Um estranho no ninho
Arte de Alê Setti sobre foto de Ronny
Hein
O
papa, em sua eterna cruzada antiaborto, lançou um
novo alarme contra o baixo índice de natalidade dos
italianos. Eu me pergunto: quem é ele para reclamar
que os outros não procriam? Um dos dogmas irrenunciáveis
de sua função eclesiástica não
é, justamente, a renúncia a ter filhos? O
senador e cineasta Franco Zeffirelli foi ainda mais longe,
sugerindo que as mulheres que recorrem a abortos sejam decapitadas
em praça pública. Desnecessário dizer,
claro, que Zeffirelli nunca teve nem nunca terá uma
mulher ou um filho. O fato é que, no mesmo período
em que o papa e Zeffirelli faziam seus pronunciamentos,
fui informado de que minha mulher estava grávida.
O meu impulso natural, ouvindo-os, seria correr para o hospital
mais próximo. O aborto é legal na Itália,
graças a um referendo de 1974. Depois de refletir
por alguns dias, porém, acabamos por descartar essa
opção. E, em setembro, serei pai.
Eu nunca imaginei que viesse a ter um filho. A recusa
da paternidade foi uma das poucas certezas que jamais questionei
em minha vida. Eu detesto crianças. Muito melhor
do que uma criança é um cachorro. Infelizmente,
a probabilidade de que meu filho nasça igual a um
basset hound é um tanto remota. Eu também
ficaria satisfeito com um filho-tartaruga: toda vez que
ele se agitasse demais, bastaria revirá-lo de barriga
para cima, e ele permaneceria imóvel, em silêncio,
sacudindo os bracinhos.
Imagino que todo pai tenha um medo danado de não
gostar do próprio filho. Não deve ser uma
eventualidade tão rara assim. Ter um filho, a meu
ver, equivale a enfiar um completo estranho dentro de casa.
É como se eu convidasse o gerente do meu banco a
morar comigo e, ainda por cima, passasse a sustentá-lo.
Porque nada exclui que meu filho tenha uma cabeça
idêntica à do gerente do meu banco. O que vai
acontecer, por exemplo, se meu filho gostar dos filmes de
Zeffirelli? O que eu posso fazer para impedi-lo? E se ele
tiver o desplante de desaprovar o que eu escrevo? Se não
achar graça neste artigo?
A solução perfeita, para contornar esses
casos, seria mudar a legislação relativa ao
aborto. Na Itália, o aborto é permitido até
o terceiro mês de gravidez. Eu estenderia esse prazo
até o décimo quinto aniversário da
criança. Seria uma arma potentíssima nas mãos
dos pais. Faríamos crianças obedientes e solícitas.
Aterrorizadas com a possibilidade de que pudéssemos
descartá-las de um momento para o outro, elas sempre
fariam de tudo para nos agradar. A idéia é
muito boa. O único problema será convencer
o papa e Zeffirelli sobre os benefícios da nova lei.
Por fim, minha mulher suspeita que eu tenha concordado
em ter esse filho apenas porque não tinha assunto
para o artigo desta semana. Parece-me um motivo tão
válido quanto qualquer outro.