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"O livre-comércio é um meio eficaz de enfrentar a pobreza, mas é preciso ter um ambiente favorável para que funcione" |
O tailandês Supachai Panitchpakdi, 56 anos, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) desde 1º de setembro, enfrenta um desafio hercúleo em seu mandato de três anos: tornar mais justa a economia global, num momento em que o desemprego e a guerra contra o terror fecham os mercados. Ele sabe que mexe num vespeiro. Sua prioridade é a agricultura, tema vital para o Terceiro Mundo. Condena as subvenções dos países ricos aos agricultores, que derrubam preços de produtos como açúcar e algodão, prejudicando os produtores dos países em desenvolvimento. "Subsídios serão sempre injustos", diz, mansamente. Supachai defende o comércio sem barreiras, a ajuda técnica e financeira a países em desenvolvimento e o livre acesso a remédios essenciais. Ex-primeiro-ministro da Tailândia, budista, casado e com um casal de filhos, Supachai medita toda noite para alcançar o que chama de "concentração da mente". Uma disciplina essencial para conciliar os interesses dos 144 países-membros, como disse a VEJA em sua sala dominada por um quadro com flores de lótus, em Genebra, na Suíça.
Veja O livre-comércio foi apontado como a solução
para a economia global, mas a pobreza continua aumentando no Terceiro
Mundo. O que deu errado?
Supachai
As pessoas superestimam o livre-comércio como a cura para todos
os males sociais do mundo. Eu nunca disse que o comércio sem barreiras
seria o único meio de enfrentar a pobreza. É certamente
um dos meios eficazes, mas não o único. É preciso
também um ambiente econômico adequado para que as regras
do livre-comércio funcionem.
Veja Em que países as regras do livre-comércio
não podem funcionar?
Supachai
O livre-comércio não funciona onde há intervenção
excessiva do governo, muitas empresas estatais e sistemas de câmbio
fixo. Com esse quadro, é impossível atrair investidores
estrangeiros. Para funcionar, é preciso abrir o mercado, reformar
o sistema econômico e financeiro, ter eficiência no setor
público, parcerias entre empresas públicas e privadas, políticas
voltadas para a exportação e a diversificação
do mercado. São algumas condições básicas.
Veja O senhor acredita que o comércio global posssa
reduzir o desemprego?
Supachai
Acredito piamente que sim. Mas não basta. Temos de saber promover
o deslocamento de emprego. As estruturas de produção continuam
mudando para abrigar novas tecnologias, novas competências, novos
ciclos. Países que aprendem a lidar com o dinamismo e que são
flexíveis a ponto de treinar a população nas novas
especializações enfrentam melhor a onda de desemprego. O
problema é que vários governos ajudam indústrias
deficitárias e dificultam a vida de setores mais competitivos.
Veja Os produtos agrícolas, que correspondem à
maior parte das exportações dos países em desenvolvimento,
são taxados com impostos quatro vezes superiores aos aplicados
a produtos manufaturados. Isso não condena o Terceiro Mundo irremediavelmente
à pobreza?
Supachai
É claro que sim. E é por isso que nós temos de cumprir
a agenda decidida na reunião da OMC realizada há um ano,
em Doha, no Catar. Esses são exatamente os pontos que estamos enfatizando.
Especialmente na agricultura. Em Doha, foram colocados na mesa alguns
compromissos: maior acesso aos mercados, redução drástica
das tarifas e corte substancial dos subsídios internos que provocam
distorções. Sabemos que agricultura e têxteis são
um tema altamente politizado. Os países ricos estão lentos
demais nessa primeira fase de negociações.
Veja O senhor advertiu que não se deve adiar um consenso
sobre duas questões fundamentais: a agricultura e o acesso a medicamentos
para combater a Aids e a malária. Está havendo má
vontade dos países industrializados?
Supachai
Precisamos de mais agilidade e maior empenho de todos os países
envolvidos, se é que queremos chegar a algum lugar. Precisamos
também de maior participação civil, das ONGs e das
grandes empresas, com as quais pretendo contar cada vez mais, no contexto
de painéis consultivos. Acho que, depois de um ano de conversas,
necessitaremos ter propostas concretas e novas.
Veja Países como o Brasil só podem crescer
se exportarem mais. Mas como fazer isso se o Brasil enfrenta o protecionismo
americano e europeu?
Supachai
O Brasil está agindo corretamente. Tem gente que não vai
gostar do comentário, mas asseguro que o país está
certo ao embarcar, em certas questões, numa abertura comercial
unilateral. É preciso, sim, libertar a economia do desperdício
que é a forte intervenção estatal. Redirecionar esses
gastos para atividades mais produtivas. Se conseguirmos um consenso para
reduzir as tarifas de importação e acabar com os subsídios
dados pelos países ricos a seus produtos, então o Brasil
vai encontrar mais mercados. É simples. Mas é preciso seriedade.
