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A miséria
é de todos nós
Pedro Martinelli

Criança
em Pedra Branca, no Ceará |
Como entender
a resistência da miséria no Brasil, uma chaga social que
remonta aos primórdios da colonização? No decorrer
das últimas décadas, enquanto a miséria se mantinha
mais ou menos do mesmo tamanho, todos os indicadores sociais brasileiros
melhoraram. Há mais crianças em idade escolar freqüentando
aulas atualmente do que em qualquer outro período de nossa história.
As taxas de analfabetismo e mortalidade infantil também são
as menores desde que se passou a registrá-las nacionalmente. O
Brasil figura entre as dez nações de economia mais forte
do mundo. No campo diplomático, começa a exercitar seus
músculos. Vem firmando uma inconteste liderança política
regional na América Latina, ao mesmo tempo que atrai a simpatia
do Terceiro Mundo por ter se tornado um forte oponente das injustas políticas
de comércio dos países ricos. Apesar de todos esses avanços,
a miséria resiste.
Embora em
algumas de suas ocorrências, especialmente na zona rural, esteja
confinada a bolsões invisíveis aos olhos dos brasileiros
mais bem posicionados na escala social, a miséria é onipresente.
Nas grandes cidades, com aterrorizante freqüência, ela atravessa
o fosso social profundo e se manifesta de forma violenta. A mais assustadora
dessas manifestações é a criminalidade, que, se não
tem na pobreza sua única causa, certamente em razão dela
se tornou mais disseminada e cruel. Explicar a resistência da pobreza
extrema entre milhões de habitantes não é uma empreitada
simples. A reportagem especial
sobre o tema que VEJA publica na presente edição tem o mérito
de ser uma análise detida, profunda. É ainda mais valiosa
por ter se mantido desapegada de ideologias mistificadoras e das falsas
soluções radicais que elas propõem. Produzido pelo
repórter Ricardo Mendonça e ilustrado com fotografias de
Pedro Martinelli, o trabalho investiga as causas substanciais do fenômeno
que há décadas desafia especialistas, humilha governantes
e atinge em cheio as consciências.
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