| Jamais contei esta história e nunca pensei que iria fazê-lo. Não
exatamente por temer que duvidassem, mas porque sentia vergonha...
e porque a história era minha. Sempre achei que ao contá-la baratearia
tanto a ela quanto a mim, faria com que ela parecesse menor e mais
mundana, uma história de fantasmas qualquer, daquelas contadas ao
redor da fogueira num acampamento. Creio ainda que temia que ao narrar
a história, ao ouvi-la com meus próprios ouvidos, poderia começar
a duvidar de mim mesmo. Mas não consigo dormir muito bem desde que
minha mãe morreu. Cochilo e desperto de novo, os olhos arregalados,
tremendo. Deixar o abajur aceso ajuda, mas não tanto quanto se poderia
pensar. Você já notou como à noite as sombras aumentam? Até com a
luz acesa há sombras demais. Então você pensa: as sombras maiores
poderiam pertencer a qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. |