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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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Sérgio Abranches

Os tempos da política

"A aceleração do tempo político, que define nomes muito antes de a campanha começar para valer, faz com que essa corrida eleitoral tenha tudo para ser complicada que as anteriores"

José Serra conseguiu virar o primeiro jogo a seu favor. Reuniu na apresentação de sua candidatura as principais cabeças coroadas do tucanato. A costura interna evitou que a reunião fosse marcada por ausências importantes, enfatizando resistências a seu nome. Ao reunir Tasso Jereissati, Pimenta da Veiga, José Aníbal, Aécio Neves e Geraldo Alckmin, entre outros tucanos coroados, mostrou capacidade política, sua e da elite partidária, para superar divergências e demonstrar unidade quando necessário.

Mas essa é apenas uma das menores dificuldades entre as que o ministro da Saúde terá de superar, numa campanha que pode enveredar por uma rota acidentada. O problema que pode espalhar armadilhas para Serra de agora até o início da campanha real, no horário gratuito, no longínquo agosto, também afeta as outras candidaturas, inclusive a de Lula.

O que está acontecendo é um descolamento entre o tempo político e o calendário eleitoral, perigoso para todos os que têm potencial competitivo. Por circunstâncias muito específicas da conjuntura nacional, o processo político passou a demandar definição imediata de candidaturas, forçando uma exposição precoce. A campanha está começando cedo demais, para todos. Mas, em particular, para a candidatura governista. Ela ficará exposta demais, por tempo demais, em um período que não é de campanha.

Essa aceleração do tempo político, que define nomes muito antes de a campanha começar para valer, faz com que a corrida eleitoral deste ano tenha tudo para ser mais complicada para os candidatos que as anteriores. Campanha presidencial no Brasil só começa para valer quando se abre o palanque eletrônico, com a propaganda eleitoral gratuita na TV. Mas a aceleração do tempo político está pondo a campanha na rua e atropelando o calendário eleitoral. Essa precocidade aumenta a incerteza eleitoral e os riscos para as candidaturas. As convenções para escolher os candidatos serão apenas em junho. Até lá, todas as candidaturas são provisórias.

A ausência de candidaturas naturais gera demanda por definição de nomes. O único candidato natural, da perspectiva de seu partido, é Lula. Nem por isso se livrou de problemas. A insistência do senador Eduardo Suplicy em forçá-lo a uma prévia pode submetê-lo a desgastante exposição pessoal com o único objetivo de satisfazer o ego senatorial.

No caso de Roseana Sarney, supondo-se que seja candidata, a antecipação implica sustentar por quase cinco meses, sem apoio no programa televisivo do partido, um porcentual que subiu muito, cedo demais.

Para José Serra, o risco é ter sua competitividade determinada pela capacidade de "decolar", antes do palanque eletrônico, com muito poucos recursos disponíveis. Não é nada fácil, ainda mais porque tudo indica que "decolar" seria saltar de 7% para perto de 15%.

Roseana Sarney conseguiu, mas é difícil reproduzir esse caminho. O contexto e as características pessoais da candidata criaram uma empatia que elevou suas intenções de voto de 7% para 17% no Ibope. As pesquisas indicam que as pessoas projetam em Roseana as qualidades que valorizam. Com José Serra pode ser diferente. Sua relação com os eleitores não é, até agora, empática, é objetiva. Ele tende a ser avaliado pelo desempenho. Essa comparação entre os dois não revela diferenciais de potencial eleitoral, mas pode levar a trajetórias distintas na pesquisa. Serra pode necessitar de mais tempo na televisão para adicionar 10 pontos porcentuais de intenção de voto, porque precisará mostrar objetivamente suas qualidades para convencer o eleitorado e obter adesão significativa.

Roseana terá de manter a empatia, portanto a subjetividade, em seu relacionamento com o público, ao mesmo tempo que será pressionada para definir suas posições mais claramente. Posicionamentos que gerem antipatia ou rejeição podem levar a perdas de apoio. O risco é sofrer quedas rápidas. Para Serra, o perigo estaria em avançar por pequenos incrementos, numa escada, com espaço de várias semanas entre cada degrau, deixando os tucanos inquietos e inseguros.

Serra parece ter entendido corretamente a natureza de sua relação com o eleitor. Por isso fez um discurso objetivo, no qual nunca mencionou a esperança ou o sonho, sem condicionar sua realização à competência. É um candidato em busca da confiança, não da simpatia do eleitor.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
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