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Edição 1 778 - 20 de novembro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Subsídios para a reforma do mundo

Uma repassada no que são e no
que poderiam ter sido os meios
de transporte de nossos dias

Caso se pergunte "Qual a mais equivocada invenção do século XX?", a resposta clara, líquida e insofismável haverá de ser: "O automóvel". O avião também estaria no páreo, mas o automóvel ganha. O(a) leitor(a) se surpreende? Achava que o século XX, período de inovações tecnológicas notáveis, que foram do uso múltiplo e universal da energia elétrica aos chips que puseram o computador e a internet ao alcance de todos, tinha duas de suas mais brilhantes conquistas no automóvel e no avião?

Diga-se desde logo que nem de longe se pensa aqui em desvalorizar as conquistas do século que passou, nem despertar aquela sensação, freqüente em espíritos mais dados ao devaneio, de que bom teria sido viver em outra época – quem sabe na Grécia dos filósofos, quem sabe na Itália dos artistas do Renascimento. Contra a tentação dessa versão trapaceira de saudade, porque alimentada por uma saudade daquilo que não se conheceu na pele, basta um antídoto: o dentista. Pense-se nos instrumentos com que contava esse profissional. Pense-se na rude cadeira onde ele pousava os pacientes. Pense-se no próprio profissional, que podia acumular tais funções com as de barbeiro ou de aplicador de sangrias. Pense-se, para culminar, no tratamento a frio, sem anestesia. Pronto. Já basta, para curar de qualquer possível animosidade contra a abençoada época em que nos coube viver. Passemos então ao automóvel e ao avião, nosso tema de hoje, para distrair da troca de governo, do dólar e assuntos correlatos.

Comecemos pelo avião. No início, com Ícaro, não era com isso que sonhava a humanidade. Não era com transporte coletivo pelos ares. Era com asas. Isso sim é que seria invenção! Asas que libertassem o indivíduo, cada ser humano, em sua singularidade, da ditadura do solo. O avião, cápsula onde se enclausuram alguma dezenas, às vezes centenas de pessoas, condenadas ao desconforto, todas, e muitas ao medo, é a invenção errada. O par de asas, muito ao contrário de transmitir sensações desagradáveis ou negativas, representaria alegria e liberdade. Cada vez mais práticas e sintéticas, ao chegar em casa ou escritório seu usuário as deixaria em objetos semelhantes aos atualmente existentes para deixar os guarda-chuvas. Imagine-se como seria diferente cada detalhe da vida se todos contassem com seu par de asas. Não haveria necessidade de elevador, nem de escada, nem de ponte. Nem mesmo de regras de trânsito, uma vez que a movimentação se daria nos infinitos vazios do espaço aéreo. Deixaríamos um pouco a condição humana para nos aproximar dos anjos, e não é impossível que, nessa passagem, assimilássemos, dos anjos, alma dotada de mais bondade e sacudida por menos aflições.

Não deu para inventarem as asas? Poderiam, pelo menos, ter inventado o avião compacto, de uso individual ou familiar. Frustrado o sonho de Ícaro, foi disso, de Leonardo da Vinci a Santos Dumont, que se cogitou. Também não deu? Então, agora já passando ao transporte terrestre, uma vez que, em matéria de transporte aéreo, tivemos de ficar mesmo com o avião da maneira como hoje se apresenta, que inventassem um automóvel mais amigo, mais maleável e menos agressivo. Enumerar os males do automóvel, tal qual hoje entope as ruas e estradas do planeta, será talvez ocioso, mas vá lá, recapitulemos. Trata-se de uma geringonça que, nas ruas, ocupa de 10 metros quadrados para mais – e que transporta, na maioria das vezes, uma só pessoa! Está-se diante de um descalabro que tumultua a circulação, desfigura as cidades e acaba com os nervos. O automóvel, não bastasse isso, pôs-se em posição tão central na economia do planeta que até guerras se travam para que nada perturbe seu sossego. Agora mesmo, o petróleo, seu alimento, é citado como a razão oculta de tanta volúpia americana em guerrear contra o Iraque.

Enfim, se nada do exposto convence, o automóvel polui e mata. A humanidade conviveria melhor com um veículo menor e mais leve, talvez do tamanho de um carrinho de supermercado. Ou parecido com um carrinho de parque de diversões, desses movidos a eletricidade e com borracha nas bordas para baterem à vontade uns nos outros. Se o caso é um veículo que não ocupe tanto espaço, já existe a motocicleta, dirá o leitor. Não, a motocicleta foi virando um monstro de aspecto sinistro e movimentos assustadores. É quase um veículo militar, quando nossa causa é pela paz.

Não deu, também, para inventarem uma alternativa mais humana ao automóvel? Então... Como não se pensou nisso antes? Está claro como o dia: não eram os automóveis, ou motos, ou caminhões, ou seja lá que outra invenção, que tinham de andar. Eram as ruas e estradas. As ruas e estradas seriam como esteiras rolantes, sobre as quais se viajaria sentado, de pé ou, em percursos mais longos, deitado. Haveria faixas de maior ou menor velocidade e cabines, coletivas ou individuais, para quem não quisesse se expor ao ar livre, tudo a custo zero em stress, poluição e acidentes. É mais do que evidente que devia ser assim. Inventaram tudo errado.

   
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