Bonito é nocautear
O baiano
que já treinou de barriga vazia
fala do encanto do boxe, da vaidade e
de como tem medo do futuro, a ponto
de querer virar político
Thaís
Oyama
Matuiti Mayezo/Folha Imagem
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"Naquele
quadrado só existem você e o adversário. E você
vai ter de decidir com ele quem é o melhor. Ringue é
coisa de homem" |

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No ringue,
ele é uma avalanche de pancadas, uma torrente de murros e cruzados,
um pit bull de luvas. Longe das cordas, vira pura manteiga derretida.
Acelino Popó Freitas, o brasileiro que derrotou 29 adversários
por nocaute e saiu invicto de 31 lutas, chorou ao ser proclamado o melhor
superpena da atualidade pela Associação Mundial de Boxe.
Para chegar ao ponto de enfrentar, e derrotar, o cubano Joel Casamayor,
na disputa que lhe deu o título, esse baiano de 26 anos treinou
de barriga vazia, dormiu no chão duro, viu a mãe, ex-faxineira,
se acabar de trabalhar, e o pai, ex-fanfarrão, se acabar de beber.
Até pouco tempo atrás, ainda estranhava quando funcionários
de hotéis se ofereciam para carregar sua mala. É esse passado
de privações que o leva a se preocupar com o futuro, tanto
que pensa até em virar político. Em entrevista a VEJA, falou
sobre os sofrimentos e as alegrias do boxe, confessou que apanha da mãe
até hoje e que chora vendo novela. À mulher, Eliana, rejurou
amor eterno e afirmou que, por ela, faz qualquer coisa até
terapia de casal.
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Joel Casamayor, o adversário que você derrotou na última
luta, afirmou que vai pedir a anulação do resultado, que
achou injusto. Você está preocupado?
Popó Injusto, o quê. O Brasil inteiro viu
a luta. Acho que ele está querendo é apanhar mais.
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Você reclamou muito que ele foi desleal no ringue.
Popó Ele me deu cotovelada, joelhada, queria me
morder. Mas eu tentei enforcar ele também.
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É isso que mais irrita você numa luta? Quando o adversário
recorre a golpes baixos?
Popó Não, isso não me dá raiva.
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O que dá raiva?
Popó Dá raiva quando eu bato e o cara não
cai. Na minha penúltima luta, com o africano, ele apanhou do primeiro
ao décimo round e não caiu. Isso me dá raiva.
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Você está mudando o seu jeito de lutar? Deixando de ser
um pegador?
Popó Não é que eu estou mudando. É
que, antigamente, eu só tinha uma dimensão, que era o nocaute.
Queria decidir uma luta rápido. Agora, não estou mais me
preparando para nocautear, mas para vencer.
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Como é entrar num ringue sabendo que vai apanhar, que vai sentir
dor?
Popó Você aprende a assimilar a dor. Geralmente,
a pancada não dói na hora. Você está com o
sangue quente, só pensando em ganhar. O problema é o dia
seguinte. Rapaz, aí você fica todo quebrado. Mas tem algumas
pancadas que doem na hora mesmo.
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Em que lugar do corpo dói mais?
Popó No fígado. Dependendo do soco, as pernas
ficam bambas, o pulmão aperta. Você quer respirar e a respiração
não vem. E,ww se você estiver mal preparado, as pernas vão
embora e você fica no chão mesmo. Isso é com golpe
na linha da cintura. Com golpe que nocauteia no rosto, você cai
e não sente nada. Só escurece a vista.
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O que você sentiu quando soube que tinha machucado gravemente
o russo Anatoli Alexandrov, em 1999, na França? Medo, pena?
Popó Eu não sinto dó porque a gente
está lá é para isso mesmo. Mas eu penso na mãe
dele. Fico pensando nela vendo aquela cena na televisão. Porque
eu sei o que a minha mãe passa quando estou lutando. Ela nunca
viu uma luta minha. Fica só no quarto, rezando, e só sai
quando a luta acaba. Mas no dia seguinte eu fui ao hospital visitar ele.
Não falei com ele porque ele ainda estava meio em coma.
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Qual é o maior encanto do boxe?
Popó Nocautear. Isso eu acho bonito.
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E antes do nocaute?
Popó Antes do nocaute, o bonito é você
enfrentar um cara que também treinou, que também está
na melhor forma dele. É saber que dentro daquele quadrado só
existem você e ele. E você vai ter de decidir com ele quem
é o melhor. É uma coisa bem de homem mesmo. Ringue é
coisa de homem.
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Você já foi criticado por chorar muito. Não tem
vergonha disso?
