Edição 1 637 - 23/2/2000

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Um estranho no ninho

 

Arte de Alê Setti sobre foto de Ronny Hein
O papa, em sua eterna cruzada antiaborto, lançou um novo alarme contra o baixo índice de natalidade dos italianos. Eu me pergunto: quem é ele para reclamar que os outros não procriam? Um dos dogmas irrenunciáveis de sua função eclesiástica não é, justamente, a renúncia a ter filhos? O senador e cineasta Franco Zeffirelli foi ainda mais longe, sugerindo que as mulheres que recorrem a abortos sejam decapitadas em praça pública. Desnecessário dizer, claro, que Zeffirelli nunca teve nem nunca terá uma mulher ou um filho. O fato é que, no mesmo período em que o papa e Zeffirelli faziam seus pronunciamentos, fui informado de que minha mulher estava grávida. O meu impulso natural, ouvindo-os, seria correr para o hospital mais próximo. O aborto é legal na Itália, graças a um referendo de 1974. Depois de refletir por alguns dias, porém, acabamos por descartar essa opção. E, em setembro, serei pai.

Eu nunca imaginei que viesse a ter um filho. A recusa da paternidade foi uma das poucas certezas que jamais questionei em minha vida. Eu detesto crianças. Muito melhor do que uma criança é um cachorro. Infelizmente, a probabilidade de que meu filho nasça igual a um basset hound é um tanto remota. Eu também ficaria satisfeito com um filho-tartaruga: toda vez que ele se agitasse demais, bastaria revirá-lo de barriga para cima, e ele permaneceria imóvel, em silêncio, sacudindo os bracinhos.

Imagino que todo pai tenha um medo danado de não gostar do próprio filho. Não deve ser uma eventualidade tão rara assim. Ter um filho, a meu ver, equivale a enfiar um completo estranho dentro de casa. É como se eu convidasse o gerente do meu banco a morar comigo e, ainda por cima, passasse a sustentá-lo. Porque nada exclui que meu filho tenha uma cabeça idêntica à do gerente do meu banco. O que vai acontecer, por exemplo, se meu filho gostar dos filmes de Zeffirelli? O que eu posso fazer para impedi-lo? E se ele tiver o desplante de desaprovar o que eu escrevo? Se não achar graça neste artigo?

A solução perfeita, para contornar esses casos, seria mudar a legislação relativa ao aborto. Na Itália, o aborto é permitido até o terceiro mês de gravidez. Eu estenderia esse prazo até o décimo quinto aniversário da criança. Seria uma arma potentíssima nas mãos dos pais. Faríamos crianças obedientes e solícitas. Aterrorizadas com a possibilidade de que pudéssemos descartá-las de um momento para o outro, elas sempre fariam de tudo para nos agradar. A idéia é muito boa. O único problema será convencer o papa e Zeffirelli sobre os benefícios da nova lei.

Por fim, minha mulher suspeita que eu tenha concordado em ter esse filho apenas porque não tinha assunto para o artigo desta semana. Parece-me um motivo tão válido quanto qualquer outro.