A ética da riqueza
O historiador americano diz que as tradições
de
um povo são tão importantes para a economia
quanto os recursos materiais
Carlos Graieb
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"Se o Brasil se dividisse
em dois, o Sul teria chances de ser desenvolvido"
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Antonio Milena
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Para o historiador americano David Landes, a humanidade
se divide em duas classes: a dos que vivem para trabalhar
e a dos que apenas trabalham para sobreviver. "Quanto mais
pessoas do primeiro tipo houver, mais chances uma nação
terá de sair ganhando no jogo da globalização",
diz ele. Landes tem 75 anos. Em décadas de trabalho
como professor da Universidade Harvard, nos Estados Unidos,
ele se dedicou a desenvolver a idéia lançada
pelo pensador alemão Max Weber de que a cultura e
os valores de um povo são tão ou mais importantes
para o seu crescimento econômico do que os fatores
materiais. Suas teses ganharam forma de livro em 1998 e
deram notoriedade ao autor. Escrito com verve e lidando
com uma vasta quantidade de informações, A
Riqueza e a Pobreza das Nações alcançou
a lista de mais vendidos em diversos países, inclusive
o Brasil, onde foi lançado pela Editora Campus. Na
semana passada Landes visitou São Paulo para uma
série de palestras, a convite da Fundação
Armando Álvares Penteado e do Instituto Fernand Braudel,
e deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Quais são as causas da riqueza e
da pobreza das nações?
Landes Não há dúvida de
que fatores "clássicos", como o acesso a recursos
naturais ou mão-de-obra, são importantes.
Também estou certo de que a geografia e o clima podem
ser determinantes, embora muita gente não concorde
com isso. Mas eu gostaria de insistir em uma variável
pouco lembrada: a cultura. Ela é preponderante no
sucesso material de algumas nações e no insucesso
de outras. Falo de cultura em sentido amplo. Não
me refiro a obras de arte, mas aos valores e atitudes vigentes
numa sociedade. Foi por prezar a liberdade individual, a
curiosidade e a criatividade, e por assumir uma atitude
positiva com relação ao trabalho, que a Europa
Ocidental tomou a dianteira na corrida pelo desenvolvimento,
500 anos atrás. Fora da Europa, os países
que assimilaram esses valores, como os da América
anglo-saxônica, ou dispunham de tradições
semelhantes em sua própria cultura, caso dos asiáticos,
entraram para o clube dos vitoriosos.
Veja Assim como o pensador alemão Max
Weber, o senhor diria que o espírito protestante
está diretamente ligado à ascensão
do capitalismo?
Landes Certamente. As outras religiões
monoteístas, incluindo o judaísmo, ao qual
pertenço, fazem da pobreza uma virtude. Quase toda
a história da cristandade inclui uma louvação
da pobreza: os pobres vão para o céu, enquanto
a riqueza é uma forma de corrupção.
Nos países islâmicos, a pobreza é considerada
um antídoto para os modos, o luxo, a auto-indulgência
do Ocidente. O protestantismo foi importante por causa de
sua atitude positiva com relação ao trabalho
e ao enriquecimento. Também foi importante porque
desde o começo os protestantes discordaram e discutiram
entre si. O protestantismo era na origem pluralista, enquanto
o catolicismo sempre foi centralizador.
Veja E no que esse aspecto centralizador atrapalhou
o desenvolvimento?
Landes O catolicismo não apenas tinha
uma atitude ambivalente com relação aos empreendedores
como também segregava os que pensavam diferente.
Na sociedade colonial, comandada por espanhóis e
portugueses, a imigração de europeus do norte
era evitada a todo o custo. Imperava o fechamento. Além
disso, o homem que vencia nos negócios era incentivado
a retirar-se para uma vida aristocrática e não
esperava que seus filhos repetissem seu itinerário
de trabalho. Empreendimentos são realizados por pessoas
que vivem para trabalhar, e não por aquelas que trabalham
para viver. É preciso ter prazer no trabalho para
tornar-se um empresário bem-sucedido.
Veja O Brasil é mesmo "o país do
futuro"?
Landes Acho que o Brasil vai conseguir diminuir
suas taxas de pobreza. Quanto a tornar-se um dos países
mais desenvolvidos, isso é outra história.
Isoladamente, a Região Sul do país teria boas
chances.
Veja O senhor está sugerindo que o país
se divida em dois?
Landes Estou dizendo que se o Sul se separasse
do Norte teria boas chances de alcançar os países
mais avançados. Sei que as pessoas logo vão
pensar em coisas do tipo: mas como assim, abrir mão
dos infindáveis recursos da Amazônia? Pois
eu lhe digo que, se vivesse em São Paulo, não
me preocuparia muito com o destino do Amazonas. Minerais?
