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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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A miséria é de todos nós

Pedro Martinelli

Criança em Pedra Branca, no Ceará

Como entender a resistência da miséria no Brasil, uma chaga social que remonta aos primórdios da colonização? No decorrer das últimas décadas, enquanto a miséria se mantinha mais ou menos do mesmo tamanho, todos os indicadores sociais brasileiros melhoraram. Há mais crianças em idade escolar freqüentando aulas atualmente do que em qualquer outro período de nossa história. As taxas de analfabetismo e mortalidade infantil também são as menores desde que se passou a registrá-las nacionalmente. O Brasil figura entre as dez nações de economia mais forte do mundo. No campo diplomático, começa a exercitar seus músculos. Vem firmando uma inconteste liderança política regional na América Latina, ao mesmo tempo que atrai a simpatia do Terceiro Mundo por ter se tornado um forte oponente das injustas políticas de comércio dos países ricos. Apesar de todos esses avanços, a miséria resiste.

Embora em algumas de suas ocorrências, especialmente na zona rural, esteja confinada a bolsões invisíveis aos olhos dos brasileiros mais bem posicionados na escala social, a miséria é onipresente. Nas grandes cidades, com aterrorizante freqüência, ela atravessa o fosso social profundo e se manifesta de forma violenta. A mais assustadora dessas manifestações é a criminalidade, que, se não tem na pobreza sua única causa, certamente em razão dela se tornou mais disseminada e cruel. Explicar a resistência da pobreza extrema entre milhões de habitantes não é uma empreitada simples. A reportagem especial sobre o tema que VEJA publica na presente edição tem o mérito de ser uma análise detida, profunda. É ainda mais valiosa por ter se mantido desapegada de ideologias mistificadoras e das falsas soluções radicais que elas propõem. Produzido pelo repórter Ricardo Mendonça e ilustrado com fotografias de Pedro Martinelli, o trabalho investiga as causas substanciais do fenômeno que há décadas desafia especialistas, humilha governantes e atinge em cheio as consciências.

 
 
   
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