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Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
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As bruxas de Washington

As economistas americanas são
mais duronas que os homens



Irmo Celso
Anne Krueger: a favor do trabalho infantil e de que as crises financeiras machuquem os políticos


Elas são duronas. Quando contrariadas, são más mesmo. São dogmáticas, inflexíveis e resolvedoras de problemas. Elas são as bruxas de Washington, como a comunidade acadêmica americana, com um misto de temor e admiração, chama as economistas Anne Krueger, Laura Tyson, Alice Rivlin e Charlene Barshefsky. Na semana passada, a mais feroz delas, Anne Krueger, foi indicada para ocupar o segundo posto em importância no Fundo Monetário Internacional (FMI). Economista filha de australianos, Anne Krueger já viveu na Suécia, na França, na Alemanha e na Turquia. Aos 67 anos, professora de economia internacional na Universidade Stanford, ela é o que parece – defensora ferrenha do mercado, do câmbio livre e da total liberdade de trânsito para o capital. É contra salvar países a caminho de crises. Prefere ver os políticos se prostrarem, sentirem as dores provocadas por seus próprios erros e só então impedir que o desastre se alastre pelo mundo. A professora Krueger será a primeira mulher a assumir um cargo de chefia no FMI. Deverá substituir o doce Stanley Fischer, e já se sabe que não passará despercebida. Krueger planeja abrir os trabalhos com uma reforma. "Ela é um dínamo", diz Gavin Wright, diretor da Universidade Stanford.

Em 1999 ela foi chamada a depor num processo que os americanos moviam contra indústrias siderúrgicas do Brasil, do Japão e da Rússia. Ignorou solenemente os lobistas e seus deputados de Washington. "A indústria americana tem de se modernizar e se tornar mais competitiva. O protecionismo não trouxe crescimento nem criou empregos nos Estados Unidos. Não há por que retaliar produtos estrangeiros se são feitos por empresas mais eficientes." Em outubro do ano passado chutou outro dogma muito caro aos líderes americanos: "Em muitos países desenvolvidos as pessoas não entendem que o trabalho infantil existe não porque os pais sejam cruéis, mas porque a alternativa é a fome, a prostituição ou a vida nas ruas".

A professora Krueger é da estirpe de Alice Rivlin, ex-vice-presidente do banco central americano, o Fed, e atual administradora de finanças da capital dos Estados Unidos. Aos 69 anos, Alice pratica montanhismo, e dizem que só sorri para os netos. Como qualquer boa dona-de-casa, é especialista em controlar gastos. Renunciou ao cargo que tinha no Fed para fazer o que mais gosta: faxina. Em seis meses acertou as contas de Washington, que se debatia com a ruína havia duas décadas. Sob sua vassoura, a capital federal ficou um brinco. Recebeu investimentos privados, ganhou credibilidade para tomar empréstimos, e seus títulos públicos passaram a pagar juros mais baixos. "Não agüento governos perdulários que contratam dívidas absurdas para cobrir gastos absurdos", diz.

"Ela cospe fogo", escreveu o jornal The New York Times sobre Charlene Barshefsky, que dirigiu o departamento de comércio americano no governo Clinton. Foi ela quem conseguiu dobrar a coluna dos chineses e fazê-los aderir às regras da Organização Mundial do Comércio. Esbravejou contra o Mercosul, acordo comercial entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, porque o "mercadozinho regional", como dizia, travava as negociações em torno da Alca, acordão que interessa muito aos americanos.

 
 
   
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