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Edição 1 774 - 23 de outubro de 2002
Entrevista: Andrew Solomon

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A visita
ao inferno

Autor de um excelente tratado sobre
depressão, o escritor americano fala
de sua convivência com a doença

Anna Paula Buchalla

 

"Sabe aquela sensação de queda livre que se
tem em sonho?
A depressão é ter essa sensação prolongada
por dias e dias"

O escritor americano Andrew Solomon foi ao inferno e voltou. Ele era um romancista de sucesso quando, aos 31 anos, se viu mergulhado numa depressão profunda. Essa experiência é minuciosamente relatada no livro O Demônio do Meio-Dia (Editora Objetiva; 504 páginas), que está previsto para chegar nesta semana às livrarias do país. Sucesso de vendas nos Estados Unidos, ele já foi traduzido em 21 línguas e indicado para o Prêmio Pulitzer 2002, na categoria não-ficção. Não se trata de um livro de memórias. O drama de Solomon é pano de fundo para um dos mais completos tratados já escritos sobre a depressão. A doença é analisada do ponto de vista químico, psicológico, filosófico, histórico, político e cultural, sem a pretensão – e nem é esse o objetivo – de ser uma obra conclusiva sobre o assunto. Hoje com 38 anos, Solomon, que é colaborador das revistas New Yorker e New York Times Magazine, teve três recaídas, uma delas enquanto escrevia o livro. "A depressão está sempre à espreita", diz. De seu apartamento, em Nova York, ele deu a seguinte entrevista a VEJA:  

Veja – É possível descrever o sofrimento causado pela depressão?
Solomon – Somente em parte. É um sofrimento inimaginável para quem nunca passou por isso. Meu primeiro episódio de depressão ocorreu quanto eu tinha 31 anos. Comecei a me sentir cada vez mais cansado, desinteressado, desconectado da vida. Até que passei a me arrastar para realizar tarefas rotineiras. Era dificílimo, por exemplo, ir até a geladeira, escolher uma comida, colocá-la no prato e levá-la à boca com um garfo. Depois veio a ansiedade, um misto de medo constante e falta de direção. Já pratiquei skydive e posso dizer que saltar de um avião a 4.000 metros de altitude é mais fácil do que amarrar os sapatos quando se está numa crise desse tipo. Sabe aquela sensação de queda livre que se tem em sonho? Pois bem, a depressão é ter essa sensação prolongada por dias e dias. Apesar de meu problema estar controlado, ainda sofro de uma depressão latente, que chamo de depressão de fundo. Tomo remédios e faço psicanálise. Essa é a fórmula para que eu consiga funcionar.

Veja – Não é triste depender desse suporte externo?
Solomon – De um certo ponto de vista, sim, é triste. Ao mesmo tempo, é preciso levar em conta que suportes externos foram incorporados de tal forma a nosso cotidiano que é ridícula a idéia de que poderíamos viver num estado plenamente natural. Se fosse assim, teríamos de deixar de escovar os dentes ou de seguir dietas balanceadas. Hoje, aceito que tenho depressão e que preciso conviver com o tratamento para ela. É o único jeito de ir para a frente.

Veja – Em geral, a depressão tem um fator desencadeante. No seu caso, a morte de sua mãe teve um peso importante.
Solomon – Esse acontecimento foi, sem dúvida, um dos fatores desencadeantes da minha depressão, especialmente por causa das circunstâncias que o cercaram. Primeiro, minha mãe recebeu o diagnóstico de câncer de ovário. Depois, submeteu-se a um longo e penoso tratamento. Por último, quando já não havia esperança, ela decidiu se matar tomando remédios. Fez isso na minha presença, na de meu pai e na de meu irmão. Antes de se matar, virou-se para mim e disse: "Não faça de minha morte o grande acontecimento da sua vida". Todo esse processo, evidentemente, representou um grande trauma para mim. Acredito que todas as pessoas que, como eu, tiveram depressão severa podem dizer que a doença veio depois de um evento marcante – que pode ser negativo, como a perda de uma pessoa querida, ou positivo, como o nascimento de um bebê. Mas nem sempre o gatilho da primeira crise é identificável como a causa das recaídas. E isso é motivo de mais sofrimento. Para tentar minorá-lo, eu mesmo, em alguns instantes, cheguei a tentar forjar uma causa palpável para o meu estado.

