Bichos de sobra

Fazendeiros querem liberar a caça de animais
que prejudicam a agricultura e a natureza

Ronaldo França

A selvagem luta pela sobrevivência no reino animal está clamando por um árbitro, o homem. Esse é o argumento dos defensores da caça como método para acabar com a superpopulação de alguns bichos que estão causando danos à natureza e à agricultura. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Ibama, tem recebido dezenas de pedidos para liberar a caça das espécies incômodas. As reivindicações vêm de seis Estados: Tocantins, Paraná, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Seus requerentes são prefeituras, governos estaduais, fazendeiros e associações de caçadores. Por enquanto, porém, a maioria dos pedidos não saiu da gaveta. "Consideramos a caça um instrumento importante de manejo e controle ambiental, mas não temos recursos para fazer os estudos de contagem populacional indispensáveis para a liberação", diz Fernando Dal'Ava, chefe da divisão de animais silvestres do Ibama.

Em todo o Brasil, certas aves e mamíferos concorrem de forma desigual por comida com outros animais, arrasam lavouras e destroem a flora como pragas. Bandos de marrecas-piadeiras e caneleiras se concentraram e proliferaram nas fazendas de Tocantins, onde encontraram comida em abundância nas lavouras de arroz. No Paraná e em São Paulo, o problema são os avoantes, pombos que se reproduzem nos canaviais e se alimentam da lavoura de soja. Como nas plantações há fartura de alimento e não existem predadores, os pombos chegam a procriar duas a três vezes ao ano, quando o normal é uma vez.

A simpática lebre européia transformou-se em pouco tempo de bicho de estimação em praga. Trazida ao Brasil por lojas de animais e pequenos criadores, a lebre se alastrou pelos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina e está chegando ao sul de São Paulo. Os produtores de melancia da cidade de Garça reclamaram ao Ibama e pediram autorização para que os caçadores as matem. Irrequieta, a lebre não se contenta em destruir uma melancia para matar a fome. Ela raspa a casca de dezenas de frutas, inviabilizando a comercialização. A lebre alienígena também está dando um baile no coelho tapiti, seu concorrente nacional na disputa por comida. Na Reserva Ecológica de Guaporé, em Rondônia, a introdução de búfalos para criação está provocando agora, cerca de quarenta anos depois da chegada do primeiro exemplar, estragos consideráveis. Os animais que escaparam e se reproduziram subvertem o equilíbrio. "Com a presença de 15.000 búfalos, animais estranhos àquele ecossistema, a reserva biológica está se descaracterizando. Simplesmente não deveria haver nenhum búfalo por lá", diz Dal'Ava.

O exemplo do Rio Grande do Sul, único Estado em que a caça é permitida, é o principal argumento a favor dos defensores do controle via espingarda para acabar com os prejuízos provocados pelos búfalos, lebres e avoantes. A abertura da temporada gaúcha de caça só é permitida, a cada ano, depois de estudos sobre o nível de população de cada espécie. As pesquisas são feitas com a ajuda do dinheiro arrecadado dos próprios caçadores, que pagam 600 reais para receber a licença anual. Conforme os resultados, libera-se a captura de uma lista de bichos. Assim, reduzem-se os indesejáveis e não se leva à extinção de nenhuma espécie. Há dois anos, por exemplo, o marrecão, o alvo preferido dos caçadores por causa da carne saborosa e do desafio que representa, está fora da portaria do Ibama porque a quantidade dessas aves que migram da Argentina para o sul do país diminuiu.

A fórmula da contagem populacional é usada na maioria dos países com caça regulamentada. Esse controle só não é necessário em fazendas particulares destinadas à caça uma fórmula que, embora permitida no Brasil, desperta pouco interesse. O Paraná aprovou recentemente uma lei para a criação dessas fazendas. As poucas que existem no país trabalham sem embasamento legal. "Os caçadores esperam que o governo compre áreas e as libere para a atividade, mas não teríamos como justificar esse investimento para a sociedade", afirma Dal'Ava. "É uma questão de prioridade. Mal conseguimos o suficiente para comprar as terras de unidades de conservação já criadas."

Esporte Nos Estados Unidos, a caça é feita tanto em áreas públicas quanto privadas. As entidades particulares se encarregam de viabilizar a atividade. Elas cuidam para que só as espécies livres do risco de extinção sejam liberadas para a caça e incentivam a criação de animais destinados ao esporte. Lá existem 14 milhões de caçadores, que alimentam um negócio fabuloso. As atividades de caça e pesca movimentam 21 bilhões de dólares ao ano, segundo o Serviço de Pesca e Vida Selvagem do Departamento do Interior. Na Europa, as fazendas de caça são mais comuns. O proprietário se encarrega de colocar à disposição dos caçadores um número suficiente de animais. Paga-se por cada exemplar abatido e os limites, embora não obedeçam necessariamente a critérios ecológicos, são respeitados com rigor.

Esse é o modelo que o Estado do Paraná pretende adotar. Nesse caso, se for permitido que sejam caçados mais animais do que o aceitável, o fazendeiro corre o risco de ficar sem trabalhar no ano seguinte, o que garante a preservação dos bichos. Enquanto não se fazem contagens populacionais e não se libera a caça nem onde existem argumentos legítimos a seu favor, os caçadores continuam disparando à margem da lei. A caça é praticada em todo o interior do país e, segundo indícios, ainda mais onde não é permitida. De acordo com o ranking da venda de munição de caça por regiões, o Sul, onde há o único Estado em que a atividade é permitida, ocupa o terceiro lugar, atrás do Norte e do Nordeste, onde não se pode dar, legalmente, um único tiro num animal.

 
 






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