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"Sabe
aquela sensação
de queda livre que se |
O escritor americano Andrew Solomon foi ao inferno e voltou. Ele era um romancista de sucesso quando, aos 31 anos, se viu mergulhado numa depressão profunda. Essa experiência é minuciosamente relatada no livro O Demônio do Meio-Dia (Editora Objetiva; 504 páginas), que está previsto para chegar nesta semana às livrarias do país. Sucesso de vendas nos Estados Unidos, ele já foi traduzido em 21 línguas e indicado para o Prêmio Pulitzer 2002, na categoria não-ficção. Não se trata de um livro de memórias. O drama de Solomon é pano de fundo para um dos mais completos tratados já escritos sobre a depressão. A doença é analisada do ponto de vista químico, psicológico, filosófico, histórico, político e cultural, sem a pretensão e nem é esse o objetivo de ser uma obra conclusiva sobre o assunto. Hoje com 38 anos, Solomon, que é colaborador das revistas New Yorker e New York Times Magazine, teve três recaídas, uma delas enquanto escrevia o livro. "A depressão está sempre à espreita", diz. De seu apartamento, em Nova York, ele deu a seguinte entrevista a VEJA:
Veja É possível descrever o sofrimento causado
pela depressão?
Solomon
Somente em parte. É um sofrimento inimaginável para quem
nunca passou por isso. Meu primeiro episódio de depressão
ocorreu quanto eu tinha 31 anos. Comecei a me sentir cada vez mais cansado,
desinteressado, desconectado da vida. Até que passei a me arrastar
para realizar tarefas rotineiras. Era dificílimo, por exemplo,
ir até a geladeira, escolher uma comida, colocá-la no prato
e levá-la à boca com um garfo. Depois veio a ansiedade,
um misto de medo constante e falta de direção. Já
pratiquei skydive e posso dizer que saltar de um avião a 4.000
metros de altitude é mais fácil do que amarrar os sapatos
quando se está numa crise desse tipo. Sabe aquela sensação
de queda livre que se tem em sonho? Pois bem, a depressão é
ter essa sensação prolongada por dias e dias. Apesar de
meu problema estar controlado, ainda sofro de uma depressão latente,
que chamo de depressão de fundo. Tomo remédios e faço
psicanálise. Essa é a fórmula para que eu consiga
funcionar.
Veja Não é triste depender desse suporte externo?
Solomon
De um certo ponto de vista, sim, é triste. Ao mesmo tempo, é
preciso levar em conta que suportes externos foram incorporados de tal
forma a nosso cotidiano que é ridícula a idéia de
que poderíamos viver num estado plenamente natural. Se fosse assim,
teríamos de deixar de escovar os dentes ou de seguir dietas balanceadas.
Hoje, aceito que tenho depressão e que preciso conviver com o tratamento
para ela. É o único jeito de ir para a frente.
Veja Em geral, a depressão tem um fator desencadeante.
No seu caso, a morte de sua mãe teve um peso importante.
Solomon
Esse acontecimento foi, sem dúvida, um dos fatores desencadeantes
da minha depressão, especialmente por causa das circunstâncias
que o cercaram. Primeiro, minha mãe recebeu o diagnóstico
de câncer de ovário. Depois, submeteu-se a um longo e penoso
tratamento. Por último, quando já não havia esperança,
ela decidiu se matar tomando remédios. Fez isso na minha presença,
na de meu pai e na de meu irmão. Antes de se matar, virou-se para
mim e disse: "Não faça de minha morte o grande acontecimento
da sua vida". Todo esse processo, evidentemente, representou um grande
trauma para mim. Acredito que todas as pessoas que, como eu, tiveram depressão
severa podem dizer que a doença veio depois de um evento marcante
que pode ser negativo, como a perda de uma pessoa querida, ou positivo,
como o nascimento de um bebê. Mas nem sempre o gatilho da primeira
crise é identificável como a causa das recaídas.
E isso é motivo de mais sofrimento. Para tentar minorá-lo,
eu mesmo, em alguns instantes, cheguei a tentar forjar uma causa palpável
para o meu estado.
Veja Como assim?
Solomon
Eu
me expus a situações de risco, na tentativa de estabelecer
aos olhos do mundo um motivo para o meu desespero. Como é impossível
contrair um câncer voluntariamente, decidi pegar Aids. Durante três
meses, mantive relações sexuais com estranhos que eu presumia
infectados, correndo riscos cada vez maiores e mais diretos. Por sorte,
apesar dos meus comportamentos destrutivos, a razão acabou prevalecendo.