Veja – Como assim?
Solomon – Eu me expus a situações de risco, na tentativa de estabelecer aos olhos do mundo um motivo para o meu desespero. Como é impossível contrair um câncer voluntariamente, decidi pegar Aids. Durante três meses, mantive relações sexuais com estranhos que eu presumia infectados, correndo riscos cada vez maiores e mais diretos. Por sorte, apesar dos meus comportamentos destrutivos, a razão acabou prevalecendo. Quando me senti melhor, consegui enxergar o absurdo de tudo aquilo.

Veja – Houve uma banalização do termo "depressão". Qual a diferença entre depressão e tristeza?
Solomon – Eu diria que, enquanto o oposto de tristeza é felicidade, o contrário de depressão é vitalidade. Estar deprimido não significa sentir-se principalmente triste. A tristeza é apenas uma parte desse sentimento. A depressão traz uma sensação pesada de morte, de desespero, de falta de energia. É um erro, portanto, usar o termo "depressão" para definir um estado de melancolia ou algo que o valha. Também está na moda encarar a depressão como uma doença moderna. Não há nada de moderno na depressão. O grego Hipócrates, considerado o pai da medicina, já estudava uma possível cura para a doença no século V a.C.  

Veja – A vida moderna não é um terreno fértil para a depressão?
Solomon – Como digo no meu livro, as taxas crescentes de depressão são uma conseqüência da modernidade. O ritmo frenético do dia-a-dia, o colapso da estrutura familiar e a competição acirrada têm um efeito devastador sobre as pessoas. Como esses fatores não existiam no passado, havia menos risco de vir à tona a vulnerabilidade à depressão. Mas essa vulnerabilidade sempre existiu.

Veja – O senhor lançou-se numa pesquisa exaustiva sobre os remédios antidepressivos atualmente existentes. O que concluiu a respeito?
Solomon – Que a ciência avançou muito no desenvolvimento de drogas com menos efeitos colatelvetica, sans-serif" size="2" color="#000000"> Veja – O senhor lançou-se numa pesquisa exaustiva sobre os remédios antidepressivos atualmente existentes. O que concluiu a respeito?
Solomon – Que a ciência avançou muito no desenvolvimento de drogas com menos efeitos colaterais. Ainda estamos longe, contudo, de uma droga realmente efetiva para a doença. Isso porque a depressão não é apenas uma disfunção na química cerebral. Ela diz respeito também à forma como a pessoa encara a vida e reage aos problemas do dia-a-dia. Não existe um caso de depressão igual a outro – cada experiência é muito particular. Por isso, um remédio pode funcionar para um e ser ineficiente para outro. A taxa média de eficácia dos antidepressivos hoje gira em torno de 50%. Talvez no futuro tenhamos um aprimoramento na descrição dos subtipos de depressão e, com isso, possamos determinar quais os remédios mais indicados para esse ou aquele caso.  

Veja – Como foi sua experiência com tratamentos alternativos, como o uso da erva-de-são-joão?
Solomon – Comigo não deu resultado. Há um grande estudo publicado nos Estados Unidos que diz que a erva-de-são-joão é tão útil quanto um placebo. Mas não faço objeções a esses tipos de tratamento. Conheço pessoas que realmente se beneficiaram deles. Sou da opinião de que, se algo faz bem, o melhor é ir em frente. Antes de optar, no entanto, por este ou aquele tratamento, o mais razoável é verificar quais possibilidades têm taxas de sucesso mais altas.

Veja – O senhor diz que, nos últimos anos, aumentou a intolerância social em relação às vítimas do problema. Por quê?
Solomon – Porque, embora não haja um medicamento realmente eficiente para o problema, a crença generalizada é a de que ele existe. E como todos sabem o que supostamente funciona contra a depressão, a cobrança é grande. Quando uma pessoa ouve que alguém está deprimido, a primeira pergunta que faz é: "Mas por que ele não toma um remédio?". Uma vez ouvi uma mulher dizer a seu filho: "Você tem problemas? Tome Prozac, supere-os e então me procure". As pessoas simplesmente não aceitam o fato de que a depressão pode ser algo incurável e até mesmo parte da personalidade de uma pessoa.  

Veja – O senhor relata situações em que, embora estivesse deprimido, teve de simular que não estava passando mal.
Solomon – É sempre mais fácil dizer "eu tive depressão" do que "estou deprimido". Ao falar do problema no passado, o sentimento é o de que se venceu uma batalha – o que não ocorre, evidentemente, quando se está em meio a uma crise. Há ainda, como já disse, uma exigência externa que leva a que se esconda a depressão. Em nossa sociedade, ser feliz tornou-se uma obrigação. Quem não consegue é visto como um fracassado. Tive um pequeno episódio de depressão na última primavera e pensei: "Escrevi um livro sobre a doença, todos sabem da minha depressão e, ainda assim, sinto-me estigmatizado socialmente".  

