Sérgio
Abranches
Os
tempos da política
"A
aceleração do tempo político, que define nomes muito
antes de a campanha começar para valer, faz com que essa corrida
eleitoral tenha tudo para ser complicada que as anteriores"
José
Serra conseguiu virar o primeiro jogo a seu favor. Reuniu na apresentação
de sua candidatura as principais cabeças coroadas do tucanato.
A costura interna evitou que a reunião fosse marcada por ausências
importantes, enfatizando resistências a seu nome. Ao reunir Tasso
Jereissati, Pimenta da Veiga, José Aníbal, Aécio
Neves e Geraldo Alckmin, entre outros tucanos coroados, mostrou capacidade
política, sua e da elite partidária, para superar divergências
e demonstrar unidade quando necessário.
Mas essa
é apenas uma das menores dificuldades entre as que o ministro da
Saúde terá de superar, numa campanha que pode enveredar
por uma rota acidentada. O problema que pode espalhar armadilhas para
Serra de agora até o início da campanha real, no horário
gratuito, no longínquo agosto, também afeta as outras candidaturas,
inclusive a de Lula.
O que está
acontecendo é um descolamento entre o tempo político e o
calendário eleitoral, perigoso para todos os que têm potencial
competitivo. Por circunstâncias muito específicas da conjuntura
nacional, o processo político passou a demandar definição
imediata de candidaturas, forçando uma exposição
precoce. A campanha está começando cedo demais, para todos.
Mas, em particular, para a candidatura governista. Ela ficará exposta
demais, por tempo demais, em um período que não é
de campanha.
Essa aceleração
do tempo político, que define nomes muito antes de a campanha começar
para valer, faz com que a corrida eleitoral deste ano tenha tudo para
ser mais complicada para os candidatos que as anteriores. Campanha presidencial
no Brasil só começa para valer quando se abre o palanque
eletrônico, com a propaganda eleitoral gratuita na TV. Mas a aceleração
do tempo político está pondo a campanha na rua e atropelando
o calendário eleitoral. Essa precocidade aumenta a incerteza eleitoral
e os riscos para as candidaturas. As convenções para escolher
os candidatos serão apenas em junho. Até lá, todas
as candidaturas são provisórias.
A ausência
de candidaturas naturais gera demanda por definição de nomes.
O único candidato natural, da perspectiva de seu partido, é
Lula. Nem por isso se livrou de problemas. A insistência do senador
Eduardo Suplicy em forçá-lo a uma prévia pode submetê-lo
a desgastante exposição pessoal com o único objetivo
de satisfazer o ego senatorial.
No caso
de Roseana Sarney, supondo-se que seja candidata, a antecipação
implica sustentar por quase cinco meses, sem apoio no programa televisivo
do partido, um porcentual que subiu muito, cedo demais.
Para José
Serra, o risco é ter sua competitividade determinada pela capacidade
de "decolar", antes do palanque eletrônico, com muito poucos recursos
disponíveis. Não é nada fácil, ainda mais
porque tudo indica que "decolar" seria saltar de 7% para perto de 15%.
Roseana
Sarney conseguiu, mas é difícil reproduzir esse caminho.
O contexto e as características pessoais da candidata criaram uma
empatia que elevou suas intenções de voto de 7% para 17%
no Ibope. As pesquisas indicam que as pessoas projetam em Roseana as qualidades
que valorizam. Com José Serra pode ser diferente. Sua relação
com os eleitores não é, até agora, empática,
é objetiva. Ele tende a ser avaliado pelo desempenho. Essa comparação
entre os dois não revela diferenciais de potencial eleitoral, mas
pode levar a trajetórias distintas na pesquisa. Serra pode necessitar
de mais tempo na televisão para adicionar 10 pontos porcentuais
de intenção de voto, porque precisará mostrar objetivamente
suas qualidades para convencer o eleitorado e obter adesão significativa.
Roseana
terá de manter a empatia, portanto a subjetividade, em seu relacionamento
com o público, ao mesmo tempo que será pressionada para
definir suas posições mais claramente. Posicionamentos que
gerem antipatia ou rejeição podem levar a perdas de apoio.
O risco é sofrer quedas rápidas. Para Serra, o perigo estaria
em avançar por pequenos incrementos, numa escada, com espaço
de várias semanas entre cada degrau, deixando os tucanos inquietos
e inseguros.
Serra parece
ter entendido corretamente a natureza de sua relação com
o eleitor. Por isso fez um discurso objetivo, no qual nunca mencionou
a esperança ou o sonho, sem condicionar sua realização
à competência. É um candidato em busca da confiança,
não da simpatia do eleitor.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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