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Roberto
Pompeu de Toledo
Morte
com platéia,
TV
e telão
O
tanto de show
que envolve
as
execuções nos
EUA acaba
por
satisfazer
o
jogo do adversário
Matar não era o bastante. Carecia oferecer ao público o
espetáculo da morte. Fosse para intimidar, para acenar com o exemplo
ou consagrar a autoridade dos detentores do poder, fosse por vingança
ou para simples diversão do populacho, a execução
da pena de morte não estaria completa se não contasse com
platéia. Era assim quando a Inquisição queimava os
infiéis na fogueira ou quando os revolucionários franceses
perpassavam o pescoço dos inimigos na guilhotina. E é assim
espantosamente continua assim, em que pesem os progressos na arte
de matar de modo rápido e limpo nos Estados Unidos. Foi
o que o mundo pôde comprovar com a execução, na semana
passada, do ex-soldado Timothy McVeigh, autor do atentado terrorista de
Oklahoma City, o maior da história americana, em que morreram 168
pessoas em 1995.
Trinta e duas pessoas assistiram, no próprio local, à execução
de McVeigh. Como é praxe nas numerosas execuções
que se sucedem nos Estados Unidos, foram convidados os parentes dos dois
lados da vítima, ou, no caso, das vítimas, e do condenado.
Com perdão pela comparação, é como num casamento,
em que se convida a parentela de ambos os consortes. Como nesse caso as
vítimas eram muitas, houve sorteio para selecionar os dez parentes
a quem caberia a honraria. No caso do condenado, à falta de familiares
que se apresentassem, sua cota ficou reduzida a seus quatro advogados.
A assistência era completada por dez jornalistas e oito funcionários
dos sistemas judiciário e penitenciário.
Para evitar que as famílias, de um lado e de outro, se cruzem,
há sempre cabines separadas para acomodá-las. De novo com
perdão pela má comparação, é como nos
chamados peep-shows, em que uma mulher se despe diante de uma platéia
de marmanjos que, para se protegerem da vergonha de se darem a tais diversões,
se refugiam em cabines individuais e espiam o espetáculo por uma
pequena janela. Mas no caso do terrorista de Oklahoma, dada sua magnitude
e sua ressonância, houve uma platéia suplementar. Na própria
Oklahoma City, distante do local da execução, que foi uma
prisão do Estado de Indiana, foi armado um telão para que
a cena, filmada em circuito fechado de TV, pudesse ser acompanhada pelos
parentes não contemplados no sorteio. Cerca de 250 pessoas compareceram,
acomodando-se em fileiras de cadeiras brancas. Com perdão, pela
última vez, pela comparação, foi como num show de
rock, em que se providenciam telões para contentar os que ficam
longe do palco.
Graças à existência de uma platéia, pode-se
comentar, depois, à exaustão, tal qual à saída
do cinema comenta-se o filme (perdão, não era a última
das más comparações), o suspiro do condenado, ou
a maneira como ele encheu as bochechas, a alturas tantas do efeito da
injeção letal. Pode-se também tentar reproduzir com
caretas os esgares do executado. O jornal francês Le Monde
publicou, em paralelo ao noticiário sobre McVeigh, a história
de uma repórter do Texas que, empregada num jornal da pequena Huntsville,
onde fica a penitenciária em que são aplicadas as penas
de morte do Estado, tem a seu cargo cobrir as execuções.
Ela já assistiu a 45 ou cinqüenta delas nem se lembra.
Já viu condenados que morrem xingando com palavrões e outros
que ficam em silêncio. Uma vez, emocionou-se com um que pediu perdão
aos parentes da vítima e chorou. Outra, assustou-se com um que,
mesmo amarrado, debatia-se desesperadamente enquanto protestava sua inocência.
Michelle Lyons, este o nome da repórter, acumulou vasta experiência
no quesito últimos momentos de um condenado. Detalhe: ela tem 25
anos. Vinte e cinco aninhos, e o dobro disso em acompanhamento de execuções!
Diz ela que tal programa não lhe causa prazer nem desprazer: "Faz
parte do meu trabalho".
Difícil eleger o mais bárbaro, se a pena de morte em si
ou o voyeurismo em torno dela. Há muitos argumentos contra a pena
de morte. Um, sua irretratabilidade, está na ordem do dia, depois
que, nos últimos anos, se descobriram oitenta inocentes entre os
3.500 condenados que aguardam execução nos Estados Unidos.
Outro foi apresentado por Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard
citado pelo correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Washington,
Paulo Sotero. Pior para McVeigh, segundo Dershowitz, teria sido a prisão
perpétua, que o obrigaria a passar o resto da vida numa cela, "esquecido
pelos americanos e pensando a cada minuto no que fez". Mas fiquemos com
um terceiro, que vale para a pena de morte como para sua promoção
à categoria de espetáculo. Ambas essas coisas, este é
o argumento, equivalem a fazer o jogo do inimigo. Matar é com os
bandidos, como se sabe há tempo. Matar por exibicionismo, como
se sabe há menos tempo, também é com eles. Ainda
mais nos Estados Unidos, onde os chacineiros de supermercado, escolas
ou pátios de estacionamento, bem como os assassinos de presidentes,
não agem em regra por outro motivo senão o desejo de sair
do anonimato. Dar-lhes platéia, câmara de TV e telão
é preencher o maior de seus anseios.

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