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Roberto
Pompeu de Toledo
Subsídios
para a reforma do mundo
Uma
repassada no que são e no
que poderiam ter sido os meios
de transporte de nossos dias
Caso se pergunte "Qual a mais equivocada invenção do século
XX?", a resposta clara, líquida e insofismável haverá
de ser: "O automóvel". O avião também estaria no
páreo, mas o automóvel ganha. O(a) leitor(a) se surpreende?
Achava que o século XX, período de inovações
tecnológicas notáveis, que foram do uso múltiplo
e universal da energia elétrica aos chips que puseram o computador
e a internet ao alcance de todos, tinha duas de suas mais brilhantes conquistas
no automóvel e no avião?
Diga-se desde logo que nem de longe se pensa aqui em desvalorizar as conquistas
do século que passou, nem despertar aquela sensação,
freqüente em espíritos mais dados ao devaneio, de que bom
teria sido viver em outra época quem sabe na Grécia
dos filósofos, quem sabe na Itália dos artistas do Renascimento.
Contra a tentação dessa versão trapaceira de saudade,
porque alimentada por uma saudade daquilo que não se conheceu na
pele, basta um antídoto: o dentista. Pense-se nos instrumentos
com que contava esse profissional. Pense-se na rude cadeira onde ele pousava
os pacientes. Pense-se no próprio profissional, que podia acumular
tais funções com as de barbeiro ou de aplicador de sangrias.
Pense-se, para culminar, no tratamento a frio, sem anestesia. Pronto.
Já basta, para curar de qualquer possível animosidade contra
a abençoada época em que nos coube viver. Passemos então
ao automóvel e ao avião, nosso tema de hoje, para distrair
da troca de governo, do dólar e assuntos correlatos.
Comecemos pelo avião. No início, com Ícaro, não
era com isso que sonhava a humanidade. Não era com transporte coletivo
pelos ares. Era com asas. Isso sim é que seria invenção!
Asas que libertassem o indivíduo, cada ser humano, em sua singularidade,
da ditadura do solo. O avião, cápsula onde se enclausuram
alguma dezenas, às vezes centenas de pessoas, condenadas ao desconforto,
todas, e muitas ao medo, é a invenção errada. O par
de asas, muito ao contrário de transmitir sensações
desagradáveis ou negativas, representaria alegria e liberdade.
Cada vez mais práticas e sintéticas, ao chegar em casa ou
escritório seu usuário as deixaria em objetos semelhantes
aos atualmente existentes para deixar os guarda-chuvas. Imagine-se como
seria diferente cada detalhe da vida se todos contassem com seu par de
asas. Não haveria necessidade de elevador, nem de escada, nem de
ponte. Nem mesmo de regras de trânsito, uma vez que a movimentação
se daria nos infinitos vazios do espaço aéreo. Deixaríamos
um pouco a condição humana para nos aproximar dos anjos,
e não é impossível que, nessa passagem, assimilássemos,
dos anjos, alma dotada de mais bondade e sacudida por menos aflições.
Não deu para inventarem as asas? Poderiam, pelo menos, ter inventado
o avião compacto, de uso individual ou familiar. Frustrado o sonho
de Ícaro, foi disso, de Leonardo da Vinci a Santos Dumont, que
se cogitou. Também não deu? Então, agora já
passando ao transporte terrestre, uma vez que, em matéria de transporte
aéreo, tivemos de ficar mesmo com o avião da maneira como
hoje se apresenta, que inventassem um automóvel mais amigo, mais
maleável e menos agressivo. Enumerar os males do automóvel,
tal qual hoje entope as ruas e estradas do planeta, será talvez
ocioso, mas vá lá, recapitulemos. Trata-se de uma geringonça
que, nas ruas, ocupa de 10 metros quadrados para mais e que transporta,
na maioria das vezes, uma só pessoa! Está-se diante de um
descalabro que tumultua a circulação, desfigura as cidades
e acaba com os nervos. O automóvel, não bastasse isso, pôs-se
em posição tão central na economia do planeta que
até guerras se travam para que nada perturbe seu sossego. Agora
mesmo, o petróleo, seu alimento, é citado como a razão
oculta de tanta volúpia americana em guerrear contra o Iraque.
Enfim, se nada do exposto convence, o automóvel polui e mata. A
humanidade conviveria melhor com um veículo menor e mais leve,
talvez do tamanho de um carrinho de supermercado. Ou parecido com um carrinho
de parque de diversões, desses movidos a eletricidade e com borracha
nas bordas para baterem à vontade uns nos outros. Se o caso é
um veículo que não ocupe tanto espaço, já
existe a motocicleta, dirá o leitor. Não, a motocicleta
foi virando um monstro de aspecto sinistro e movimentos assustadores.
É quase um veículo militar, quando nossa causa é
pela paz.
Não deu, também, para inventarem uma alternativa mais humana
ao automóvel? Então... Como não se pensou nisso antes?
Está claro como o dia: não eram os automóveis, ou
motos, ou caminhões, ou seja lá que outra invenção,
que tinham de andar. Eram as ruas e estradas. As ruas e estradas seriam
como esteiras rolantes, sobre as quais se viajaria sentado, de pé
ou, em percursos mais longos, deitado. Haveria faixas de maior ou menor
velocidade e cabines, coletivas ou individuais, para quem não quisesse
se expor ao ar livre, tudo a custo zero em stress, poluição
e acidentes. É mais do que evidente que devia ser assim. Inventaram
tudo errado.
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