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Paulistano é ruim de voto
Ilustração Alê Setti
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Desde o retorno da democracia, os paulistanos elegeram
Jânio Quadros, Luiza Erundina, Paulo Maluf e Celso
Pitta à prefeitura da cidade. O que impediria que
também elegessem a apresentadora Hebe Camargo, se
ela, como sugeriu o PPB, realmente se candidatasse? Paulistano
é ruim de voto. É capaz de fazer as maiores
tolices sem sentir a menor vergonha. Toda vez que um paulistano
reclama que seu voto para deputado federal vale dezenas
de vezes menos que o de um eleitor do Acre, recordo-lhe
o nome dos quatro prefeitos para os quais ele teve a coragem
de votar nos últimos anos. Das inúmeras barbaridades
cometidas por nossos valorosos constituintes, essa desproporcionalidade
eleitoral é, sem dúvida alguma, a menos injusta.
Aliás, eu, como paulistano, proponho que sejam os
próprios eleitores do Acre a escolher o próximo
prefeito de São Paulo. Duvido muito que as coisas
possam melhorar. Mas certamente não vão piorar.
E, pelo menos, teremos em quem botar a culpa.
O fato é que não possuímos os anticorpos
necessários para combater a ignorância, a feiúra,
o mau gosto. Veja o caso do gigantesco edifício piramidal
que o guru indiano Maharishi quer erguer no bairro do Pari.
Pensei que a história fosse morrer em duas ou três
semanas e que o empresário interessado no projeto
saísse coberto de ridículo. Em vez disso,
o prefeito e os vereadores parecem dispostos a viabilizar
a construção, falando em desapropriar terrenos
e outras medidas do gênero. Creio que exista muita
gente horrorizada com a idéia de ver esse edifício
de pé, mas ninguém parece ter força
para bloqueá-lo. Os raros arquitetos de bom senso
da cidade deveriam se encharcar de querosene e se imolar
diante da Câmara Municipal. Que outra esperança
nos resta? Que o Brasil passe por uma crise financeira tão
profunda que ninguém mais se atreva a plantar um
tijolo em nosso território, nem mesmo o guru milionário?
Na verdade, a melhor alternativa seria desenvolver
os tais anticorpos que destruíssem as monstruosidades
antes mesmo que elas passassem pela cabeça de alguém.
E a única maneira que eu conheço de desenvolver
esses anticorpos passa obrigatoriamente por livros, quadros,
filmes e músicas. O nosso modelo deveria ser o sádico
assassino de Laranja Mecânica. Lembra dele? Todo
mundo costuma retratá-lo como vítima de um sistema
pedagógico autoritário, mas eu o vejo como exemplo
de mudança positiva. Depois de ser bombardeado por
melodias de Beethoven por dias e dias, transforma-se numa
pessoa muito mais pacífica, reflexiva. Acho que nós,
paulistanos, deveríamos ser submetidos a um tratamento
semelhante. Amarrados à cadeira, seríamos forçados
a ouvir Beethoven e a ver filmes educacionais o tempo todo.
Hebe Camargo e as pirâmides védicas sumiriam
magicamente de nossas vidas. Sobraria apenas o velho Beethoven.
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