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A faculdade do interior"O
dedo acusador
contra toda faculdade E
Mas ensino superior não é só isso. Fui recentemente visitar uma faculdade nos fundões das Minas Gerais. De colegiozinho, foi crescendo e virou faculdade. De tão mal construído, o primeiro prédio rachou. Mas, nos mais novos, com granito na entrada, as salas de aula dão inveja a muita federal. Os professores são os talentos locais, reforçados por alguns mestres de fora. A biblioteca é correta e os laboratórios impecáveis (exigência do MEC). Para algumas centenas de alunos, é a única chance de fazer um curso superior. Para a economia local, é mais uma atividade produtiva. Como essa, existem 566 faculdades (privadas e comunitárias) esparramadas pelo interior, com 300.000 estudantes. A maior parte faz o que pode, limitada pelas condições locais. Nos grandes centros, há doutores e mestres à vontade. No interiorzão, no máximo, um ou outro. A maioria consegue fechar o balanço, algumas privadas com um lucrinho, outras nem isso. E, como em todas as áreas, há os que se enriquecem sem oferecer em troca um ensino correto. O Provão nos diz quanto os alunos aprenderam ao se formar. Dificilmente uma dessas instituições mais modestas poderá brilhar com A e B no Provão. Na pesquisa que fiz com José F. Soares, mostramos que 80% da nota no Provão se deve ao nível do estudante ao entrar para o ensino superior. Ou seja, a qualidade do ensino oferecido pela faculdade só determina 20% do resultado. Quem recebe alunos fracos no vestibular está condenado a resultados modestos no Provão. Não existem mágicas, embora indivíduos possam dar grandes saltos por seu esforço. Pelo desvelo dos donos da instituição que visitei, certamente ela não tirará nota E. Mas, para efeito de discussão, suponhamos que tirasse. O MEC deveria ir lá e fechar a faculdade? Examinemos duas situações. Em uma, a instituição não oferece um ensino que atinja os padrões do MEC. É negligente, incompetente ou pobre demais. Não alcança um mínimo razoável de qualidade. Nesse caso, não tem perdão, que seja tratada com todo o rigor como já está acontecendo com algumas. Mas e se está tudo direitinho e o único pecado é receber alunos fracos? Na área médica ou em outras em que há questões de segurança envolvidas, que se exijam mínimos invioláveis. Mas, afora esses casos, será que os estudantes e a sociedade ganham ao se deixar operar uma escola que obtém nível E? Landeira-Fernandez (PUC/Unesa) e R. Primi (Universidade São Francisco) trazem a resposta. Tomam cinco faculdades de psicologia, de A a E. Em cada uma, aplicam o Provão aos calouros. Embora o teste seja para formandos, cultura e o uso do raciocínio lógico permitem que um calouro acerte várias perguntas. Os da faculdade A obtêm os escores mais altos, seguidos pelos da B, ficando por último os da faculdade E. Ou seja, a melhor instituição recebe os melhores alunos e produz os melhores diplomados. Mas podemos subtrair as médias do Provão oficial de cada faculdade da média do Provão aplicado aos calouros. Essa diferença nos dá os ganhos obtidos no decorrer do curso, o chamado valor adicionado. O da faculdade A é maior que o da B, e assim por diante. No entanto, mesmo os alunos da faculdade E têm um ganho de pontuação apenas ligeiramente menor. Ficam bem abaixo dos da faculdade A no final do curso, pois partem de uma base mais baixa. Mas, por estudarem quatro anos, crescem em pontuação quase o mesmo que os da faculdade A. O papel social e econômico de uma faculdade E não pode ser desprezado. Desde que o ensino seja correto (um papel nobre do MEC é verificá-lo implacavelmente), ela está oferecendo uma chance de crescimento a um aluno, em geral, mais pobre e vítima de uma educação prévia de má qualidade. O dedo acusador contra toda faculdade E não passa de ignorância, elitismo ou luta por reserva de mercado.
Claudio
de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
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