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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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DVD

Universal Pictures

Galinhas: toneladas de massinha


A Fuga das Galinhas
(Chicken Run, Inglaterra, 2000. Universal) – Num campo de concentração, um grupo de mulheres inglesas bola planos de fuga para escapar à morte certa, até que a chegada de um aventureiro ianque muda sua sorte. É só substituir os termos da frase acima por "granja" e "galinhas" e tem-se o enredo desta deliciosa animação, para a qual os diretores ingleses Nick Park e Peter Lord converteram 3 toneladas de massinha de modelar em personagens impagáveis, como o galo Rocky (voz de Mel Gibson) e a adorável e burrinha galinha Babs (Jane Horrocks). Dois documentários explicam o complicado processo de produção. Ao mesmo tempo, a Universal lança em vídeo três episódios da série Wallace & Gromit, com que Park se tornou conhecido.

Coleção Dirty Harry (Warner) – Em 1971, já um astro graças aos faroestes-espaguete do italiano Sergio Leone, Clint Eastwood topou com o papel que se tornaria o mais definitivo de sua carreira: o detetive Harry "O Sujo" Callahan, uma espécie de lobo solitário da força policial de San Francisco. De poucas palavras e paciência curta, o personagem se notabilizou pelos métodos ambíguos e tenazes com que caçava os bandidos. Até 1988, Eastwood encarnou Harry em cinco filmes: Perseguidor Implacável, Magnum 44, Sem Medo da Morte, Impacto Fulminante e Dirty Harry na Lista Negra. Todos estão nesta coleção, que inclui alguns making of da época (mais curiosos do que propriamente elucidativos) e longas entrevistas com os envolvidos na série.

 

LIVROS

Ossos de Sépia, de Eugenio Montale (tradução de Renato Xavier; Companhia das Letras; 230 páginas; 27 reais) – O italiano Eugenio Montale (1896-1981) é um autor relativamente bem divulgado no Brasil. Uma antologia de seus versos, Poesias, e o livro Diário Póstumo (ambos da editora Record) já estavam nas estantes do país, mas este novo lançamento é precioso. Ossos de Sépia foi a primeira obra do poeta, vencedor do Prêmio Nobel em 1975. Vários de seus textos, como "Casa sobre o Mar", fazem parte da memória coletiva italiana. Não se trata, contudo, de uma literatura fácil. Montale costumava partir de fatos concretos para criar poemas enigmáticos, de significado fugidio. É preciso lê-lo com dedicação e vagar. Compensa – e o leitor será ajudado pela boa tradução e pelas boas notas da edição.

O Livro dos Códigos, de Simon Singh (tradução de Jorge Calife; Record; 446 páginas; 48 reais) – Ao contrário da biologia e da física, a matemática é uma ciência que ainda não conta com um grande contingente de autores de divulgação – aqueles que, além de trocar em miúdos conceitos complicados, conseguem entreter os leitores leigos. O inglês Simon Singh é uma exceção. Há três anos ele emplacou um best-seller, O Último Teorema de Fermat, sobre um enigma da matemática que resistiu por quase quatro séculos às tentativas de resolução. Agora, ele conta a história dos códigos utilizados para manter informações sigilosas, desde a antiguidade e seus papiros até os dias de hoje e a internet. O livro traz gráficos e equações, mas não só: traça perfis de geniais criadores e decifradores de códigos e fala das mensagens cifradas que decidiram o destino de reis e guerras.

 

DISCOS

Marvin Gaye and Friends, Marvin Gaye (Universal) – Antes de estourar com What's Going On (1971), Marvin Gaye fez de tudo na gravadora Motown. Tocou bateria nos discos de Stevie Wonder, gravou músicas sob encomenda e serviu de parceiro para cantoras da casa. Essa faceta de duetista é explorada nesta coletânea. Gaye cantava soberbamente e ajudava suas colegas a brilhar. Fez isso com Mary Wells e Kim Weston, mas principalmente com Tammi Terrell. A química entre os dois era tão boa que muitos pensavam que eles eram um casal de verdade. Gaye e Terrell aparecem juntos em oito canções, entre elas a belíssima Ain't Nothin' Like the Real Thing. O CD traz ainda quatro duetos do cantor com Diana Ross – mas esses já foram gravados no auge de sua fama.

The Collection, Lynyrd Skynyrd (Universal) – Esse grupo americano saiu de cena em 1977, depois de um acidente de avião que matou três de seus integrantes (entre eles o cantor e líder Ronnie Van Zant). Até então, o Lynyrd Skynyrd era o principal expoente do country-rock americano, combinando música caipira do sul dos Estados Unidos com guitarras barulhentas – o grupo tinha uma formação incomum, com três guitarristas. The Collection traz sucessos como Sweet Home Alabama e Gimme Three Steps, que embalaram muitas festas nos tempos da bata indiana e da calça boca-de-sino. Algumas canções boas e menos manjadas, como Swamp Music, também foram pinçadas para compor o cardápio.

 
LITERATURA BRASILEIRA

Toda Prosa
Márcia Denser;
Nova Alexandria;
158 páginas;
25 reais

A esta altura, infelizmente, talvez seja preciso reapresentar Márcia Denser. Ela estreou em 1976, com os contos de Tango Fantasma, e consagrou-se em seguida, com livros como O Animal dos Motéis. Por seu jeito ousado de falar sobre sexo (ou sobre a mulher sexualmente livre), chamavam-na de "Henry Miller de saias". O jornalista Paulo Francis costumava celebrá-la. "É a única mulher brasileira que sabe escrever", dizia. No começo dos anos 90, Márcia lançou A Ponte das Estrelas. Saga esquisitona, a obra não encontrou leitores. Deve ter sido uma experiência incômoda. Depois disso, a autora não publicou virtualmente nada. Sumiu das livrarias. Toda Prosa marca, portanto, o seu retorno depois de um longo tempo. Tomara que seja para valer. Márcia é uma autora original e forte.

A coletânea traz nove textos, quatro deles inéditos. Entre os antigos, a novela Exercícios para o Pecado, ambientada no "mundo literário", e o excelente conto O Último Tango em Jacobina, sobre o flerte entre um mecânico e uma menina rica, demonstram o talento da autora para captar com deliciosa crueldade os detalhes do intercâmbio social em hábitat paulistano. Entre os inéditos, Nevermore faz lembrar o universo fantasioso de A Ponte das Estrelas, enquanto Trade Lights é um conto sobre identidades sexuais cruzadas, escrito com voz masculina.

Márcia é uma autora de estilo complexo, que oscila entre a frase límpida e o parágrafo opulento, preciosista. Um bom paralelo é com a inglesa Angela Carter. Elas têm muito em comum: a geração, a temática feminina, a linguagem rica. O escritor Salman Rushdie, fã de Carter, certa vez disse que seus textos tinham "cadências de opiômana interrompidas por dissonâncias cômicas, misturas de grandiosidade e bobagem, altos vôos e quedas livres". São boas palavras também para Márcia Denser.

Carlos Graieb

 

 

   
 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano, Fnac; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura; Maceió: Sodiler.

 

   
 
   
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