Brasil aos pedaços
"Dar rumos comuns à
nação não é só fazer
projetos de lei e dizer frases na televisão, como
parecem pensar muitos membros do Legislativo e do Executivo"
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Ilustração: Alê
Setti

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As notícias sobre o deslanche das exportações
do Estado do Amazonas merecem reflexão. Registrou-se
no ano passado um aumento de 136% nas vendas estaduais ao
exterior. A retração do mercado interno, de
um lado, e o barateamento das exportações
depois da desvalorização do real, de outro,
explicam esse fenômeno. Entretanto, a construção
da BR-174, ligando Manaus a Caracas, vai amarrar mais solidamente
o Amazonas à economia do Caribe.
Sempre houve uma atração caribenha sobre
a Amazônia. As investidas francesas e holandesas na
região no século XVII nada tinham a ver com
o Brasil propriamente dito. Destinavam-se a fincar bases
na rota do Caribe. A corrente das Guianas, que empurra tudo
para o norte a partir do Cabo de São Roque, no Rio
Grande do Norte, cortava a área do resto do Brasil.
Para resolver o problema, a coroa criou o Estado do Grão-Pará
e Maranhão, em 1621, diretamente ligado a Lisboa,
de onde era mais fácil chegar ao litoral amazônico
do que da Bahia ou do Rio de Janeiro.
No Brasil daquela época, cada região tinha
seu próprio norte. A Bahia exportava tabaco para
a Costa da Mina, de onde trazia africanos, Pernambuco ajudava
os portugueses a pilhar Angola, o Rio de Janeiro fazia triangulação
com Buenos Aires e Luanda em negócios envolvendo
a prata e escravos, São Paulo mancomunava-se com
bandoleiros do Paraguai para saquear as missões jesuíticas.
Esse Brasil aos pedaços se tornou uma só coisa
depois que surgiu o ouro no coração da América
do Sul. Em torno do grande polígono mineiro, formado
pelas minas de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais,
constituiu-se o mercado interno que engendrou o país
nascido em 1822. O peso decisivo do Rio de Janeiro ajudou
a manter as regiões brasileiras unidas.
Agora, numa fase de longa retração no mercado
interno, há de novo pólos magnéticos
se ativando no sul e no norte do país. Com hidrovias
e novos mercados, o Mercosul funda uma geografia econômica
que engloba os Estados sulinos. No Norte surge este Merconorte
que puxa a Amazônia para o Caribe para um mercado
de 30 bilhões de dólares, de valor aparentemente
igual ao do Mercosul, mas bem diferente em razão
de duas circunstâncias importantes. Em primeiro lugar,
há o Merconorte da bandidagem, dos traficantes colombianos
e outros, associados a seus congêneres brasileiros.
Agindo numa região onde a autoridade republicana
brasileira sempre foi débil, esses setores estão
criando uma poderosa economia do crime. Em segundo lugar,
há o magnetismo de Miami, a nova Roma do mundo latino-americano.
Ah, na história americana Miami é qualquer
coisa! Depois da Guerra da Secessão, quando o mercado
interno dos Estados Unidos foi unificado, Boston afirmou-se
como a grande capital econômica e cultural da aristocracia
nortista que dominava o país. Após a I Guerra
Mundial, quando o dólar venceu a libra inglesa nas
finanças internacionais, Boston passou o bastão
para Nova York, capital cosmopolita da nova potência
mundial. Agora Miami aparece como a primeira capital de
um subsistema latino da dominação americana
do mundo, à espera de que Los Angeles se afirme como
capital do subsistema asiático.
Diante desses desafios, coloca-se o problema do governo
federal e da própria capital federal brasileira.
Nem Brasília nem nenhuma outra capital brasileira
jamais poderá vir a ter a preeminência que
o Rio de Janeiro simultaneamente capital política,
econômica e cultural do país exerceu no
Brasil durante um século e meio. Dar rumos comuns
à nação não é só
fazer projetos de lei e dizer frases na televisão,
como parecem pensar muitos membros do Legislativo e do Executivo.
Muito mais que isso, é preciso demonstrar aptidão
política para limitar o esgarçamento social,
juntar vontades e destinos, seguir o movimento do mundo
e impedir que ressurja um Brasil aos pedaços. Na
situação atual, inércia e inépcia
formam uma combinação mortal para as nações.
Luiz Felipe de Alencastro
é historiador