Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
Artes e Espetáculos Ensaio
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
  A montagem de Tannhäuser assinada por Herzog
O novo livro da série Harry Potter
Quem é o poeta citado pelo terrorista Timothy McVeigh
Os programas que dão apenas 1 ponto no ibope
Shrek, o gigante verde que ameaça a Disney

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Roberto Pompeu de Toledo

Morte com platéia,
TV e telão

O tanto de show que envolve as
execuções
nos EUA acaba por
satisfazer o jogo do adversário

Matar não era o bastante. Carecia oferecer ao público o espetáculo da morte. Fosse para intimidar, para acenar com o exemplo ou consagrar a autoridade dos detentores do poder, fosse por vingança ou para simples diversão do populacho, a execução da pena de morte não estaria completa se não contasse com platéia. Era assim quando a Inquisição queimava os infiéis na fogueira ou quando os revolucionários franceses perpassavam o pescoço dos inimigos na guilhotina. E é assim – espantosamente continua assim, em que pesem os progressos na arte de matar de modo rápido e limpo – nos Estados Unidos. Foi o que o mundo pôde comprovar com a execução, na semana passada, do ex-soldado Timothy McVeigh, autor do atentado terrorista de Oklahoma City, o maior da história americana, em que morreram 168 pessoas em 1995.

Trinta e duas pessoas assistiram, no próprio local, à execução de McVeigh. Como é praxe nas numerosas execuções que se sucedem nos Estados Unidos, foram convidados os parentes dos dois lados – da vítima, ou, no caso, das vítimas, e do condenado. Com perdão pela comparação, é como num casamento, em que se convida a parentela de ambos os consortes. Como nesse caso as vítimas eram muitas, houve sorteio para selecionar os dez parentes a quem caberia a honraria. No caso do condenado, à falta de familiares que se apresentassem, sua cota ficou reduzida a seus quatro advogados. A assistência era completada por dez jornalistas e oito funcionários dos sistemas judiciário e penitenciário.

Para evitar que as famílias, de um lado e de outro, se cruzem, há sempre cabines separadas para acomodá-las. De novo com perdão pela má comparação, é como nos chamados peep-shows, em que uma mulher se despe diante de uma platéia de marmanjos que, para se protegerem da vergonha de se darem a tais diversões, se refugiam em cabines individuais e espiam o espetáculo por uma pequena janela. Mas no caso do terrorista de Oklahoma, dada sua magnitude e sua ressonância, houve uma platéia suplementar. Na própria Oklahoma City, distante do local da execução, que foi uma prisão do Estado de Indiana, foi armado um telão para que a cena, filmada em circuito fechado de TV, pudesse ser acompanhada pelos parentes não contemplados no sorteio. Cerca de 250 pessoas compareceram, acomodando-se em fileiras de cadeiras brancas. Com perdão, pela última vez, pela comparação, foi como num show de rock, em que se providenciam telões para contentar os que ficam longe do palco.

Graças à existência de uma platéia, pode-se comentar, depois, à exaustão, tal qual à saída do cinema comenta-se o filme (perdão, não era a última das más comparações), o suspiro do condenado, ou a maneira como ele encheu as bochechas, a alturas tantas do efeito da injeção letal. Pode-se também tentar reproduzir com caretas os esgares do executado. O jornal francês Le Monde publicou, em paralelo ao noticiário sobre McVeigh, a história de uma repórter do Texas que, empregada num jornal da pequena Huntsville, onde fica a penitenciária em que são aplicadas as penas de morte do Estado, tem a seu cargo cobrir as execuções. Ela já assistiu a 45 ou cinqüenta delas – nem se lembra. Já viu condenados que morrem xingando com palavrões e outros que ficam em silêncio. Uma vez, emocionou-se com um que pediu perdão aos parentes da vítima e chorou. Outra, assustou-se com um que, mesmo amarrado, debatia-se desesperadamente enquanto protestava sua inocência. Michelle Lyons, este o nome da repórter, acumulou vasta experiência no quesito últimos momentos de um condenado. Detalhe: ela tem 25 anos. Vinte e cinco aninhos, e o dobro disso em acompanhamento de execuções! Diz ela que tal programa não lhe causa prazer nem desprazer: "Faz parte do meu trabalho".

Difícil eleger o mais bárbaro, se a pena de morte em si ou o voyeurismo em torno dela. Há muitos argumentos contra a pena de morte. Um, sua irretratabilidade, está na ordem do dia, depois que, nos últimos anos, se descobriram oitenta inocentes entre os 3.500 condenados que aguardam execução nos Estados Unidos. Outro foi apresentado por Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard citado pelo correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Washington, Paulo Sotero. Pior para McVeigh, segundo Dershowitz, teria sido a prisão perpétua, que o obrigaria a passar o resto da vida numa cela, "esquecido pelos americanos e pensando a cada minuto no que fez". Mas fiquemos com um terceiro, que vale para a pena de morte como para sua promoção à categoria de espetáculo. Ambas essas coisas, este é o argumento, equivalem a fazer o jogo do inimigo. Matar é com os bandidos, como se sabe há tempo. Matar por exibicionismo, como se sabe há menos tempo, também é com eles. Ainda mais nos Estados Unidos, onde os chacineiros de supermercado, escolas ou pátios de estacionamento, bem como os assassinos de presidentes, não agem em regra por outro motivo senão o desejo de sair do anonimato. Dar-lhes platéia, câmara de TV e telão é preencher o maior de seus anseios.

 
Veja também
A cabeça do assassino

 

   
canaldecompras
O que é canal de compras
CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
 
Livros
Saraiva.com.br
Espiral
 
Ingressos
Fun by Net
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS