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Edição 1 778 - 20 de novembro de 2002
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Há dois perfis definidos de quem está conhecendo pessoas pela internet. O primeiro é o sujeito que se inscreve em um site de namoro com o objetivo claro de sair com alguém. Ele paga uma mensalidade, expõe sua foto, dá detalhes sobre seus gostos pessoais e especifica quem quer conhecer. Nessa categoria, 95% das pessoas estão dispostas a sair de casa para se encontrar com um estranho escolhido via internet. O outro tipo é chamado de navegador "desbravador". É o internauta que se aventura esporadicamente em salas de bate-papo e só depois de muita conversa topa um programa pessoalmente. A experiência mostra que, nesse caso, um contato ao vivo é raríssimo: fala-se antes com cerca de quarenta interlocutores para confirmar um único encontro.

 
Oscar Cabral

"Apesar de viver sempre rodeado de gente, sou um sujeito relativamente tímido. Consigo me expressar muito melhor escrevendo do que falando. Foi por essa razão que a internet se tornou um hábito na minha vida. De uma hora para outra, passei a me relacionar com uma série de pessoas que jamais imaginei encontrar no meu dia-a-dia. Isso é muito enriquecedor. Não entrei na internet com um objetivo definido. Queria simplesmente ampliar o leque de pessoas que conheço. E foi o que aconteceu."
CARLOS EDUARDO NIEMEYER,
fotógrafo, 48 anos

Mas, afinal, o que querem as pessoas que buscam um namoro pela internet? O banco de dados do ParPerfeito aponta que os traços de caráter mais especificados são diferentes para ambos os sexos. Eles querem conhecer uma mulher bonita e independente. Elas, um homem companheiro e bem-humorado. "Mas, no fundo, o que querem é outra coisa. Homens querem sexo. Mulheres, achar o príncipe encantado", afirma o sexólogo carioca Charles Rojtenberg, que durante oito anos entrevistou 5.000 freqüentadores de salas e sites de namoro para tentar responder à pergunta. Esse é o ponto. A maioria das mulheres realmente quer um envolvimento sério. Já os homens vêem na internet um instrumento eficaz para encontros furtivos e casuais. Ou seja: sexo sem compromisso. Na avaliação de Rojtenberg, isso não significa que as relações iniciadas pelo computador estejam fadadas ao fracasso. O que é preciso é saber dar a dimensão exata a esse tipo de relacionamento. "O fundamental é ter claro que a internet é um excelente lugar para conhecer pessoas. Não significa que você vai se casar com elas", comenta. Segundo sua pesquisa, apenas 2% das relações que nascem on-line resultam em casamento. O restante não ultrapassa o jantarzinho, uma ida ao motel ou uma viagem de fim de semana. O fotógrafo Carlos Eduardo Niemeyer, 48 anos, neto do arquiteto Oscar Niemeyer, está inscrito no Comovai. "Em geral, sou um cara tímido. Não entrei com intenção definida. Queria simplesmente ampliar o leque das pessoas que conheço. E isso realmente aconteceu", afirma.


Com a mesma freqüência com que se ouve falar das maravilhas dos encontros pela internet se escutam casos bizarros. Todo mundo sempre tem uma história horrorosa para contar. A do sujeito apaixonado que foi se encontrar com um pitéu de 25 anos, que na verdade era um senhor homossexual de 56. A da moça que se dizia 'um pouco acima do peso' e, de fato, estava com 165 quilos. Ou a da jovem que deu muito dinheiro a um picareta que a tinha pedido em casamento depois de um mês de bate-papo na internet. De fato, há uma coleção perturbadora de casos dessa ordem. Ninguém duvida que, numa conversa entre dois desconhecidos, possa haver boa dose de mentira e fantasia. "Mas, em geral, são mentiras prosaicas ligadas à fantasia do que se pretende ser. Mulheres mentem sobre sua aparência porque sabem que são julgadas por isso. Homens mentem sobre o status social porque também são cobrados socialmente nesse sentido", afirma o psiquiatra paulista Luiz Cushnir. É evidente que existem homens e mulheres de péssimo caráter on-line. Mas você poderia topar com qualquer um deles em um restaurante ou mesmo no cafezinho de sua empresa.

Em geral, tem-se a impressão de que as teorias sobre a falibilidade dos encontros pela internet são mais baseadas em preconceitos que em fatos. Como se só fosse possível conhecer a pessoa ideal na faculdade (visão tradicional) ou numa trombada de carrinhos de supermercado (visão super-romântica). É como se houvesse algum código velado que proibisse as pessoas – principalmente as mulheres – de colocar sua foto, dizer o que esperam de alguém e, finalmente, poder achar uma pessoa interessante para se relacionar. A principal vantagem da internet é possibilitar os encontros. É evidente que o resto da paquera vai ficar por conta dos envolvidos. Como em uma relação em que os dois foram apresentados por amigos em comum. A advogada paulistana Renata Malagoli, 25 anos, namora há seis meses o publicitário Rogério Barcellos, 30 anos, que conheceu num site de namoro. Ambos são jovens, bonitos e bem-sucedidos e vêm de famílias com dinheiro. "Eu sempre achei que ia encontrar um cara como ele na praia, em uma viagem pela Europa, sei lá. Mas nunca aconteceu. Percebo que algumas pessoas olham estranho quando digo que o conheci na internet. É puro preconceito. O que importa é que estamos no maior amor", diz.

 
Antonio Milena

"Foi idéia das minhas amigas me inscrever nos sites de namoro. Eu recebia vários e-mails por dia de gente querendo me conhecer. É uma maravilha para o ego. Um dia, chegou a foto do Rogério. Eu pensei: 'Que gato! Não é possível!'. A gente foi se falando e descobrindo coisas em comum. Freqüentávamos os mesmos lugares, tínhamos quase a mesma rotina, mas nunca havíamos nos encontrado. Sempre achei que fosse conhecer um cara como ele na praia ou numa viagem pela Europa. A maioria das mulheres cultiva essa fantasia romântica. Imaginar que vai conhecer alguém pela internet sempre soou estranho. Mas foi assim que achei o homem com que sempre sonhei."
RENATA MALAGOLI,
advogada, 25 anos

"Na minha opinião, o mais interessante da internet é a possibilidade de você praticamente encomendar alguém. Há tantos filtros para chegar a um perfil que seja compatível com o que você espera que no mínimo amizade você vai fazer com a outra pessoa. É evidente que há exceções. Conheci cerca de quinze mulheres pessoalmente. Posso dizer que pelo menos dez foram um erro, mentiram. A maioria disse que estava em forma. Na verdade, estavam bem acima do peso. Mas cinco foram sensacionais. Acho que isso já é excelente. Imagine: se você for a uma boate ou um barzinho dificilmente vai conhecer uma pessoa interessante. Que dirá cinco! Ter encontrado alguém como a Renata me parecia quase impossível. E agora veja só: tudo por causa de um anúncio num site de namoro."
ROGÉRIO BARCELLOS,
publicitário, 30 anos



Ao que tudo indica, as relações que parecem dar certo são as construídas com o menor grau possível de expectativa. "É um erro achar que só porque você teclou dias com alguém virou íntimo da pessoa. É preciso saber que, ao se encontrarem, vocês serão dois estranhos da mesma maneira. É necessário começar todo o processo de conhecimento de novo", observa a psicanalista Magdalena Ramos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É evidente que há uma série de posturas que a pessoa deve ter em mente antes de iniciar uma paquera pela internet. A principal delas diz respeito a você mesmo. Os especialistas aconselham a pessoas carentes e solitárias jamais se envolver em relações virtuais. "Como está fragilizado, esse tipo de temperamento se torna um alvo fácil para pessoas mal-intencionadas", explica a psicoterapeuta paulista Lídia Aratangy. Também é importante se preservar ao máximo, mesmo que a conversa pela internet seja empolgante. Jamais dê seu endereço ou o telefone de sua casa. É tão arriscado quanto sair distribuindo seu cartão de visita pela arquibancada de um jogo de futebol. E principalmente: nunca acredite de cara em tudo o que a outra pessoa escrever. O tempo e a convivência vão dizer se você deve ou não dar a ela um voto de confiança. Antes disso, só preste atenção. E saiba: tendo ou não encontrado alguém para um relacionamento amoroso, ninguém se arrepende de ter se inscrito nos sites. Todos concordam que é um excelente manancial para fazer amigos, conhecer pessoas diferentes e, sobretudo, inflar o ego. Receber trinta mensagens de pessoas que o acharam o máximo e querem conhecê-lo triplica a chance de você ter companhia durante suas vazias noites de sábado. E, nesse caso, não faz a mínima diferença ser um parceiro pontocom.

   
 
   
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