é, sem dúvida alguma, a menos injusta. Aliás, eu, como paulistano, proponho que sejam os próprios eleitores do Acre a escolher o próximo prefeito de São Paulo. Duvido muito que as coisas possam melhorar. Mas certamente não vão piorar. E, pelo menos, teremos em quem botar a culpa.

O fato é que não possuímos os anticorpos necessários para combater a ignorância, a feiúra, o mau gosto. Veja o caso do gigantesco edifício piramidal que o guru indiano Maharishi quer erguer no bairro do Pari. Pensei que a história fosse morrer em duas ou três semanas e que o empresário interessado no projeto saísse coberto de ridículo. Em vez disso, o prefeito e os vereadores parecem dispostos a viabilizar a construção, falando em desapropriar terrenos e outras medidas do gênero. Creio que exista muita gente horrorizada com a idéia de ver esse edifício de pé, mas ninguém parece ter força para bloqueá-lo. Os raros arquitetos de bom senso da cidade deveriam se encharcar de querosene e se imolar diante da Câmara Municipal. Que outra esperança nos resta? Que o Brasil passe por uma crise financeira tão profunda que ninguém mais se atreva a plantar um tijolo em nosso território, nem mesmo o guru milionário?

Na verdade, a melhor alternativa seria desenvolver os tais anticorpos que destruíssem as monstruosidades antes mesmo que elas passassem pela cabeça de alguém. E a única maneira que eu conheço de desenvolver esses anticorpos passa obrigatoriamente por livros, quadros, filmes e músicas. O nosso modelo deveria ser o sádico assassino de Laranja Mecânica. Lembra dele? Todo mundo costuma retratá-lo como vítima de um sistema pedagógico autoritário, mas eu o vejo como exemplo de mudança positiva. Depois de ser bombardeado por melodias de Beethoven por dias e dias, transforma-se numa pessoa muito mais pacífica, reflexiva. Acho que nós, paulistanos, deveríamos ser submetidos a um tratamento semelhante. Amarrados à cadeira, seríamos forçados a ouvir Beethoven e a ver filmes educacionais o tempo todo. Hebe Camargo e as pirâmides védicas sumiriam magicamente de nossas vidas. Sobraria apenas o velho Beethoven.