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Gustavo Franco

As eleições
e o mercado

"Nas democracias mais maduras a
volatilidade do período eleitoral é
reduzida pela não-sobreposição dos
mandatos do presidente da República
e dos dirigentes do banco central"


Ilustração Ale Setti


Esta transcendência, tida como maligna por muita gente, conhecida como o mercado, tem sido um fator perturbador para o processo eleitoral.

Não é um problema com o modo de produção capitalista, tampouco com a proverbial esperteza do brasileiro. Os mercados financeiros têm enorme importância em qualquer economia de mercado deste mundo, e onde quer que existam eleições os mercados ficam assanhados.

Pela sua própria natureza, os mercados financeiros transacionam o futuro, sempre trazido a valor presente, como uma coleção de opções, cada qual com seu preço, sendo este relacionado com probabilidades.

O futuro, portanto, no dizer dos operadores, "está no preço". Se alguma coisa muda quanto à percepção do futuro, os preços reagem imediatamente. Se o futuro é incerto, e as possibilidades são muitas, e mudam com muita rapidez, os mercados ficam voláteis e a economia sofre. A volatilidade é o elemento natural do especulador e um veneno para a economia real. Deveríamos, portanto, pensar em maneiras de reduzir a volatilidade especialmente durante o período eleitoral, não apenas porque ela tem custos econômicos, mas também porque interfere na democracia.

Em quase todas as democracias mais maduras esse problema é reduzido com a não-sobreposição dos mandatos do presidente da República e dos dirigentes do banco central. Aqui, infelizmente, adotou-se um entendimento rasteiro sobre esse assunto, tanto pelo governo como pela oposição. Ou seja, ambos resolveram que não iriam cooperar em reduzir os custos econômicos da eleição, talvez imaginando que saberiam tirar melhor proveito da volatilidade.

O governo se serviria do mercado para fazer aumentar o receio com as mudanças propostas pela oposição. E esta seria vaga ou monossilábica sobre o futuro a fim de criar tensão nos mercados e dizer que isso estaria a refletir a vulnerabilidade do modelo econômico.

Ninguém está inocente da prática do chamado "terrorismo eleitoral", e quem leva chumbo é o Banco Central, que não tem elementos para domesticar o mercado em meio a esse fogo cruzado. Como qualquer terrorismo, a variedade eleitoral também produz vítimas inocentes, a economia real, machucada pelo excesso de volatilidade.

É importante que o leitor pergunte a seu congressista por que em 1997 a Câmara não votou uma emenda constitucional, aprovada em dois turnos no Senado, que permitia a regulamentação em etapas do Artigo 192 da Constituição, que diz respeito ao sistema financeiro e ao Banco Central.

Em 1997 já havia inclusive uma proposta do Executivo para uma lei complementar dando mandatos de quatro anos aos oito diretores do BC, mas em escalas, de tal sorte que a cada ano dois dirigentes fossem substituídos.

Se esse projeto tivesse sido aprovado, o presidente eleito indicaria dois diretores para o BC imediatamente após sua posse, e dois outros (dentre estes o presidente do banco) no ano seguinte, e assim sucessivamente. No último ano de seu mandato o presidente da República teria indicado os oito diretores do BC, e a partir do início do segundo ano de governo já teria indicado quatro diretores, um dos quais o presidente. Portanto, teria controle.

Não deve haver um pingo de dúvida de que, se esse sistema estivesse em vigor, não estaríamos vivendo essa turbulência toda. Isso ocorreria se oposição e situação tivessem resolvido adotar posturas cooperativas no tocante às regras da democracia. Infelizmente, estamos vivendo um triste exemplo do chamado "equilíbrio de Nash". Quem viu Uma Mente Brilhante, Oscar de melhor filme de 2001, sabe do que se trata: os participantes do "jogo" eleitoral adotam posturas não cooperativas, temendo que, mesmo ganhando alguma coisa ao cooperar, estejam concedendo alguma vantagem ao adversário. Na verdade, como o pior cenário é ser cooperativo quando o adversário não o é, o conflito é a situação de "equilíbrio", sendo esta a pior situação para a comunidade onde tem lugar o jogo eleitoral.

E não há nada que o Banco Central possa fazer.


Gustavo Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)

 
 
   
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