Edição 1 641 - 22/3/2000

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Um antídoto para as favelas

"Se a favela não sai, então, que se transforme em um lugar melhor para viver. Se as posturas municipais da Vieira Souto não são aplicáveis à favela, que se criem outras para ela"

Ilustração Alê Setti
Favela é uma fava da caatinga nordestina encontradiça em um morro onde acampavam os soldados da campanha de Canudos. Virou o nome de um morro no Rio de Janeiro onde foram morar ex-soldados de Canudos. Daí o nome consagrado para o teimoso problema habitacional.

Em 1991, 22% da população do Rio morava nas 604 favelas da cidade. Durante muito tempo, o poder público fingiu que as favelas não existiam. Carlos Lacerda, talvez equivocado na solução, mas certo ao enfrentar de peito aberto o problema, tentou erradicá-las a um exorbitante custo social e político. Poucas se foram e muitas se criaram depois, formando uma cidade paralela e sem governo, que seguia sendo ignorada pelo poder público.

Na ausência de políticas claras, o que se fazia era casuístico e pela metade. Eletricidade? Água? Esgoto? Saneamento? Contenção de encostas? Escolas? Polícia? O pouco que se fez foi fragmentado, à margem de regras e intenções explícitas e incapaz de gerar saltos qualitativos definitivos. Viraram valhacoutos para o narcotráfico, ameaçando cada vez mais a tranqüilidade da cidade, cuja atitude oscilava entre culpa e irritação.

Entra então em cena o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que vinha fazia muitos anos experimentando projetos de desenvolvimento urbano. O BID não criou uma fórmula para lidar com favelas, mas adaptou uma solução que vinha sendo refinada e polida no decorrer dos anos. O sonho da reforma social revelou-se difícil de implementar. Não obstante, engenheiros lidando com projetos de saneamento começaram a aprender a organizar as populações pobres das áreas onde agiam. Verificaram que, pendurados nesses projetos, era possível mobilizar lideranças, organizar treinamentos e coordenar atividades coletivas. Ou seja, diante dos benefícios tangíveis de água encanada ou esgotos, ficava mais fácil gerar núcleos de desenvolvimento comunitário. O que os reformadores sociais não conseguiam, os engenheiros aprenderam a fazer. Os projetos de educação e saúde massificados falharam muito. Os urbanos, mais modestos, acabaram mudando a realidade social mais do que se imaginava.

O BID encontra um Rio de Janeiro mais disposto a fazer o possível e não sonhar com o impossível. Se a favela não sai, então, que se transforme em um lugar melhor para viver. Se as posturas municipais da Vieira Souto não são aplicáveis à favela, que se criem outras para ela. Começa então um fascinante e bem-sucedido experimento de urbanizar habitações precárias. Mas por que este teria dado certo, em meio a um cemitério de fracassos em erradicar favelas?

Substituindo os desastrados projetos paternalistas, do tipo BNH, o Favela-Bairro passa a criar infra-estrutura, e nada mais. Sem gastos mirabolantes, coloca água e esgoto, abre ruas, dá-lhes nome e CEP (receber correio é cidadania), cria praças e quadras esportivas, refloresta e contém encostas, regulariza a propriedade. Os moradores são mobilizados para fazer sua parte (melhorar sua casa, operar creches e coletar o lixo). No bojo desses processos, criam-se cursos profissionais e empregos e abre-se a possibilidade de crédito. Frutifica o sentimento comunitário, organizam-se os moradores e gera-se uma semente de cidadania e auto-estima na maioria silenciosa e honesta das favelas. A grande lição é que intervenções ocasionais e de uma nota só não levam a nada. Centenas de empurrõezinhos não empurram. O que transforma é o esforço concentrado de agir com massa crítica em muitas ações simultâneas, em uma favela de cada vez. Hoje, metade das favelas já está sendo transformada pelo Favela-Bairro.

São os grandes problemas que geram as grandes soluções. O antídoto mais bem-sucedido para lidar com essa situação de marginalidade urbana acontece em uma das cidades mais vitimadas por ela.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@earthlink.net)