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No jardim de AláV.S. Naipaul lança um olhar penetrante Carlos Graieb
Ao partir em sua primeira jornada, em 1979, Naipaul não sabia quase nada sobre o islamismo. Desejava investigá-lo, observar a fé em ação. Embora os países visitados guardassem profundas diferenças, Naipaul identificou neles traços comuns – e quase que exclusivamente negativos. Entre os Fiéis mostra sociedades movidas pela raiva e pelo ressentimento, mergulhadas em profunda confusão, obcecadas com o ideal da pureza religiosa. Nelas, a desconfiança com relação ao Ocidente era imensa. Ao mesmo tempo, porém, o islã não deixava de parasitar as conquistas materiais e tecnológicas ocidentais. "Islamofóbico" – No relato de sua segunda viagem, realizada em 1995, Naipaul retoma alguns desses temas. Mas, agora, sua curiosidade tem um fio condutor. Ele parte do pressuposto de que Irã, Paquistão, Malásia e Indonésia não eram países islâmicos na origem. Sofreram a invasão de uma fé cuja lógica é imperialista. Nos territórios conquistados pelo islã, crenças ancestrais devem ser erradicadas e é feita tábula rasa da História local. "O convertido tem de recusar tudo o que é seu", escreve Naipaul. "A perturbação para as sociedades é imensa e, mesmo após 1.000 anos, pode permanecer sem solução." Na única passagem pessoal do livro, Naipaul lembra de sua infância em Trinidad, colônia do império britânico, onde nasceu. Seus pais eram imigrantes indianos. Vivendo naquela pequena ilha caribenha, privado do contato com as raízes de sua etnia, Naipaul teve de encontrar seu caminho partindo de um "vazio espiritual". Um vazio, diz ele, semelhante àquele imposto aos convertidos do islamismo.
Quem se lembra do que aconteceu com o escritor Salman Rushdie sabe que há algo de temerário em mexer com o brio dos religiosos fundamentalistas. Em 1989, Rushdie, também britânico de origem indiana, publicou o romance Os Versos Satânicos. Nele, cometia imprudências como batizar prostitutas com os nomes das esposas de Maomé. O aiatolá Khomeini, do Irã, considerou o livro blasfemo e decretou uma sentença de morte contra seu autor, que até hoje vive sob proteção do serviço secreto inglês. Os livros de Naipaul também provocaram respostas iradas. Um crítico denunciou Além da Fé como um amontoado de preconceitos, um panfleto "islamofóbico" para o consumo de liberais brancos. Resenhistas menos agressivos observaram que o retrato do islã como um imperialismo avassalador é falso, pois é feito sem levar em conta sutilezas históricas. Mas Naipaul não chegou a sofrer ameaças. O motivo provavelmente é um só: seus livros não criticam a religião, mas apenas apontam seus efeitos sociais nefastos. Ainda que se tenha pouco interesse pelos países islâmicos, vale a pena ler Naipaul. Numa época em que os escritores são desleixados com as palavras, ele é de um rigor obstinado. Na preparação de Entre os Fiéis e Além da Fé, seu método foi o mesmo (embora só atinja a perfeição no segundo livro): a cada viagem ele entrevistava pessoas e recolhia suas histórias. Ao escrever, deixava que cada personagem falasse com a própria voz. Seu papel era o de "administrador da narrativa", o de buscar o termo preciso, que não falsificasse a realidade observada ou o depoimento colhido. Além disso, Naipaul lutou para suspender os próprios julgamentos. "Este é um livro sobre gente", escreve ele no prefácio de Além da Fé. "Não é um livro de opinião." É uma tarefa difícil. Muitos duvidam de que seja possível. Em seu esforço, porém, Naipaul certamente obteve uma conquista literária. Seus dois livros não se encaixam em nenhuma descrição usual. Não são jornalismo político nem narrativas tradicionais de viagem. Formam um gênero à parte, ainda sem nome – reconhecível apenas pela marca inconfundível do autor.
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