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O vencedor é...Claudinei Quirino derrotou a miséria Toda vez que um atleta brasileiro cruza a linha de chegada lado a lado com um americano, a reação mais natural do público é pensar que o americano venceu. Foi o que aconteceu na final dos 200 metros rasos do Grand Prix Internacional de Atletismo, disputado no fim de semana passado em Munique, Alemanha. Claudinei Quirino da Silva terminou a prova frações de segundo à frente do americano Maurice Greene, mais conhecido por ser o recordista e o campeão mundial dos 100 metros. Na mesma hora os organizadores entregaram a Greene o ursinho de pelúcia e o buquê de flores reservados ao campeão. Esperto, Greene puxou Claudinei e juntos os dois deram a volta olímpica para receber os aplausos da platéia. Só depois disso os alto-falantes do estádio corrigiram o erro: o vencedor da corrida foi Claudinei Quirino da Silva, com o tempo de 19s89, novo recorde sul-americano e uma das melhores marcas do ano na prova. "I winner", apressou-se Claudinei, com seu inglês de improviso, a avisar o americano e a reclamar as flores e o bichinho que por direito eram seus. A vitória no Grand Prix, que rendeu a Claudinei um cheque de 50.000 dólares, confirma-o como principal estrela do atletismo brasileiro no momento – e uma das maiores esperanças de medalha do esporte nas Olimpíadas de Sidney, no ano que vem. Antes de Munique, num período de menos de quarenta dias, ele já havia ganho quatro medalhas nos Jogos Pan-Americanos e conquistado o segundo lugar no Campeonato Mundial de Atletismo. Sua história pessoal confirma outra verdade do esporte: para muita gente no Brasil, correr é a única chance de vencer na vida. Quando pisou pela primeira vez numa pista de atletismo, em Lençóis Paulista, cidade do interior de São Paulo onde nasceu, Claudinei tinha 21 anos, um emprego de balconista em um bar de beira de estrada e nenhuma perspectiva de vida. "Se não fosse o esporte eu certamente estaria amassando barro em alguma obra, porque até o emprego no bar eu perdi", reconhece hoje, aos 28 anos, o campeão, que graças às corridas retomou os estudos interrompidos na 5ª série – cursa o 1º ano da faculdade de educação física – e está terminando de construir sua casa. Ganha 8.000 reais por mês e só em prêmios faturou mais de 100.000 dólares neste ano. "Meu sonho é comprar uma picape Blazer, mas por enquanto estou satisfeito com meu Golzinho 96", diz. Considerando-se tudo o que passou até virar um atleta, trabalhar na lanchonete poderia ser considerado lucro para Claudinei. Quinto filho em uma família de seis, ficou órfão aos 2 anos de idade. Com a morte da mãe, o lar desmoronou e o menino foi internado, por ordem judicial, em um orfanato na cidade de Pirajuí, onde ficou até os 17 anos. Quando saiu, voltou para casa, reencontrou o pai e os irmãos, mas nenhuma esperança. Vivia de biscates, trabalhou num mercado e numa borracharia, depois na lanchonete. Até que um dia atendeu um rapaz forte e espigado no balcão. "Como você conseguiu ficar assim?", perguntou Claudinei. "Fazendo atletismo", respondeu o outro, orgulhoso. No dia seguinte começava a tardia carreira do campeão. "A vida transformou o Claudinei num forte", diz Jayme Netto Júnior, seu treinador no Clube Funilense de Presidente Prudente, interior de São Paulo. "Quanto maior é a pressão, maior é sua capacidade de superação." |
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