Sei que o Brasil está comprometido de verdade. Há países
que se dizem comprometidos com a agenda de Doha, mas estão mais
preocupados com ajustes domésticos. Farei o possível para
estimular os países a se entenderem.
Veja O senhor é o primeiro diretor-geral da OMC que
vem do mundo em desenvolvimento e, por isso, é visto como um porta-voz
dos países mais pobres. A OMC mudará o foco durante seu
mandato?
Supachai
Minha prioridade é tornar mais justo o sistema global do comércio,
para que aumente a participação de todos, inclusive o acesso
à OMC. A China levou tempo demais, treze anos, para ser aceita
na organização, o que aconteceu apenas em janeiro de 2002.
Temos de ampliar a representatividade dessa tribuna para os países
mais carentes e tornar transparentes os processos de inclusão.
Mas eu não posso, como diretor-geral da OMC, ser porta-voz de apenas
uma parte dos países-membros. Só admito que, com a experiência
que adquiri na Ásia, tenho condições de injetar elementos
que ajudem a melhorar o sistema e nossa assistência a quem precisa.
Veja A União Européia é o maior exportador
de açúcar do mundo, apesar de ter um custo de produção
que é o dobro do brasileiro. A explicação está,
sobretudo, nos subsídios à exportação. Como
o Brasil pode mudar as regras do jogo?
Supachai
Entenda que não posso analisar disputas específicas. Mas,
a meu ver, subsídios serão sempre injustos. Normalmente,
são determinados por considerações políticas.
É claro que não podemos ignorar a conjuntura política
de cada país, mas deveria haver pelo menos uma ambição:
o propósito de livrar as economias de encargos desnecessários.
Os únicos subsídios positivos são os que melhoram
a infra-estrutura do país e incentivam a pesquisa.
Veja Os produtores de algodão dos Estados Unidos recebem
3,9 bilhões de dólares por ano em subsídios, três
vezes a ajuda que o país dá à África. Por
outro lado, o subsídio americano derruba o preço do algodão
no mercado internacional e prejudica bastante os países africanos.
O senhor acredita que podemos falar em justiça global?
Supachai
Sem entrar no mérito individual da questão, acho que o mundo
precisa dar-se conta de que existem países que têm de começar
do zero, muito mais atrasados que o Brasil, e que necessitam demais de
ajuda financeira e técnica. É impossível generalizar
num mundo com tantos estágios de desenvolvimento. Há países
que não podem sequer tirar proveito do livre-comércio porque
simplesmente não têm nada para vender. Temos de ajudá-los
a desenvolver uma estrutura de produção. E também
não adianta ajudar financeiramente sem reduzir as barreiras comerciais.
Somos uma aldeia global, tudo está conectado. E, para o bem de
todos, algo deve ser feito.
Veja O senhor costuma dizer que a globalização
é um fato, nem bom nem ruim. Hoje, há um sentimento de que
a globalização pode ter contribuído para aumentar
a disparidade entre ricos e pobres. O senhor concorda?
Supachai
A globalização sempre existiu. Não é novidade.
Países como Inglaterra, Espanha e Portugal comercializavam com
ilhas no Oriente séculos atrás. Hoje há quem associe
globalização a exploração. Naqueles tempos,
existia mais exploração. E todo o processo de colonização?
O que mudou foi o ritmo, muito mais rápido por causa das novas
tecnologias. O importante é saber como podemos administrar esse
processo. Cada país deve esforçar-se para ser flexível
e estar atento todo o tempo, fortalecendo as imunidades de seu sistema
financeiro. Mas os rumos da globalização só podem
ser influenciados por instituições internacionais.
Veja Os grandes conglomerados transnacionais tomam pouco
a pouco o papel dos governos. A OMC sempre negociou com governos nacionais.
A emergência desse novo poder dificulta sua atuação?
Supachai
Essa é uma tendência preocupante. A última pesquisa
das 100 maiores economias do mundo revelou que cinqüenta delas não
são países, e sim corporações. Meu esforço
é tentar aproximar essas grandes empresas da OMC. Poderemos expor
nossas opiniões, ouvir o que cada uma tem a dizer claramente. Gostaria
de tentar discutir boas condutas empresariais. Tenho amigos que são
presidentes de empresas e tento aconselhar-me com eles. Posso orientar
as que queiram investir recursos em prol de uma economia global mais coerente.
É uma iniciativa pessoal, ainda não totalmente aceita pelos
países-membros da OMC. Mas vou continuar tentando. É crucial
que a sociedade civil seja ouvida de forma regular, organizada. Não
podemos nos comportar como navios que se cruzam à noite sem jamais
tomar conhecimento um do outro.
Veja Quando o senhor começou a disputar o comando
da OMC, três anos atrás, o mundo estava mais otimista. Após
o 11 de setembro e a luta contra o terror, os países não
se fecharam ainda mais?
