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Roberto Pompeu de Toledo

Sobre estátuas, placas
e caricaturas

Três temas do momento, invocando
do nobre Mário Covas ao burlesco
Inocêncio Oliveira

Pretende-se erguer em Santos um memorial a Mário Covas – talvez incluindo um busto, talvez uma estátua, não está decidido ainda. Espera-se que se poupe o saudoso governador de uma reprodução literal de sua figura. Não dá certo. Não que Mário Covas fosse feio. Não que sua específica figura caiba mal no bronze ou no mármore. O problema é que qualquer figura, hoje em dia, cabe mal neles. Imagine-se o mais festejado dos bonitões do cinema ou da novela. Em bronze ou mármore, vira peça humorística, versão debochada de si mesmo. Em outros tempos, sim, os homens prestavam-se a virar estátua. Tome-se Napoleão. Não se concebe figura mais perfeita para o bronze. Seja em monumentos de porte, seja em miniaturas para enfeitar a mesa do escritório, calha tão bem que se fica a conjeturar se já não nasceu estátua. Com ele dá-se o inverso: fica bem é em estátua. Ridículo devia ser em carne e osso, a andar e respirar, tossir e espirrar. E os imperadores romanos? Esses foram feitos para o mármore. Mesmo com aqueles narizes carcomidos com que seus bustos nos chegaram, ou faltando o queixo, ou uma orelha, o mármore os torna belos e convincentes.

No Brasil, o duque de Caxias fica bem nas estátuas, ainda mais em cima dos garbosos cavalos em que costuma ser acomodado. Certamente se faz respeitar e temer mais do que o fazia em pessoa. Já para voltar a uma figura de nosso tempo, Juscelino Kubitschek, este como que pede socorro, em cima do altíssimo pedestal em que foi entronizado no Memorial JK, em Brasília. É uma figurinha tímida e insignificante. Tem o braço direito voltado para cima, num aceno. Parece um náufrago, numa ilha, a tentar, com aquele braço estendido, atrair o helicóptero a seu resgate.

Mário Covas será mais bem homenageado se seu memorial se ativer a representar de forma alegórica o que foi e o que fez – mas não é para isso que se está aqui. Não é para dar conselhos aos arquitetos e escultores, que conhecem muito bem a matéria. É para oferecer ao leitor a explicação cabal e definitiva da razão pela qual a arte figurativa, seja na pintura, seja na escultura, perdeu espaço no nosso tempo. Não é que ela não nos sirva mais. Nós, quer dizer, nossas figuras, é que não servem a ela.

Pelé já deve ter sido objeto de uma dúzia de bronzes, mundo afora. Sobretudo, e sorte dele, pois os bronzes não têm como escapar de pobres representações de sua figura, foi honrado numa placa – a famosa placa que, no Maracanã, comemora um gol por ele artisticamente trabalhado, um em que pega a bola na própria área e dribla um, e dribla outro, e dribla todo mundo, e sozinho chega ao outro lado e empurra a bola para o fundo das redes. O gol está fazendo quarenta anos. Aconteceu em 1961, num jogo entre Santos e Fluminense. A idéia de comemorá-lo, inscrevendo o feito numa placa, foi do então jovem cronista esportivo Joelmir Beting, hoje colunista de economia. A iniciativa deu origem à expressão "gol de placa".

Que fazer agora? Tirar a placa de Pelé? Fazer outra, agora não celebrando um gol a favor, mas um contra? Tais indagações vêm a propósito do acordo celebrado entre ele e seus antigos e acérrimos adversários no mundo do futebol, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e o ex-presidente da Fifa João Havelange. Pelé acusava-os de muitos males, no futebol e fora dele, inclusive corrupção. Pois, na semana passada, acertaram-se todos, e ei-los posando para as fotos unidos em torno de uma bola. Pelé disse que era para o bem do futebol. Segundo Juca Kfouri, um dos jornalistas mais bem informados e de maior credibilidade do mundo do futebol, foi para o bem, sobretudo, dos negócios do antigo craque.

Com isso, Pelé iguala-se a.... releve o leitor o sacrilégio, a iconoclastia, o ato de lesa-majestade, pois afinal se trata de um rei... com isso se iguala aos Jader Barbalho e aos Antonio Carlos Magalhães. No mundo de políticos dessa extração é que as acusações de corrupção de ontem viram atestados de probidade amanhã, trocam-se as denúncias pelos pactos de silêncio, e aos rompimentos descritos como definitivos sucedem-se as alianças mais extravagantes. Em favor de Pelé aceitemos o argumento, por ele mesmo sempre reiterado, de que tem dupla personalidade – a do Edson e a do Pelé. Com isso salvamos a placa do Maracanã. Ela fica com Pelé. Já o Edson sai do episódio rebaixado, para citar outro político do momento, à categoria Inocêncio Oliveira de comportamento – o Inocêncio Oliveira que jurou que nunca mais poria os pés no Palácio, não faz um mês, e na semana passada já se acertara com o governo outra vez

Falou-se de estátuas e de placas, para terminar invocando uma caricatura viva. Sobre Inocêncio Oliveira correm piadas como a de que encomendará um par de asas para não pisar no Palácio. Talvez passe a freqüentá-lo de patins. Cabe-lhe com todas as honras, e tenha-se em conta que o páreo é duro, o título de figura mais caricata da política brasileira.

 

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