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Uma bênção para o coração

Estudo mostra que as estatinas,
utilizadas no
controle do colesterol,
têm uso mais amplo

Gabriela Carelli

Os médicos aderiram em massa, na última década, ao uso de certas proteínas chamadas estatinas na prevenção de doenças cardíacas. Em todo o mundo, mais de 70 milhões de pessoas usam remédios com essas substâncias como princípio ativo. Sabia-se que as estatinas eram as mais potentes armas disponíveis para baixar o nível de LDL, o colesterol ruim, porque atuam diretamente no fígado, órgão que produz 70% de nosso colesterol. Também se mostram eficazes, em altas doses, na diminuição das placas de gordura das artérias, a aterosclerose. Na semana passada, a divulgação dos resultados do maior estudo já realizado sobre as estatinas mostrou que elas vão além. Depois de avaliar 20.536 pacientes de 69 hospitais ingleses durante cinco anos e meio, pesquisadores da Universidade de Oxford concluíram que também podem diminuir em 30% os riscos de infarto e derrame em quem não tem colesterol alto, mas faz parte de outros grupos de risco, como diabéticos, idosos e hipertensos.

"Com as descobertas, 200 milhões de pessoas podem passar a usar estatinas", prevê o cardiologista Rory Collins, coordenador do estudo. "É a aspirina do futuro." De acordo com suas estimativas, o uso regular do medicamento por 10 milhões de diabéticos, idosos e hipertensos evitaria 50.000 mortes por ano. Essa proteína foi primeiro usada como antibiótico de baixo impacto, para combater fungos, até que os médicos perceberam que entre seus efeitos colaterais havia a diminuição do colesterol. "Uma pequena dose por dia pode reduzir em até 40% o tipo de colesterol mais danoso à saúde, o LDL", diz o médico Whady Hueb, do Instituto do Coração de São Paulo (Incor). O LDL é perigoso porque aumenta a permeabilidade da camada que reveste as artérias e possibilita a formação de placas de gordura, o que pode levar ao entupimento dos vasos. Em doses elevadas, de 60 a 80 miligramas por dia, as estatinas reduzem o tamanho dessas obstruções.

Problemas cardíacos causam a morte de 300.000 brasileiros por ano. Dados do Incor estimam que as estatinas ajudam a evitar 4% dos infartos fatais no Brasil. Este número poderia ser bem maior. Apenas quatro em cada dez brasileiros com colesterol alto e doenças do coração tomam remédio à base de estatinas. Uma das razões é o preço salgado do medicamento. A caixa com trinta comprimidos de 10 miligramas custa em torno de 70 reais. Em geral, os médicos recomendam o uso de estatinas associado aos betabloqueadores e à aspirina. Os primeiros impedem a atuação da adrenalina, que estreita os vasos sanguíneos, aumentando o risco de infarto. A aspirina previne a formação de pequenos coágulos, que, além do ataque cardíaco, podem causar trombose. Mas nenhum deles ajuda a baixar o nível de colesterol ruim.

Os primeiros remédios à base de estatina começaram a ser vendidos nos anos 80 e hoje há muitas variantes da droga – por isso se costuma falar dela no plural. A utilizada no estudo inglês foi a sinvastatina, que é o princípio ativo do remédio Zocor. É a segunda mais consumida no Brasil. Perde apenas para a atorvastatina (vendida com os nomes comerciais de Lipitor e Citalor), a mais poderosa de todas. Uma terceira estatina, a cerivastatina, base do Lipobay, foi retirada do mercado depois da morte de 31 americanos. Suspeita-se que isso tenha ocorrido em razão dos efeitos colaterais. Apesar de ser uma verdadeira bênção no combate aos males do coração, a estatina pode causar insuficiência renal e lesões musculares.

 

4 de cada 10 brasileiros com problemas cardíacos tomam remédios à base de estatinas

Doses diárias de 20mg de estatina reduzem em 40% o nível de colesterol no sangue

Fonte: Whady Hueb/Incor



   
 
   
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