Quando me senti melhor, consegui enxergar o absurdo de tudo aquilo.
Veja Houve uma banalização do termo "depressão".
Qual a diferença entre depressão e tristeza?
Solomon
Eu diria que, enquanto o oposto de tristeza é felicidade, o contrário
de depressão é vitalidade. Estar deprimido não significa
sentir-se principalmente triste. A tristeza é apenas uma parte
desse sentimento. A depressão traz uma sensação pesada
de morte, de desespero, de falta de energia. É um erro, portanto,
usar o termo "depressão" para definir um estado de melancolia ou
algo que o valha. Também está na moda encarar a depressão
como uma doença moderna. Não há nada de moderno na
depressão. O grego Hipócrates, considerado o pai da medicina,
já estudava uma possível cura para a doença no século
V a.C.
Veja A vida moderna não é um terreno fértil
para a depressão?
Solomon
Como digo no meu livro, as taxas crescentes de depressão são
uma conseqüência da modernidade. O ritmo frenético do
dia-a-dia, o colapso da estrutura familiar e a competição
acirrada têm um efeito devastador sobre as pessoas. Como esses fatores
não existiam no passado, havia menos risco de vir à tona
a vulnerabilidade à depressão. Mas essa vulnerabilidade
sempre existiu.
Veja O senhor lançou-se numa pesquisa exaustiva sobre
os remédios antidepressivos atualmente existentes. O que concluiu
a respeito?
Solomon
Que a ciência avançou muito no desenvolvimento de drogas
com menos efeitos colatelvetica, sans-serif" size="2" color="#000000">
Veja O senhor lançou-se numa pesquisa exaustiva sobre
os remédios antidepressivos atualmente existentes. O que concluiu
a respeito?
Solomon
Que a ciência avançou muito no desenvolvimento de drogas
com menos efeitos colaterais. Ainda estamos longe, contudo, de uma droga
realmente efetiva para a doença. Isso porque a depressão
não é apenas uma disfunção na química
cerebral. Ela diz respeito também à forma como a pessoa
encara a vida e reage aos problemas do dia-a-dia. Não existe um
caso de depressão igual a outro cada experiência é
muito particular. Por isso, um remédio pode funcionar para um e
ser ineficiente para outro. A taxa média de eficácia dos
antidepressivos hoje gira em torno de 50%. Talvez no futuro tenhamos um
aprimoramento na descrição dos subtipos de depressão
e, com isso, possamos determinar quais os remédios mais indicados
para esse ou aquele caso.
Veja Como foi sua experiência com tratamentos alternativos,
como o uso da erva-de-são-joão?
Solomon
Comigo não deu resultado. Há um grande estudo publicado
nos Estados Unidos que diz que a erva-de-são-joão é
tão útil quanto um placebo. Mas não faço objeções
a esses tipos de tratamento. Conheço pessoas que realmente se beneficiaram
deles. Sou da opinião de que, se algo faz bem, o melhor é
ir em frente. Antes de optar, no entanto, por este ou aquele tratamento,
o mais razoável é verificar quais possibilidades têm
taxas de sucesso mais altas.
Veja O senhor diz que, nos últimos anos, aumentou
a intolerância social em relação às vítimas
do problema. Por quê?
Solomon
Porque,
embora não haja um medicamento realmente eficiente para o problema,
a crença generalizada é a de que ele existe. E como todos
sabem o que supostamente funciona contra a depressão, a cobrança
é grande. Quando uma pessoa ouve que alguém está
deprimido, a primeira pergunta que faz é: "Mas por que ele não
toma um remédio?". Uma vez ouvi uma mulher dizer a seu filho: "Você
tem problemas? Tome Prozac, supere-os e então me procure". As pessoas
simplesmente não aceitam o fato de que a depressão pode
ser algo incurável e até mesmo parte da personalidade de
uma pessoa.
Veja O senhor relata situações em que, embora
estivesse deprimido, teve de simular que não estava passando mal.
Solomon
É sempre mais fácil dizer "eu tive depressão" do
que "estou deprimido". Ao falar do problema no passado, o sentimento é
o de que se venceu uma batalha o que não ocorre, evidentemente,
quando se está em meio a uma crise. Há ainda, como já
disse, uma exigência externa que leva a que se esconda a depressão.