Veja – A terapia cognitiva comportamental é muito utilizada para tratar pacientes com pânico e fobias. Nesse tipo de tratamento, uma pessoa com medo de avião é incentivada a voar até que consiga controlar esse medo. Recentemente, ela passou a ser usada em pacientes com depressão. O que o senhor pensa a respeito?
Solomon – É um bom caminho. Os pensamentos do paciente de depressão seguem a lógica do negativismo. Na terapia cognitiva comportamental, tenta-se inverter essa lógica, mostrando ao deprimido que é possível encontrar saídas para o círculo vicioso no qual ele chafurda. Esse método é chamado de "otimismo aprendido". Hoje, já se sabe que os efeitos da terapia cognitiva podem ser os mesmos de determinados medicamentos. Mas é a combinação de remédios com tratamento psicológico que traz os melhores resultados. A medicação pode sozinha tirar alguém de uma crise depressiva, mas não o ajuda a realizar mudanças na sua maneira de ser que evitem as manifestações mais agudas da doença. As terapias atuam nesse sentido.

Veja – E a psicanálise?
Solomon – Todas as psicoterapias têm origem na psicanálise, e mesmo quem menospreza Freud tem de reconhecer esse fato. Na essência, a psicanálise é exclusivamente um processo de autoconhecimento. Ela é hábil ao explicar certos comportamentos, mas não é eficiente para mudá-los a curto prazo. Coisa, aliás, a que não se propõe. Se esse é o objetivo, há terapias mais efetivas, como a cognitiva comportamental. No entanto, quem sofre de depressão e faz psicanálise tem muito a ganhar. Ela pode fazer com que o paciente entenda mais a sua história e, conseqüentemente, perceba as origens da sua depressão. Nenhum especialista, entretanto, recomendaria a psicanálise para uma vítima de depressão aguda ou para alguém à beira do suicídio. Psicanálise é um processo longo, que exige disponibilidade intelectual e empenho emocional do paciente.

Veja – A depressão tem algo a ensinar?
Solomon – O que posso dizer é que a minha depressão me fez um homem mais gentil e mais compreensivo. Além disso, depois que se sofre um tormento desses, aprende-se a extrair prazer das pequenas coisas da vida. Não acredito que a depressão, por si só, seja construtiva ou produtiva. O que conta nesse processo é a mudança por que passa a sua personalidade.

Veja – A depressão é um mal associado a pessoas intelectualmente sofisticadas. O senhor vê algum fundamento nisso?
Solomon – Pessoas que passam por uma experiência dessas e conseguem desenvolver um novo entendimento sobre si mesmas tornam-se mais aptas para compreender o mundo. A depressão não é sintoma de inteligência. Mas pode empurrar a sua inteligência até o limite.

Veja – Os pobres ficam menos deprimidos do que os ricos?
Solomon – Não, os pobres são mais propensos a ser deprimidos. O problema é que muitos deles nem mesmo têm idéia de que sofrem da doença. A razão é simples: quando se é pobre, é quase natural atribuir todo e qualquer sofrimento às dificuldades de uma vida miserável. Já os que levam uma vida confortável, de classe média, quando se sentem mal tentam entender os motivos disso e buscar ajuda.

Veja – O senhor é assumidamente bissexual. Homossexuais tendem a ser mais deprimidos?
Solomon – Sim, e há uma série de razões para isso. A principal delas é a intolerância que ainda existe na sociedade. Além disso, muitos homossexuais são vítimas de uma grande rejeição dentro de sua própria casa, e isso é um grande trauma. Também deve ser levado em conta que pessoas sozinhas, sem uma relação amorosa estável, têm mais probabilidade de sofrer de depressão. E, como a maioria dos gays vive nessa situação, isso ajuda a explicar a alta incidência da depressão nesse segmento.

Veja – Como o senhor está hoje?
Solomon – Estou bem. Às vezes caio, depois me levanto. Mas não consigo livrar-me do medo. Se em determinados dias me sinto mal, ao invés de pensar que isso é comum na vida de qualquer pessoa, logo imagino que outra vez estou entrando em crise. Tenho a sensação de que a depressão está sempre à espreita.

 
 
   
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