Supachai
Os anos 90 foram uma década maravilhosa. A economia dos Estados
Unidos ia bem, o crescimento vertiginoso dos países asiáticos
parecia não ter fim, até que todos despertaram do sonho
para uma realidade bem dura. Agora, estamos numa década difícil.
Mas não me queixo. Podemos e devemos ser otimistas. Nunca previ
o que está acontecendo, mas faz parte de meu treinamento em economia
aceitar os ciclos de evolução. Os fatos intangíveis
modificam os cenários. É por isso que um sistema financeiro
sadio é a única garantia contra turbulências econômicas
que vão aparecer mais cedo ou mais tarde.
Veja O discurso nacionalista de alguns países não
vai contra seus projetos?
Supachai
É uma reação natural aos efeitos negativos da globalização.
Até a Ásia, que era o símbolo do livre-comércio,
surpreende o mundo com movimentos nacionalistas. Não acredito que
essa ideologia tenha vida longa. O nacionalismo não veio para ficar.
Veja O Brasil conseguiu, numa reunião da OMC, fazer
valer o direito de ignorar patentes de remédios em caso de epidemias.
Patentes freiam o desenvolvimento do Terceiro Mundo?
Supachai
O Brasil ganhou esse caso não apenas por seus méritos, mas
porque o mundo estava passando a pensar como o Brasil. Era uma causa não
só brasileira, mas de vários países gravemente afetados
pela epidemia da Aids que estavam se sentindo prejudicados pela lei de
patentes. Sempre acreditei no poder das idéias e das opiniões.
Da mesma forma que ocorreu com as patentes, precisamos criar uma consciência
mundial contra os subsídios. Até o fim do ano esperamos
chegar a acordos que permitam que todos lancem mão de medicamentos
essenciais. Outras aplicações da lei de patentes têm
de ser analisadas por entidades ligadas à tecnologia. Precisamos,
sem dúvida, de mais transferência de tecnologia, mais pesquisa
e mais investimentos nessa área.
Veja O senhor disse em discurso na universidade de Bangcoc,
em 1998, que nove países asiáticos, entre eles a Tailândia,
cresceram três vezes mais que a América Latina de 1965 a
1990. Que lições a Ásia tem a oferecer?
Supachai
Isso mereceria uma análise profunda. Mas, para ser breve, posso
dizer que a Ásia investiu muito mais tempo em reformas internas
que a América Latina. Foi um longo processo. E a maneira como ela
se lançou aos desafios da nova economia, produzindo chips, circuitos
integrados etc., fez a diferença. A Ásia nunca foi boa inventando
nada, mas foi excelente na implementação de invenções
de outros países. Isso é uma coisa que a América
Latina ainda tem de descobrir como fazer. A Ásia usou muita criatividade
e foi extremamente disciplinada. E orientou toda a sua economia para o
mercado.
Veja Muitos dizem que não há mais espaço
para organismos regionais, como o Mercosul. O senhor concorda?
Supachai
De forma alguma. Acho o Mercosul uma bela idéia, mas no momento
existe a pressão das crises econômicas internas. Está
difícil operacionalizar a idéia, mas temos de negociar o
fim de barreiras comerciais entre vizinhos. Veja nosso mercado regional
da Ásia. Temos altos e baixos, mas persistimos sempre. E o Mercosul
não pode ser abandonado.
Veja Como o senhor acha que a OMC deveria reagir a violações
de compromissos por parte dos países-membros?
Supachai
Nós estamos exatamente em meio a uma revisão desse processo
jurídico regulador. Eu sei muito bem que precisamos dar mais atenção
à função da OMC de fazer valer o que está
escrito. As disputas demoram tempo demais, e a lentidão não
beneficia as relações comerciais entre os países.
Veja Como o budismo influencia seu desempenho como diretor-geral
da OMC?
Supachai
O
budismo ajuda muito a concentrar minha mente. Pelo menos uma vez por dia,
toda noite, antes de ir para a cama dormir, eu me concentro. Durante o
dia, sempre que tenho alguns minutos livres, pratico alguma forma de meditação.
Veja O senhor disse que "a briga de sua vida" era comandar
a OMC, uma organização "crivada de problemas". O que o atraiu
tanto?
Supachai
A OMC vale uma boa briga. Se fosse uma organização confortável,
sem disputas, não haveria desafio. Eu poderia continuar em meu
país, como vice-primeiro-ministro da Tailândia, com minha
mulher, meu filho e minha filha.
Veja O que pode deixá-lo feliz em 2005, ao fim de
três anos de mandato?
Supachai
Gostaria de conseguir promover uma coerência individual e global.
Não só fortalecer nossa instituição, mas melhorar
o entendimento entre as instituições internacionais e contribuir
para um comércio mais eficiente. Busco a criação
de uma autoridade global guiada sobretudo pela coerência de princípios,
valores e atitudes.
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