Edição 1 641 - 22/3/2000

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TELEVISÃO

 

Cidadão Kane: como
sempre, o melhor

Cem Anos, Cem Filmes (domingo às 21h e segunda-feira às 13h, no MGM Gold) — Em 1998, o American Film Institute resolveu comemorar o centenário do cinema elaborando uma lista dos 100 melhores filmes realizados entre 1896 e 1996. Agora a lista pode ser conhecida na forma de especial, com trechos de cada uma das obras e comentários de personalidades sobre elas. O vencedor, claro, é o clássico Cidadão Kane, que Orson Welles dirigiu em 1941. Mas, como os critérios incluem também impacto cultural e relevância histórica, o resultado acaba sendo bem eclético: inclui desde sucessos de público, como Tubarão, até épicos festejados, como Lawrence da Arábia.

 

Participante do boi-bumbá de Parintins: invenções

Música do Brasil (MTV, sexta-feira às 22h) — Um mérito deste programa é não se deixar contaminar pelo tom soporífero das produções didáticas. Em vez de discursos sobre "a importância do maracatu", Música do Brasil mostra como os ritmos do país sofreram influências uns dos outros e também foram marcados por importações do estrangeiro. Muitos cruzamentos apontados vão dar o que falar, como o da surf music americana com os sons da Amazônia. Há passagens curiosas sobre as invenções oriundas das festividades do boi-bumbá de Parintins, no Amazonas, ou sobre os sambas do Recôncavo Baiano, diluidíssimos por grupos como É o Tchan. Em quinze episódios, Música do Brasil terá apresentação do cantor Gilberto Gil e contará com vários convidados especiais.

 

DISCO

 

Imagine, John Lennon (EMI Music) — Em sua carreira-solo, o ex-beatle sempre tentou combinar lirismo e discurso político, mas raramente os resultados foram satisfatórios. Ou Lennon gravava discos excessivamente panfletários ou transformava suas obras em tediosas ladainhas sobre questões pessoais e conjugais. Imagine, no entanto, foi uma ocasião em que tudo deu certo. O disco tem canções humanistas, protestos contra o "sistema" e ainda rasgadas declarações de amor à mulher, Yoko Ono. O álbum chega às lojas em edição remasterizada, sob a coordenação de Yoko. Além do tratamento sonoro, apresenta outras novidades, como fotos inéditas de Lennon e a letra manuscrita de How Do You Sleep?, em que John acusa Paul McCartney, ex-companheiro nos Beatles, de ser um compositor medíocre. É certo que a faixa-título já foi usada à exaustão em tudo quanto é documentário e reportagem sobre guerra. Mas o disco contém maravilhas, como Jealous Guy, Oh My Love e How?

 

VÍDEO

 

Virgin
Mick Jagger: perto
do público

Bridges to Babylon, Rolling Stones (ST2 Vídeo) — Este vídeo pode consolar aqueles que nunca se perdoaram por ter perdido as antológicas apresentações do grupo inglês no Brasil, em abril de 1998. A vantagem do vídeo é que não será preciso disputar a cotoveladas um lugar melhor na platéia. Bridges to Babylon foi a melhor turnê dos Rolling Stones na década de 90, por apresentar uma sensível mudança de estilo nos megashows de rock. Além das habituais toneladas de luz e som, os roqueiros ingleses criaram alguns momentos de intimidade com a platéia. Eles se dirigiam a um pequeno palco montado no centro do estádio e tocavam pérolas de seu início de carreira. Agora, basta ligar o videocassete para sentir Mick Jagger & Cia. bem próximos.

 

LIVROS

 


A Saga da Comida, de Gabriel Bolaffi (Record; 715 páginas; 54 reais em capa dura/39 reais em brochura) — Nos últimos anos, a culinária se tornou um filão rentável no mercado de livros. Os lançamentos se multiplicaram. Esta obra se destaca por dois motivos. Está longe de ser pretensiosa, com grandes "teorias" sobre a cozinha. É um livro para quem gosta de cozinhar para os amigos, como indicam as porções sugeridas, quase todas para oito ou dez convivas. Tanto há pratos elaborados quanto receitas prosaicas. Bolaffi, além disso, viajou pelo mundo registrando curiosidades sobre comida. É a outra atração do livro. Ele demole teses consagradas, como a de que a feijoada brasileira foi inventada pelos escravos com as carnes rejeitadas pela casa-grande. Bolaffi mostra que os senhores de engenho teriam de comer uma quantidade impressionante de lombos de porco antes de deixar para trás os pés e as orelhas necessários para alimentar a grande população de cativos.



Greene: caso de amor inusitado

Fim de Caso, de Graham Greene (tradução de Léa Viveiros de Castro; Record; 237 páginas; 15 reais) — Um dos mais importantes escritores ingleses do século XX, Greene buscou inspiração em episódios de sua própria vida para conceber, em 1951, um dos mais inusitados casos de amor de que se tem notícia na literatura, envolvendo um escritor, uma mulher casada e... (bom, é necessário ler o livro até o fim para descobrir). O próprio autor tinha reservas quanto ao resultado que alcançara em Fim de Caso, argumentando que certas soluções do enredo lhe pareciam abruptas. A despeito de suas objeções, o livro é dos mais reveladores sobre as convicções de Greene, um convertido ao catolicismo. Transformado agora num belíssimo filme de mesmo nome, continua sendo um dos pontos altos na longa e intensa carreira desse escritor que deixou obras-primas, como O Poder e a Glória.

 
OS MAIS VENDIDIOS

Crítica

Ocupando o sexto posto na lista de mais vendidos, Filha da Fortuna (tradução de Mario Pontes; Bertrand Brasil; 469 páginas; 42 reais) marca o retorno da escritora chilena Isabel Allende às obras de ficção. Ela não se aventurava por esse terreno desde 1992, ano que foi marcado por uma tragédia: a morte de sua filha, Paula, depois de uma longa doença. Para assimilar o baque, Isabel escreveu duas memórias, Paula e Cartas a Paula. Agora, com as feridas curadas, ela volta ao seu gênero predileto: o romance histórico. O mercado aplaude e compra. Mas a literatura não estava sentindo a mínima falta.

 

Filha da Fortuna conta a história de Eliza Sommers, uma chilena do século XIX que foi abandonada pelos pais e criada por um casal de ingleses. Embora a nova família lhe ofereça luxo, Eliza se sente inquieta. Rebelde, embarca para os Estados Unidos no rastro de um amante, que decidiu tomar parte na Corrida do Ouro, iniciada em 1849. Ao chegar à Califórnia, ela primeiro ganha a vida tocando piano em um bordel. Depois descobre que se disfarçando de homem pode transitar com mais liberdade por uma sociedade ainda sem ordem nem lei.

Adolfo Gerchmann
Isabel: de volta à ficção histórica

Sem lei, deve-se dizer, é também o romance. Isabel tentou ocupar-se com personagens demais — de madames inglesas a um chinês chamado Tao Chi'en. Tentou trabalhar com um excesso de fios narrativos. Acabou com um novelo enrolado nas mãos, em vez de uma história bem tecida. Quanto a seu modo de escrever, continua "sensível", o que é apenas uma maneira educada de dizer piegas. Se você é fanático por romances históricos, vá em frente. Caso contrário, não perca tempo.

Carlos Graieb

 
Fontes: SP: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel; RJ: Saraiva, Sodiler; RS: Saraiva, Livraria Ed.; DF: Sodiler; AL: Sodiler; PE: Sodiler; PR: Livraria Curitiba. Esta lista não inclui livros vendidos em bancas.