Popó Eu sou muito emotivo. Às vezes, estou
vendo novela e choro. Quando estou contente, choro. Se vejo alguém
chorando muito emotivamente, eu choro. Um programa de televisão
que eu choro toda vez que vejo é o Domingo Legal, quando
fazem aqueles negócios com criança: a criança tem
vontade de ir a um lugar e vai, tem vontade de ganhar um brinquedo e eles
dão. Choro porque eu vejo o que é a emoção
de conseguir um sonho.
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Você teve uma infância pobre, passou fome, dormiu no chão
até os 22 anos. Poderia ter tido um destino bem diferente. O que
o ajudou a escapar da marginalidade, por exemplo?
Popó Acho que foi a minha criação.
Em casa, são cinco homens e uma mulher. Graças a Deus, ninguém
bebe, ninguém fuma e ninguém deu para o que não prestasse.
A gente não dá um palavrão na frente de minha mãe
e de meu pai. Se falar, ela vem pra cima. Até hoje, se a gente
está conversando e sai um nome sem querer, a mãe vem mesmo.
Ela tem a mão pesada, dá cada tapão no ombro que
é pior do que um soco. Eu respeito muito a minha mãe. Ela
batalhou muito.
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Ela sustentava a casa sozinha?
Popó Meu pai trabalhava com jogo do bicho, e, naquela
época, era mulherengo e bebia. O dinheiro que ele tinha largava
na bebida. Minha mãe saía todo dia de manhã para
trabalhar na casa dos outros e voltava só à noite. Depois,
ainda ia passar o ferrinho no cabelo das vizinhas, um ferrinho de cachear
e alisar. A gente passou muita dificuldade. Acho que o campeão
que eu sou hoje é pela dificuldade que eu passei.
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Como foi que as dificuldades ajudaram?
Popó É que eu tenho de lutar para não
voltar ao que era antes. Um rico é diferente. O rico sempre teve
tudo. Quem foi pobre tem medo de ficar pobre outra vez. O Ulisses, meu
treinador, sabe disso. Ele até me deu um tapa na cara durante a
luta para eu lembrar.
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Como assim?
Popó No meio da luta ele viu que eu estava começando
a enrolar. Aí, me pegou e gritou: "Você não vai tirar
golpe, não, rapaz? É a sua vida, rapaz! Você quer
voltar ao que era antes, é?". Chegou na minha cara e pá!
Me deu um tapão. Aí eu dei uma acordada. Acho que um passado
que nem o meu funciona que nem um gás para eu vencer. Que nem um
gás, não. Que nem uma gasolina de avião.
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Você não parou de dar autógrafos desde que chegou.
Sua mulher tem ciúme do assédio das fãs?
Popó A Eliana não gosta quando vêm
aquelas cheias de risadinha, de fregezinho. Ela me dá uma cutucada
e eu fico bem duro, sem rir nem nada. No começo ela tinha ciúme.
Eu também. Você tem ciúme quando gosta, né?
Mas a gente foi para a psicóloga e amadureceu muito.
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Você quer dizer que fez terapia de casal?
Popó É, foi idéia dela. No começo,
eu dizia: "Ôxe, bobagem gastar dinheiro com isso". Mas eu topei
porque a Eliana é a mulher da minha vida.
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O que vocês discutem lá?
Popó O que a gente mais conversa é sobre
as brigas bestas. Ficar tocando em assunto de ex-namorado... essas coisas
que acabam em discussão. Eu aprendi a conversar. Agora, a gente
tem mais diálogo.
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Você se acha vaidoso?
Popó Muito. Sou igual mulher. Não posso passar
em frente de um espelho que eu dou uma olhada. Fico pondo pente no cabelo,
arrumando para tapar uma entradazinha que eu tenho aqui. Faço a
sobrancelha e a unha também, só não gosto de pintar.
E quando eu estou com a pele muito oleosa passo um pozinho para tirar
o brilho. Não tenho vergonha de falar isso. Todo mundo sabe que
eu sou homem.
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Você voltou dos Estados Unidos com um visual diferente.
Popó Eu estava deixando o cabelo crescer lá
em Palm Springs, mas aí vi um corte legal numa revista e fui a
um salão. Eles disseram que o cara tinha feito luzes. Pedi para
botarem luzes aqui na frente. Eles colocam uma touca na gente e vão
puxando os fios com um ferrinho.
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O que você achou dos Estados Unidos?
Popó Rapaz, eu achei que lá só é
um pouco diferente da Bahia. Porque lá as mulheres fazem topless
e os homossexuais beijam os outros homossexuais na frente de todo mundo,
e aqui em Salvador não existe isso, não. Eu também
reparei que a televisão passa muita miséria, muito crime.
Eu pensava: "O pessoal diz que o Brasil é um país violento
e aqui diz que é um país de Primeiro Mundo, e o sujeito
entra num colégio e mata um bocado de gente".