Madeira? Tudo isso pode ser comprado. Não é
preciso ser dono desses recursos. É mais fácil
comprar e vender do que ser proprietário. Em nossa
época, não existe nenhuma virtude intrínseca,
política ou econômica, em manter um grande
território e ser uma grande unidade.
Veja Os Estados Unidos deveriam, então,
abrir mão do Estado associado de Porto Rico, por
exemplo?
Landes Não tenho a menor dúvida
que sim. Se a população de Porto Rico votasse
pela independência com relação aos Estados
Unidos, não haveria nenhum bom motivo para que nós,
americanos, permanecêssemos no país. Acho também
que os russos estão loucos em fazer o que fizeram
na Chechênia. O imperialismo e o expansionismo foram
constantes na história do século XIX. Mas,
na passagem do século XX para o XXI, numa era de
comércio global livre, não há nada
que nos obrigue a pensar que maior é melhor. Europeus
e japoneses aprenderam essa lição e se deram
muito bem.
Veja Ao longo da década de 90, falou-se
muito em "consenso de Washington" ou "consenso neoliberal".
O senhor acha que existe realmente consenso no campo da
economia?
Landes Creio que o único consenso existente
é no que diz respeito à utilidade do livre
comércio. É notável observar nos Estados
Unidos, por exemplo, a concordância cada vez maior
em torno da idéia de que o comércio com a
China é desejável. Mesmo os republicanos,
mesmo os visceralmente anticomunistas, têm defendido
essa idéia. O que mostra que empreendimentos econômicos
não são uma questão de ideologia. Tudo
que os empreendedores querem é fazer dinheiro. Quando
vêem um país onde é lucrativo investir,
eles investirão, não importa quem esteja comandando
o show.
Veja Os Estados Unidos, no entanto, mantêm
barreiras tarifárias contra vários produtos
brasileiros.
Landes Pois deveriam derrubá-las. O único
argumento protecionista que faz algum sentido é o
da indústria incipiente. Para desenvolver internamente
uma indústria nova, você precisa protegê-la
de alguma forma, para que não seja esmagada pela
concorrência. Foi o que os brasileiros fizeram nos
anos 80 com relação à informática.
Mesmo assim o argumento é perigoso, porque o protecionismo
é um péssimo hábito, que tende a criar
raízes. Muito tempo depois de uma indústria
ter crescido, as pessoas querem manter as tarifas de proteção.
Veja Recentemente, o Fundo Monetário Internacional
passou a mostrar preocupação com causas sociais.
Qual será o impacto disso?
Landes Talvez me chamem de cínico, mas
creio que a razão por trás de muitas ações
e palavras desses organismos internacionais é a simples
gratificação de se sentir virtuosos doando
fundos e recursos aos países pobres. Ações
desse tipo podem aliviar a miséria e melhorar um
pouco a expectativa de vida em alguns lugares. Mas existe
uma diferença entre diminuição da miséria
e desenvolvimento. A lacuna de desenvolvimento entre ricos
e pobres continua a crescer. Não sei quantas gerações
mais terão de passar sobre a Terra para que isso
mude.
Veja Em seu livro, o senhor fez altas apostas
no Sudeste Asiático. Mas, nos últimos anos,
essa região atravessou uma séria crise e os
sinais de recuperação são incertos.
O senhor mantém a sua aposta?
Landes Sim, mantenho. A Ásia vai continuar
sendo um dos maiores centros de crescimento do mundo, pois
as bases culturais do crescimento estão presentes
lá. Os asiáticos têm um profundo senso
de responsabilidade, são trabalhadores dedicados.
Nesse período, foram vítimas da conjuntura
global.
Veja Fala-se muito que, com a globalização,
os Estados nacionais perderam poder. Quando o senhor diz
que países asiáticos foram vítimas
da conjuntura global, está corroborando essa idéia?
Landes Não. Eu não acredito que
os Estados nacionais perderam toda a importância com
a globalização, nem que as comunidades locais
estejam indefesas diante do que vem de fora. Veja o caso
da Malásia. Eles adotaram uma atitude bastante inflexível
diante de organismos internacionais como o FMI, recusando-se
a adotar as regras dos gerentes do dinheiro internacional.
Nem por isso afundaram. Hoje, há muitas pessoas prontas
a emprestar novamente para a Malásia.
Veja E a China?
Landes A China é uma região de
risco. Se você quer investir seu dinheiro com segurança,
deve fazê-lo em um país governado por leis,
não por homens. A China é governada por homens,
que ficam muito nervosos vendo toda a movimentação
ocasionada pelo crescimento do comércio livre em
algumas regiões do país.
Veja Em muitos países da Ásia,
o desenvolvimento econômico se deu graças à
utilização de métodos autoritários
pelos governantes. O que acha disso?
