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Gustavo
Franco
Social-democracia
e Brasil real
"O
mundo real foi um choque para os
tucanos, quando eles chegaram ao poder.
Já o PT, que desenvolveu a habilidade de
atirar pedras, a partir de agora deverá
esquecer todo dia um pouco o seu passado"
Ilustração Ale Setti
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A idéia de social-democracia (SD) desembarcou no Brasil no fim
dos anos 80 e foi apropriada em maior medida pelo PSDB, mas também,
na época, pelo PDT e mesmo pelo PT. O fato é que o PSDB,
um "partido de quadros" (ou seja, cheio de intelectuais de sotaque europeu
e de políticos sem muito voto, com honrosas exceções),
depois de um arrastado quarto lugar nas eleições de 1989,
chegou ao poder de forma avassaladora e inesperada nas eleições
de 1994.
É
certo que a vitória não tinha propriamente que ver com a
SD do PSDB, menos ainda com sua reputação de indecisão,
mas com o Plano Real, produto concebido por uns poucos economistas do
PSDB, todos com pós-graduação em ilustres universidades
americanas.
Com efeito, o mundo real foi um choque indelével para os tucanos,
que chegaram ao poder como os franceses no Novo Mundo, no século
XVI, e aqui descobriram a "cunhadagem", a indolência dos nativos,
e também dos colonos, mais chegados a uma esperteza que ao trabalho.
Tudo diferente do que se esperava.
Para começar, em vez de iniciar o governo pensando num welfare
state (estado de bem-estar social), a SD do B, então em formação,
tinha mesmo era de administrar um pacotão destinado a pôr
fim a uma hiperinflação. Para quem esperava ser Felipe González,
era incômodo o papel de Joaquim Murtinho. Para quem tinha sido educado
lendo Keynes, e aprendido (ou decorado) ao menos uma dúzia de maneiras
de dizer que Orçamento equilibrado era "coisa de neoclássicos",
era penoso transformar-se em uma espécie de tesoureiro de um país
que reconhecidamente havia se tornado uma espécie de alcoólatra
em matéria de irresponsabilidade fiscal e inflação.
Para quem tinha uma embocadura nacionalista, foi igualmente chocante perceber
que o aparato protecionista havia degenerado em uma imensa máquina
de geração de privilégios e de "rendas de monopólio",
o mesmo valendo para a política industrial. Para quem imaginava
criar parcerias européias, tripartites e concertadas, entre setor
público e empresas privadas, o que se via eram conluios espúrios,
com vistas a pilhar o Estado, centenas de maneiras de se apropriar da
regulação pública para benefício privado.
Eram tempos do "BNDES Hospital" e de "exames de similaridade", conduzidos
por entidades de classe, para barrar importações, e, menos
remotamente, de câmaras setoriais, entre outras práticas
hoje extintas ou adormecidas.
Para quem esperava comandar uma esclarecida e germânica burocracia
weberiana, era ultrajante perceber que o vezo era o da defesa intransigente
de alguns interesses nacionais, e apenas estes.
Também melancólico era ver a maioria das estatais quebrada,
muitas consumidas pelo corporativismo ou coisa pior. Para alguém
de esquerda, que historicamente não gosta de banco, nada poderia
ser pior que ver quebrados muitos, ou quase todos, os bancos públicos
e muitos dos maiores bancos privados. E ter de montar operações
para sanear o sistema financeiro a fim de proteger o depositante, que
não tem culpa de nada, e ver-se, por fim, acusado de governar para
os bancos.
Pior que tudo, todavia, era a Previdência: o que na Europa era um
dos pilares básicos do welfare state, no Brasil havia se tornado
uma máquina de criação e reprodução
de desigualdade numa escala impensável.
Como a SD do B devia lidar com isso tudo? Abertura? Privatização?
Saneamento bancário? O regime cambial? A indexação?
Onde olhar para uma solução? Onde encontrar um terreiro
para psicografar Max Weber? Ou "receber" o "espírito de Weimar"?
O que foi feito da "terceira via"?
Enquanto não era governo, e não tinha de resolver os problemas
do mundo real, a SD do B tinha tantas dúvidas que o "muro", não
o de Berlim, mas o da hesitação, se tornou sua maldição.
O poder levou o PSDB do muro à vidraça. Já o PT,
mais socialista que a SD, em vez de lidar com suas dúvidas usando
um muro, desenvolveu a habilidade de atirar pedras. E o fez com tamanha
competência que chegou ao poder. A partir de agora deverá
levar muitos sustos, esquecer seu passado todo dia um pouco e amadurecer.
Oxalá!
Gustavo Franco
é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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