Em nossa sociedade, ser feliz tornou-se uma obrigação. Quem
não consegue é visto como um fracassado. Tive um pequeno
episódio de depressão na última primavera e pensei:
"Escrevi um livro sobre a doença, todos sabem da minha depressão
e, ainda assim, sinto-me estigmatizado socialmente".
Veja A terapia cognitiva comportamental é muito utilizada
para tratar pacientes com pânico e fobias. Nesse tipo de tratamento,
uma pessoa com medo de avião é incentivada a voar até
que consiga controlar esse medo. Recentemente, ela passou a ser usada
em pacientes com depressão. O que o senhor pensa a respeito?
Solomon
É
um bom caminho. Os pensamentos do paciente de depressão seguem
a lógica do negativismo. Na terapia cognitiva comportamental, tenta-se
inverter essa lógica, mostrando ao deprimido que é possível
encontrar saídas para o círculo vicioso no qual ele chafurda.
Esse método é chamado de "otimismo aprendido". Hoje, já
se sabe que os efeitos da terapia cognitiva podem ser os mesmos de determinados
medicamentos. Mas é a combinação de remédios
com tratamento psicológico que traz os melhores resultados. A medicação
pode sozinha tirar alguém de uma crise depressiva, mas não
o ajuda a realizar mudanças na sua maneira de ser que evitem as
manifestações mais agudas da doença. As terapias
atuam nesse sentido.
Veja E a psicanálise?
Solomon
Todas as psicoterapias têm origem na psicanálise, e mesmo
quem menospreza Freud tem de reconhecer esse fato. Na essência,
a psicanálise é exclusivamente um processo de autoconhecimento.
Ela é hábil ao explicar certos comportamentos, mas não
é eficiente para mudá-los a curto prazo. Coisa, aliás,
a que não se propõe. Se esse é o objetivo, há
terapias mais efetivas, como a cognitiva comportamental. No entanto, quem
sofre de depressão e faz psicanálise tem muito a ganhar.
Ela pode fazer com que o paciente entenda mais a sua história e,
conseqüentemente, perceba as origens da sua depressão. Nenhum
especialista, entretanto, recomendaria a psicanálise para uma vítima
de depressão aguda ou para alguém à beira do suicídio.
Psicanálise é um processo longo, que exige disponibilidade
intelectual e empenho emocional do paciente.
Veja A depressão tem algo a ensinar?
Solomon
O
que posso dizer é que a minha depressão me fez um homem
mais gentil e mais compreensivo. Além disso, depois que se sofre
um tormento desses, aprende-se a extrair prazer das pequenas coisas da
vida. Não acredito que a depressão, por si só, seja
construtiva ou produtiva. O que conta nesse processo é a mudança
por que passa a sua personalidade.
Veja A depressão é um mal associado a pessoas
intelectualmente sofisticadas. O senhor vê algum fundamento nisso?
Solomon
Pessoas que passam por uma experiência dessas e conseguem desenvolver
um novo entendimento sobre si mesmas tornam-se mais aptas para compreender
o mundo. A depressão não é sintoma de inteligência.
Mas pode empurrar a sua inteligência até o limite.
Veja Os pobres ficam menos deprimidos do que os ricos?
Solomon
Não,
os pobres são mais propensos a ser deprimidos. O problema é
que muitos deles nem mesmo têm idéia de que sofrem da doença.
A razão é simples: quando se é pobre, é quase
natural atribuir todo e qualquer sofrimento às dificuldades de
uma vida miserável. Já os que levam uma vida confortável,
de classe média, quando se sentem mal tentam entender os motivos
disso e buscar ajuda.
Veja O senhor é assumidamente bissexual. Homossexuais
tendem a ser mais deprimidos?
Solomon
Sim,
e há uma série de razões para isso. A principal delas
é a intolerância que ainda existe na sociedade. Além
disso, muitos homossexuais são vítimas de uma grande rejeição
dentro de sua própria casa, e isso é um grande trauma. Também
deve ser levado em conta que pessoas sozinhas, sem uma relação
amorosa estável, têm mais probabilidade de sofrer de depressão.
E, como a maioria dos gays vive nessa situação, isso ajuda
a explicar a alta incidência da depressão nesse segmento.
Veja Como o senhor está hoje?
Solomon
Estou bem. Às vezes caio, depois me levanto. Mas não consigo
livrar-me do medo. Se em determinados dias me sinto mal, ao invés
de pensar que isso é comum na vida de qualquer pessoa, logo imagino
que outra vez estou entrando em crise. Tenho a sensação
de que a depressão está sempre à espreita.
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