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E o seu inglês, como está?
Popó Está horrível. Estou pensando
em contratar um professor.
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Mas você deu uma entrevista em inglês no dia da luta.
Popó Foi só uma coisinha. Eu falei: "You
olimpic games Casamayor" [que, segundo Popó, significa: "O título
olímpico de Casamayor é meu"].
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Você está rico?
Popó Quisera eu. Antes dessa luta, a minha maior
bolsa tinha sido de 40 000 dólares. Até hoje, só
consegui comprar uma casa para mim e outra para minha mãe. Em cima
da laje dela, vou fazer uma para a minha irmã agora. Se Deus quiser,
vou botar casa para todos os meus irmãos. Se os caras [seus
ex-empresários] não tivessem levado 75% de todas as
minhas lutas, eu estaria melhor de vida. Mas isso aconteceu porque eu
deixava para lá. Achava que o que eles me davam estava bom. Para
quem não tinha nada, né?
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Até onde você quer chegar?
Popó Eu sou pé-no-chão. Só
boto a minha cabeça onde o corpo passa. Minha mãe me ensinou
isso. Por mim, eu faria lutas aqui no Brasil, faria as defesas que eu
tenho de fazer para manter meu título e pronto. Não queria
ficar desafiando um, desafiando outro. Eu não tenho um sonho de
consumo de ter todos os títulos. Quero um título que me
dê uma boa condição, financeira e moral também,
e já está bom.
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Você diz que pensa em se filiar ao PFL. Acha que seria
bom negócio deixar uma carreira esportiva em ascensão para
virar político?
Popó Eu quero largar o boxe na hora certa e tentar
ser alguém, pode ser na política. Quero ser deputado estadual.
Ah, vou quebrar o pau com aqueles caras, dar muita porrada ali no Congresso.
É um jeito de fazer os meus projetos sociais para as crianças.
Queria botar todo mundo para praticar esporte. Também tenho vontade
de ser apresentador de programa infantil.
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Como seria o programa?
Popó Eu iria levar alegria para a garotada. No Natal,
eu sempre me visto de Papai Noel, dou presentes. Na TV, penso em fazer
um quadro de realizações: levar a criança para conhecer
algum artista que ela sonha, dar casa, esse tipo de coisa. Não
quero ficar velho trocando soco e sendo escadinha de outros lutadores.
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Mas você acaba de conquistar um título importante e só
tem 26 anos.
Popó Até os 30 eu não chego lutando
boxe.
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George Foreman foi campeão mundial aos 45 anos.
Popó Você está falando de um americano
que vive nos Estados Unidos. Aqui, quando você está por cima,
está com tudo. Quando está por baixo, a imprensa parece
que quer te socar mais para baixo ainda.
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Nos Estados Unidos é diferente?
Popó Não, no mundo todo é assim. Só
que aqui, quando você começa a lutar, sua bolsa é
de 150 reais. Nos Estados Unidos, você ganha 2.000,
3.000 dólares quando está começando.
Luís Cláudio, meu irmão, por exemplo, sempre viveu
do boxe. Não sabe fazer mais nada. Não sabe mormente escrever
o nome dele, infelizmente. Disputou o título mundial e o máximo
que já ganhou na vida foi 20 000 reais.
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Não é o seu caso. O que se diz é que sua bolsa
já está em 1 milhão de reais.
Popó Porque eu estou ganhando. E quando eu perder?
Você acha que vai ser a mesma coisa? Eu tenho o pé no chão.
O que eu ganhar quero investir, para amanhã ou depois não
ficar fazendo luta por 150 reais. Não quero ter de ficar batendo
de porta em porta, pedindo ajuda. O boxe é uma roda-gigante. E
também é muito sofrimento.
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Quais são eles?
Popó Você tem de ter uma disciplina incrível,
tem de dormir cedo, acordar cedo, abdicar de muitas coisas.
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Sexo, inclusive?
Popó É, antes dessa luta eu fiquei dezoito
dias sem ter relação sexual. Mas a Eliana entende. Ela até
evita trocar de roupa na minha frente.
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Dos sacrifícios todos, qual é o maior?
Popó Tem vários. Mas eu gosto de comer de
tudo, por exemplo. Tem treinamento que eu perco de 2 a 2,5 quilos. Chego
em casa com uma fome danada e só posso comer um pedaço de
carne branca e salada. As críticas também são um
sofrimento. Eu tenho muito medo da imprensa. Porque, se ela quiser, ela
te bota lá embaixo. Esse é que é o meu medo também.
Eu não quero ficar lá embaixo. Eu quero largar o boxe como
um grande campeão.
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