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As
bruxas de Washington
As economistas americanas são
mais duronas que os homens
Irmo Celso
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| Anne
Krueger: a favor do trabalho infantil e de que as crises financeiras
machuquem os políticos |
Elas são duronas. Quando contrariadas, são más mesmo.
São dogmáticas, inflexíveis e resolvedoras de problemas.
Elas são as bruxas de Washington, como a comunidade acadêmica
americana, com um misto de temor e admiração, chama as economistas
Anne Krueger, Laura Tyson, Alice Rivlin e Charlene Barshefsky. Na semana
passada, a mais feroz delas, Anne Krueger, foi indicada para ocupar o
segundo posto em importância no Fundo Monetário Internacional
(FMI). Economista filha de australianos, Anne Krueger já viveu
na Suécia, na França, na Alemanha e na Turquia. Aos 67 anos,
professora de economia internacional na Universidade Stanford, ela é
o que parece defensora ferrenha do mercado, do câmbio livre
e da total liberdade de trânsito para o capital. É contra
salvar países a caminho de crises. Prefere ver os políticos
se prostrarem, sentirem as dores provocadas por seus próprios erros
e só então impedir que o desastre se alastre pelo mundo.
A professora Krueger será a primeira mulher a assumir um cargo
de chefia no FMI. Deverá substituir o doce Stanley Fischer, e já
se sabe que não passará despercebida. Krueger planeja abrir
os trabalhos com uma reforma. "Ela é um dínamo", diz Gavin
Wright, diretor da Universidade Stanford.
Em 1999 ela foi chamada a depor num processo que os americanos moviam
contra indústrias siderúrgicas do Brasil, do Japão
e da Rússia. Ignorou solenemente os lobistas e seus deputados de
Washington. "A indústria americana tem de se modernizar e se tornar
mais competitiva. O protecionismo não trouxe crescimento nem criou
empregos nos Estados Unidos. Não há por que retaliar produtos
estrangeiros se são feitos por empresas mais eficientes." Em outubro
do ano passado chutou outro dogma muito caro aos líderes americanos:
"Em muitos países desenvolvidos as pessoas não entendem
que o trabalho infantil existe não porque os pais sejam cruéis,
mas porque a alternativa é a fome, a prostituição
ou a vida nas ruas".
A professora Krueger é da estirpe de Alice Rivlin, ex-vice-presidente
do banco central americano, o Fed, e atual administradora de finanças
da capital dos Estados Unidos. Aos 69 anos, Alice pratica montanhismo,
e dizem que só sorri para os netos. Como qualquer boa dona-de-casa,
é especialista em controlar gastos. Renunciou ao cargo que tinha
no Fed para fazer o que mais gosta: faxina. Em seis meses acertou as contas
de Washington, que se debatia com a ruína havia duas décadas.
Sob sua vassoura, a capital federal ficou um brinco. Recebeu investimentos
privados, ganhou credibilidade para tomar empréstimos, e seus títulos
públicos passaram a pagar juros mais baixos. "Não agüento
governos perdulários que contratam dívidas absurdas para
cobrir gastos absurdos", diz.
"Ela
cospe fogo", escreveu o jornal The New York Times sobre Charlene
Barshefsky, que dirigiu o departamento de comércio americano no
governo Clinton. Foi ela quem conseguiu dobrar a coluna dos chineses e
fazê-los aderir às regras da Organização Mundial
do Comércio. Esbravejou contra o Mercosul, acordo comercial entre
Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, porque o "mercadozinho regional",
como dizia, travava as negociações em torno da Alca, acordão
que interessa muito aos americanos.
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