Landes Podemos voltar ao caso da Malásia.
Lá, boa parte da economia é operada por uma
classe empreendedora formada sobretudo por expatriados chineses,
enquanto o governo, de fato autoritário, é
comandado por uma elite local. Há precedentes históricos
consideráveis para esse tipo de arranjo. Pense, por
exemplo, na Alemanha do II Reich. Naquele tempo, a burguesia
deixou de lado qualquer ambição de influir
no governo ou de usufruir de um comando mais democrático,
em troca da liberdade na condução da economia
e oportunidade de criar cartéis, impor barreiras
protecionistas e outras medidas desse tipo. Eu creio que
esse tipo de arranjo só é sustentável
durante algum tempo. Não pode haver capitalismo verdadeiro
sem democracia real. E creio que, felizmente, o capitalismo
tende a promover as liberdades individuais e instituições
democráticas.
Veja A esquerda diria o contrário.
Landes O capitalismo supõe desigualdades
de riqueza e estas, por sua vez, podem se traduzir em desigualdades
de poder. Até aí, concordamos. Mas, no que
diz respeito à promoção de liberdades
e oportunidades para todos, acredito firmemente que o capitalismo
está muito à frente de todas as outras formas
de organização já experimentadas.
Veja A corrupção governamental
sempre foi mencionada como uma das causas da pobreza em
países como o Brasil. O que dizer então do
escândalo que acaba de estourar na Alemanha envolvendo
uma das figuras mais proeminentes da política européia,
o ex-chanceler Helmut Kohl?
Landes Confesso que o caso de Kohl me surpreendeu.
Mas a moral é simples: em todos os lugares e em todas
as épocas, sempre houve quem achasse mais fácil
tomar dinheiro do que fazer dinheiro. A política
favorece aqueles que conseguem parecer bons, mesmo que não
sejam. Às vezes, a falta de moral aparece em questões
de dinheiro. Noutras vezes, em questões de sexo.
Definitivamente, a política não é uma
esfera da vida onde deveríamos procurar pela virtude.
Veja Fala-se muito em liberdade de comércio,
mas quando o assunto é liberdade na circulação
de pessoas o discurso é outro. Basta ver os movimentos
de direita na Europa contra os imigrantes. Qual é
sua opinião?
Landes Meus avós chegaram aos Estados
Unidos como imigrantes. Eu creio que as portas nunca deveriam
ser fechadas. É claro que algum controle é
necessário. Mas não fechamento. Os imigrantes
são uma fonte potencial de energia. Nos Estados Unidos,
um dos grupos mais efetivos em assimilar as técnicas
e o conhecimento necessários para ter sucesso na
nova economia é o dos imigrantes asiáticos.
Na América Latina, os imigrantes protestantes teriam
feito toda a diferença. Dito isso, gostaria de ressaltar
que a atitude de desconfiança com relação
aos estrangeiros não se limita aos países
ricos. Veja a África Ocidental: há casos de
expulsão maciça na região. É
um problema da natureza humana. Isso é algo que aprendi
em minha profissão: coisas ruins estão espalhadas
por todas as épocas e lugares.
Veja Como especialista na história da
Revolução Industrial, o senhor acha que hoje
estamos mesmo diante de uma nova revolução,
baseada na informática e nas tecnologias de ponta?
Landes Sim, acho que podemos utilizar essa palavra.
Estamos assistindo a uma mudança profunda. Os países
que tiverem a oportunidade de não apenas utilizar
mas também de melhorar as novas tecnologias estarão
em posição de vantagem na nova economia. Foi
essa capacidade que salvou os Estados Unidos depois de anos
de estagnação. Os Estados Unidos apostaram
na importância do que chamamos de software. O hardware
é muito importante. Mas eu creio que a longo prazo
é o software que vai dominar. Qualquer um pode aprender
como fazer um computador. Ou você pode importar uma
fábrica de hardware correndo o risco de que
ela se mude para o vizinho se ele oferecer trabalho mais
barato. Mas hoje já temos hardware melhor do que
precisamos para muitas tarefas. Por isso, é na área
do software que os novos países devem fazer suas
apostas atualmente. E isso significa que precisam ter um
sistema educacional eficiente e universal. Cingapura conta
com uma estrutura universitária muito forte. Talvez
a China também possa ser citada como exemplo. A América
Latina é uma interrogação mas,
se o continente tem de apostar em algo, é nos investimentos
culturais e sociais capazes de criar pessoas aptas a ser
inventivas na nova economia. Infelizmente, é o contrário
do que países como o México, por exemplo,
têm feito. Lá as universidades se encontram
em péssimas condições. Se você
não tiver cérebros, está acabado.